Bebidas

Cultura enológica

Seu hábito é tomar vinhos simples? Veja como apreciar rótulos cada vez melhores

Pesquise, leia, faça viagens enogastronômicas e sobretudo... deguste! Especialistas dão dicas práticas

por Andrea Torrente Publicado em 09/05/2018 às 18h
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O tempo é um fator importante no mundo dos vinhos: assim como ao longo dos anos é capaz de melhorar um grande rótulo, permite que um dedicado apreciador da bebida evolua e se aprimore nesse vasto e, em aparência complicado, universo feito de milhares de tipos de uvas, centenas de denominações de origens e dezenas de regiões produtoras.

Se você toma vinho regularmente e sem pretensões pois fica desanimado em relação à grande quantidade de informações relacionadas à bebida, fique tranquilo: você não está sozinho. A maioria dos consumidores bebe rótulos com preços acessíveis pelo simples prazer de apreciar um bom vinho, sem se preocupar com toda a teoria — e às vezes as firulas — que estão por trás de uma garrafa.

Mas se você, que toma vinho há um bom tempo, está cansado da qualidade dos rótulos que custam até R$ 50 e sonha em experimentar algo de categoria superior, o Bom Gourmet vai ajudá-lo nessa tarefa. Sair por aí comprando vinhos caros não é a solução: além de pesar demais no bolso, eles podem frustrar nossas expectativas caso não tenhamos o conhecimento necessário para “entender” aquele rótulo. O preço salgado é o maior entrave para sair da mesmice, mas, afinal, quem garante que gastando mais terei um vinho melhor?

Para você começar a desbravar o mundo dos vinhos que custam na faixa intermediária entre R$ 60 e R$ 120 —  ou seja, acima dos rótulos mais populares e abaixo dos tops de linha —, o Bom Gourmet realizou uma degustação às cegas de 58 tintos apontados pelas importadoras como as apostas deste inverno e selecionou os 25 melhores rótulos. O objetivo é criar um pequeno guia que possa servir de norte para você não errar na hora de escolher sua próxima garrafa. Seguindo nossas dicas e recomendações, aos poucos você será capaz de alçar voo sozinho.

“A melhor maneira de aprender sobre vinhos é beber com frequência. O apreciador vai aprendendo e transitando nas faixas de preço. Sempre lembrando que nem sempre o vinho mais caro é o que agrada”, diz Guilherme Rodrigues, enófilo com mais de 25 anos de experiência, membro de importantes confrarias internacionais e colunista do Bom Gourmet.

Prove, prove, prove

taça vinho tinto com decanter

Alguns vinhos precisam de decanter para oxigenar e liberar os aromas. Foto: Alexandre Mazzo/Gazeta do Povo

Degustar vinhos envolve rituais que podem, à primeira vista, assustar o consumidor médio, como levar a taça em contraluz para analisar a cor, cheirar para avaliar os aromas e, por fim, degustar a bebida para traçar o perfil do sabor. Afinal não é nada diferente do que acontece na degustação de outras bebidas menos “assustadoras” (como cerveja ou café, por exemplo). O fato é que o vinho carrega consigo o estigma de bebida elitizada.

Vendas de vinho cresceram 5,67 em 2017 no Brasil

Então ler, estudar e pesquisar sobre a bebida que se tem no copo, mesmo sozinho em casa, pode ser uma boa maneira de aprender e se sentir mais confortável quando numa mesa com amigos ou desconhecidos o assunto for vinhos. “Hoje em dia com a tecnologia é muito fácil buscar informações sobre uvas, regiões produtoras e vinícolas. Ler e pesquisar é importante para entender o que estamos bebendo”, explica João Manoel Garcia, médico de profissão e enófilo há mais de 20 anos, que integrou o painel de degustadores da prova do Bom Gourmet.

“No Brasil temos a desvantagem do preço, mas, em relação aos grandes países produtores, há a vantagem de ter acesso a rótulos do mundo inteiro”, avalia Garcia. Esse fator pode até ser mais um complicador na hora de escolher um rótulo porque obriga o consumidor a se desemaranhar entre um número elevado de variáveis: regiões, uvas, produtores do mundo inteiro. “A minha dica é: pergunte para o lojista. Hoje muitos mercados têm um especialista em vinho à disposição. Não tem que ter vergonha de perguntar”, sugere o enófilo.

Ter acesso a vinhos de categoria superior, como os grandes franceses ou italianos, pode mesmo pesar no bolso. Então porque não juntar alguns amigos com a mesma paixão e dividir os custos. “Monte um grupo de quatro a seis pessoas com o mesmo interesse e compre vinhos mais caros e diferentes. Participe de jantares e confraternizações e aos poucos aumente o patamar dos vinhos que você toma”, recomenda Luiz Carlos Zanoni, jornalista e enófilo que também participou da prova do Bom Gourmet.

Tente sair da zona de conforto, prove uvas e bebidas de países que você não conhece e não julgue um vinho pelo rótulo. Nem sempre as garrafas mais bonitas e mais caras contêm o melhor vinho.

Enoturismo e viagens

Frequentar cursos, workshops ou até aulas avulsas é outro caminho para aprender mais sobre o vasto universo de Baco. “Busque um professor, um sommelier ou uma escola que tenha uma abordagem com a qual você se identifique. Hoje há muitas formas de se ensinar sobre vinho, das mais antiquadas até as mais modernas e leves, mas não por isso menos informativas”, explica Wagner Gabardo, sommelier e professor da escola curitibana Alta Gama.

Para quem gosta de viajar, porque não considerar colocar no roteiro turístico algumas visitas a vinícolas. “Além de começar a entender o que você está bebendo, você conhece as pessoas que estão por trás do vinho, do cultivo, da cantina. E você passa a entender os processos aplicados no cultivo e na vinificação e o custo que existe por trás daquele trabalho”, diz Gabardo.

Produção nacional

Se você já viajou com a mente para Portugal, Espanha, França, Itália ou, quiçá, Califórnia e África do Sul, não se preocupe. Nem precisa ir muito longe para se aproximar dos produtores. No Brasil há centenas de empresas vinícolas na Serra Gaúcha, muitas premiadas até internacionalmente.

E se o Rio Grande do Sul ainda é longe demais, Santa Catarina conta com dezenas de vinícolas. Assim como, e muitos não sabem, a própria região metropolitana de Curitiba também conta com alguns produtores que oferecem visitas guiadas e degustações de seus rótulos.

Adega

adega vinho

Adega do projeto Legdens, da incorporadora A. Yoshii, em Curitiba. Foto: Alexandre Mazzo/Gazeta do Povo.

O passo seguinte, e até natural para quem cultiva a paixão pelo vinho, é começar a montar a sua própria adega. É um trabalho de formiguinha: os vinhos que custam mais caros no Brasil podem, por exemplo, ser trazidos do exterior onde saem por um preço mais em conta. Outros, com potencial para guarda, podem ser comprados ainda jovens, por um preço acessível, e armazenados para serem consumidos depois de anos.

Uma pequena adega climatizada, com capacidade para poucas garrafas e que não ocupa muito espaço, é um bom compromisso para quem ainda está começando e busca uma boa relação custo/benefício. O porão de casa ou a garagem, lugares frescos e com boa umidade, também podem ser aproveitados para armazenar as garrafas.

Já o passo seguinte é investir em espaços dedicados, como o apresentado na foto acima, que mostra uma sala climatizada com capacidade para dezenas de garrafas em um apartamento de 272 metros quadrados (o projeto é o Legends da incorporadora A. Yoshii, em Curitiba).

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Vinho básico X vinho complexo

taça vinho tinto garrafa

Foto: Alexandre Mazzo/Gazeta do Povo.

Qualidade

Em linha geral, o preço do vinho depende da qualidade. Vinhos mais caros são (quase) sempre de categoria superior. Isso porque foram feitos com uvas de vinhedos de menor rendimento e passaram por processos de vinificação mais cuidadosos. Até o envelhecimento por meses ou anos em barrica ou a guarda em garrafas (como no caso dos champagnes) é mais um fator que acaba encarecendo o produto.

Complexidade

Vinhos mais baratos não têm a mesma complexidade de aromas e sabores dos mais caros. Os primeiros são vinhos pensados para um consumo imediato, poucos meses após o engarrafamento. Alguns podem ser agradáveis, com um leve toque floral ou de frutas, de corpo leve ou médio e um bom equilíbrio. Mas é igualmente fácil encontrar rótulos desequilibrados por ter alguma característica em excesso: madeira e taninos (aquela sensação de ter a boca “amarrada”) em exagero, frutas ou doçura em demasia, ou até aromas poucos agradáveis.

Aromas

Os vinhos tintos apresentam no geral aromas de frutas vermelhas e negras, já os brancos remetem a frutas de polpa branca, frutas cítricas e notas herbáceas. Se o vinho passou por barrica de carvalho terá especiarias como cravo, canela, pimenta, noz moscada, baunilha, notas tostadas e defumadas, caramelo, chocolate, coco queimado, café e até couro. Durante a degustação, prove o vinho várias vezes a cada 15 minutos para perceber como mudam os aromas.

Defeitos

Ao provar o vinho repare se não há defeitos como o famoso bouchonné (gosto que a rolha transmite à bebida), cheiro sulfuroso (gosto de enxofre) ou oxidação (gosto metálico).

Temperatura

Erro muito comum é servir o vinho em temperatura acima ou abaixo da ideal, o que vai desequilibrar a bebida e acaba comprometendo a degustação. Tintos, no geral, tem temperatura de serviço entre 16 e 18 graus C; brancos entre 8 a 10 graus C. Se o vinho for de guarda, deixe aerar no decanter para abrir os aromas e amaciar os taninos.

8 opções de decanter a partir de R$ 69

Fonte: Flávio Bin, sommelier da importadora Porto a Porto

PEÇAS USADAS NAS FOTOS

Taças e acessórios: Bergerson Presentes – Alameda Presidente Taunay, 45 – Batel – (41) 3304-4426.

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