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Valéria e o marido Dieter Woltmann com certificado de saúde: nosso “passe” de entrada e saída do condomínio durante a quarentena.
Valéria e o marido Dieter Woltmann com certificado de saúde: nosso “passe” de entrada e saída do condomínio durante a quarentena.| Foto:

Tudo passa, tudo passará. Depois de quase 50 dias de isolamento social em Chengdu, sudoeste da China, as portas de casa se abrem definitivamente, a quarentena acabou!

O grande dia chegou, tínhamos certeza, ele chegaria! Mas estranhamente, junto com ele, muitas emoções se somaram. Perguntas novas, repaginadas, ganharam espaço neste novo ciclo. E dentro dessa avalanche de emoções, uma pergunta ecoa: "Quem você deseja ser após a quarentena? Quanto você está se dedicando em sua melhor e mais linda versão?.

Quando as portas se abriram definitivamente no fim do isolamento social, a primeira saída, o primeiro passeio, o primeiro final de semana sem controle de entradas e saída, (lembrando que nesta última quinzena, por apartamento, um familiar tinha passe para três saídas por semana), nos mostrou que tudo foi muito mais intenso do que imaginávamos. No decorrer do dia, da liberdade, em muitos gestos, cenários e situações que nos remetia a um passado, fomos percebendo: não somos mais como éramos antes, nos sentimos melhor, mais presentes, mais gratos, mais seres humanos de verdade!

Essa foto é da rimeira saída pós quarentena: na rua sempre temos que passar pelo controle de temperatura corporal, é obirgatório. Foto: Arquivo pessoal.
Essa foto é da rimeira saída pós quarentena: na rua sempre temos que passar pelo controle de temperatura corporal, é obirgatório. Foto: Arquivo pessoal.

Importante ressaltar que todos os controles mandatórios que seguem a etiqueta social de controle do COVID-19 do país estão mantidos até o momento.

E as lições, os novos hábitos, os novos amigos, resultados deste isolamento social, desta quarentena, vão se apresentando aos nossos olhos, à alma e ao coração, de forma sutil, e o que nos resta, é agradecer cada lição vivida. Essas lições, de sobrevivência, começam a fazer sentido. Imagino que esta percepção esteja só começando, e por decisão definitiva, sem imposição, as “convidaremos” para entrar e fazer parte definitivamente da nossa vida! Uma nova versão, porque não uma novo e melhor sentido da vida!

A cozinha da quarentena

O lar, o grande palco desta experiência, nos apresentou em seus cômodos com grandes astros e estrelas, que pela correria do dia a dia, mantínhamos nos bastidores. Mas agora ganharam o espaço merecido, os de protagonista nos novos capítulos das nossas histórias.  E a cozinha, um dos principais cenários, despertou novos amigos, nos apresentou suas facetas como terapeuta, economista, conciliadora, nos presentou com encantos e magia que aproximou ainda mais a família, novos e velhos amigos, fortaleceu ainda mais o amor.

Um wrap com o que tinha na geladeira: abacate, isquinha de frango, alface, tomate, lâminas de queijo. Foto: Arquivo pessoal.
Um wrap com o que tinha na geladeira: abacate, isquinha de frango, alface, tomate, lâminas de queijo. Foto: Arquivo pessoal.

Este palco, habitado pouquíssimo por mim, me levou a descobertas simples e até divertidas. Descobri que vilões da minha vida toda, como o pimentão, a cebola, o repolho, itens que nos meus 50 anos nunca tive coragem de enfrentar (por não gostar é claro), são bonzinhos, são camaradas, e que se picados bem pequenininho só fazem bem.

E a geladeira, gentil parceria neste ato de desbravar o novo mundo, foi me surpreendendo de um jeitinho todo especial com mais sabores todos os dias. Sabores que às vezes “moravam” lá e eu nunca os tinha misturado, combinado, visto, e que agora promoviam elogios à mesa. E assim a curiosidade foi aumentando, as limitações diminuindo.

Descobri que cozinhar não é um bicho de sete cabeças, mas simultaneamente descobri que adoro pratos rápidos, simples, e que há muitas receitas desta categoria nas mídias sociais perfeitos para nossa vida, para o nosso perfil, e simples, rápido.

Descobri que posso me organizar, posso fazer de tudo, com uma frigideira e uma panela de sopa, e me impus disciplina, planejamento, e isso me premiou com pouca louça pra lavar, e assim, ficou ainda mais prazeroso, ficou mais fácil me superar!

E esse palco, mesmo pequeno, ao vivo e em cores, é generoso, convida outros astros a entrar e compartilhar a magia do cozinhar online! Aprendi que cozinhar simultaneamente online com novos e velhos amigos é divertido, é uma grande farra, como participar de desafios, aulas online, planejar o cardápio das refeições, compartilhar dicas e fornecedores. E claro, aquelas comprinhas em grupo para pedir um descontinho ao fornecedor, um frete especial.

Testar sugestões inusitadas, sair do quadrado, surpreender, de repente se transformou em mantra. Mesmo em uma cozinha pequena, a família se uniu, os amigos se aproximaram mesmo distantes. E assim, o tempo passou e de repente uma frase se destacou: “Como o dia passou rápido demais!”

E dessa correria boa, ainda sai negócio, oportunidades. De repente, nos novos grupos, entre os novos amigos, habilidades, pratos, especialidades se destacam. Fazer queijo, pão, coxinha para algumas, até então por lazer, vira negócio. Então bora encomendar daquela que melhor sabe fazer, e que nos salva quando a estratégia de compra falha, quando não se tem mais algum importante ingrediente, e não se pode sair para comprar. E aí por drones, por motoboy, por Didi (Uber chinês), a entrega será a grande e única “salvadora da pátria”.

E viva os entregadores! Que de surpresa podem também serem contratados para levar um agrado a uma família amiga. Sabe aquele bolo gostoso, aquele quitute, aquela receita fantástica que você fez e deu certo.? Manda um pedacinho, se faça presente distante.

E não esqueci de outros novos entregadores que surgiram! Entregadores garçons, entregadores caixas de restaurantes (fechados naquele momento), entregadores administradores, estudantes, pessoas importantes que foram se enquadrando, muitos por necessidade, em novas atividades, em uma nova profissão. Eles ajudaram o país a não parar, entregaram 24h por dia tudo que se imaginava, na quantidade necessária para a engrenagem não parar.

E falando em economia, negócios, oportunidades, nessa mudança de hábito imposta nos mostrou no decorrer destes 50 dias que o melhor gerenciamento do cardápio diário nos levou ao melhor controle das compras também. Uma planilhazinha doméstica evitou a compra desproporcional realizada por impulso e acabou nos trazendo economia.

E você, quem será após a quarentena? Com certeza, uma pessoa ainda melhor, ainda mais feliz e iluminada!

*Valéria Vicenti mora com o marido em Chengdu, sudoeste da China. Entusiasta por empreendedorismo e pela disseminação de vivências e experiências, pela disseminação do conhecimento. Feliz por estar tendo a grande oportunidade de aprender com a beleza e história da arte e cultura de um país que não dorme, não pára, que nos encanta, que cresce e inova a todo o instante.

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