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Praia de curitibano é comer na rua

Com cada vez mais pratos servidos ao ar livre, curitibano mostra que o movimento do street food deixou de ser tendência e já é realidade

por Andrea Torrente Publicado em 04/11/2016 às 18h
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Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Sardinha na brasa do Olivença (R$ 24): desde 2013, o restaurante promove, nos finais de semana, o Gastronomia na Calçada. Com poucas mesas, a maioria das pessoas fica em pé em uma bancada. No cardápio há também espetada de camarões. (R$ 29). Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Comer em pé na rua: quem disse que não é coisa de curitibano? Estigmatizado como reservado, a preferir o shopping no fim de semana ou de ficar em casa à noite debaixo do cobertor, o público da capital na verdade tem mostrado um outro lado, mais descontraído, apreciador do ar livre e, sobretudo, de boa comida.

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Basta um hambúrguer caprichado, um pedaço de pizza para morder andando ou um restaurante que serve pratos na calçada no fim de semana que logo se forma uma fila de clientes. É a revolução da comida de rua curitibana. E com direito a lambuzar os dedos.

“Curitiba não tem mar, mas tem bar, dizia Paulo Leminski”, relembra Rafael Fusco, sócio do Pizza, miniloja especializada na pizza al taglio que serve fatias num papel rústico para comer com as mãos, à moda de Roma. “Sempre teve demanda das pessoas para ocupar a cidade, mas faltava a oferta. A rua precisa de vida, e a gastronomia permite reunir as pessoas, estimular a troca”, afirma o empresário.

A sua pizza tem massa fina e crocante, a quantidade de recheio é equilibrada para permitir ao cliente segurar a fatia sem se sujar, e os sabores variam a cada fornada (R$ 6,50 o pedaço). A pizzaria conta com unidades na Rua São Francisco e na Vicente Machado e, neste mês, vai inaugurar mais uma na Carlos de Carvalho, no Centro. Em 2014, Fusco foi um dos empresários que se envolveu com a revitalização da Rua São Francisco. Hoje a charmosa ruazinha abriga diversos estabelecimentos como bares, café, hamburgueria e restaurantes.

Pizza de legumes servida na miniloja do Pizza, na Rua São Francisco, que fica lotada nos fins de semana à noite.

Pizza de legumes servida na miniloja do Pizza, na Rua São Francisco, que fica lotada nos fins de semana à noite. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

A comida de rua sempre existiu, mas ao lado dos tradicionais carrinhos de pipoca e de cachorro-quente hoje se multiplicam as opções, inclusive aos fins de semanas graças às feiras gastronômicas. Sem esquecer dos food trucks que estão pipocando nas ruas ou em eventos particulares e que servem praticamente qualquer tipo de comida, desde massas a pratos árabes.

A “urban food revolution” é liderada pelos hambúrgueres e pelos chopes artesanais. Em torno da hamburgueria Whatafuck, na Avenida Vicente Machado, aberta em 2015, por exemplo, se criou um verdadeiro polo gastronômico, que lota as noites da chamada “prainha” do Batel. A miniloja tem três mesas no interior, não tem garçons e conta com um cardápio enxuto. São só quatro opções: carne, calabresa, vegetariano (R$ 10) ou duplo de carne (R$ 15).

Hambúrguer de Angus, muçarela, tomate, cebola roxa e maionese verde (R$ 10) do Whatafuck; a hamburgueria agita as noites da “prainha” do Batel.

Hambúrguer de Angus, muçarela, tomate, cebola roxa e maionese verde (R$ 10) do Whatafuck; a hamburgueria agita as noites da “prainha” do Batel. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

O de carne é feito com corte dianteiro de raça Angus, leva queijo muçarela, cebola roxa, rodela de tomate e maionese verde. O sanduíche é embalado em um papel para o cliente poder comer de pé na calçada. Para beber, chopes artesanais de Curitiba e região. “O crescimento da cerveja artesanal em Curitiba contribuiu para fomentar o fenômeno da comida de rua”, avaliam os sócios Daniel Mocellin e Guilherme Requião. Os pedidos e a retirada dos burgers são feitos por uma janelinha que abre para a rua.

E já que o hambúrguer casa perfeitamente com batata frita, eles abriram recentemente também o Roots (Av. Vicente Machado) loja que vende fritas servidas no cone e acompanhadas de molhos caseiros (R$ 6). A inspiração veio do street food típico em países como Bélgica e Holanda. Diariamente jorram das torneiras também 15 opções de chope de várias regiões do país.

Batata frita com molho à escolha (R$ 6) do Roots, pequeno local sem mesas na Vicente Machado: a ideia é pegar o cone e comer na rua, à moda de países como Bélgica e Holanda.

Batata frita com molho à escolha (R$ 6) do Roots, pequeno local sem mesas na Vicente Machado: a ideia é pegar o cone e comer na rua, à moda de países como Bélgica e Holanda. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

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Apesar da  chuva e do frio, típicos de Curitiba, a comida de rua cresceu muito. Essa revolução mostra que o curitibano não é tão caseiro como se pensava e que gosta  de estar ao ar livre.

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Mudança de comportamento

Empresários que apostam na comida de rua avisam: o segredo do sucesso é ter um menu enxuto, com pratos bem feitos e por um preço acessível. “A crise econômica potencializou a busca por refeições mais casuais”, avalia Raphael Zanette, dono das renomadas casas do Grupo Vino!, e que também passou a surfar na onda da street food.

O Olivença lançou no final de 2013 o projeto Gastronomia na Calçada para aproveitar o espaço em frente ao restaurante e os fins de semanas ensolarados. O menu é mais informal que no interior e tem tíquete médio de R$ 30. A inspiração veio dos restaurantes de Portugal.

Todo último sábado do mês, sardinhas na brasa são servidas com salada de cebola e batata (R$ 24); outra especialidade é a espetada de camarão (R$ 29). Nos outros fins de semanas se espalha pela rua o cheiro convidativo dos hambúrgueres de costela (R$ 16) e de javali (R$ 19) ou da bisteca de cordeiro.

“O que aconteceu em Curitiba não vi em nenhuma outra cidade brasileira”, afirma Afonso Natal Neto, um dos sócios do Sirène, pequeno bar na Trajano Reis especializado no fish and chips. A porção de filé de tilápia empanada e frita é servida no cone (fácil para o cliente sair comendo) e acompanha batata rústica e molhos caseiros como maionese verde ou molho picante (R$ 15). “O fish and chips já existia nos restaurantes de Curitiba, mas nós trouxemos o prato para o conceito de comida de rua, como nos países anglo-saxões”, explica Neto.

Para pegar e sair andando: fish and chips no cone (R$ 15) do Sirène , na Trajano Reis; o filé é de tilápia e o cliente escolhe o molho de acompanhamento.

Para pegar e sair andando: fish and chips no cone (R$ 15) do Sirène , na Trajano Reis; o filé é de tilápia e o cliente escolhe o molho de acompanhamento. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

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“Muita gente trata a comida de rua como moda, mas é muito além de algo passageiro, é um passo rumo à modernidade e urbanização.”

Sergio Molinari, diretor da empresa paulistana de consultoria Food Consulting.

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Feiras gastronômicas

Comida descolada, bem feita e ao ar livre é a receita de sucesso também dos food parks e das feiras gastronômicas que aos fins de semana agitam várias regiões da capital. “A primeira edição, em dezembro de 2012, surgiu com o objetivo de oferecer comida de qualidade por um preço mais acessível”, explica Vinicius França, um dos organizadores do Alto Juvevê Gastronomia, que já tem 16 edições.

Realizada quatro vezes por ano na Praça Mario Eppinghauss, no Juvevê, não tem cardápio fixo: as barracas mudam a cada edição e as opções incluem massas, hambúrgueres, sanduíches, chopes, cafés e sobremesas – os preços vão de R$ 5 a R$ 25. Tradicionais casas curitibanas já passaram pela feira servindo suas especialidades.

“Alguns restaurantes inclusive nasceram dentro da feira, como o MeatPack House do chef Rodrigo Martins [consultor de casas conceituadas] que começou a fazer o pão com linguiça no Alto Juvevê e agora tem uma loja fixa”, conta França.

O Centro Cívico também tem sua feira, o Gastronomia no Palácio, realizado periodicamente na Praça Nossa Senhora da Salete; no Bigorrilho acontece o Empório Soho, que lota a Praça da Espanha.

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

O Empório Soho, evento gastronômico realizado na Praça da Espanha, já teve quinze edições. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Food trucks e calçadas

Com a legislação municipal que não agradou os donos de food trucks – a licitação pública foi boicotada pela Associação Paranaense de Food Trucks, por discordar com as exigências do edital da Prefeitura de Curitiba – ainda é cedo para dizer se a revolução prometida pelos caminhões de comida veio para ficar. Com o boicote, a maioria dos caminhões atualmente opera apenas em locais particulares como estacionamentos, eventos e food parks. Mesmo assim, algumas novidades já são visíveis nas ruas de Curitiba.

A empresária Eloisa Carraro, do food truck Mulher Massa, espera aproveitar a onda da comida de rua. Ela foi a única participante da licitação e tem o primeiro veículo autorizado a servir comida em locais públicos (os que têm alvará para atuar em lugar particular eram 26 até 14 de outubro, segundo a Secretaria de Urbanismo). No cardápio há cinco tipos de massa caseiras, como penne e ravióli, e quatro molhos à escolha como pesto e bolonhesa. A porção de 330 g é servida numa caixinhas de papel (R$ 10).

Massa caseira com molho à escolha do cliente (R$ 10) servida no food truck da Mulher Massa em frente à Igreja do Cabral; o caminhão de comida é o único autorizado pela Prefeitura a estacionar em locais públicos de Curitiba.

Massa caseira com molho à escolha do cliente (R$ 10) servida no food truck da Mulher Massa em frente à Igreja do Cabral; o caminhão de comida é o único autorizado pela Prefeitura a estacionar em locais públicos de Curitiba. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

O veículo, que começou a trabalhar em outubro, estaciona às segundas, quartas e sextas na Praça São Paulo da Cruz, no Cabral, e às terças, quintas e sábados no Parque Barigui (perto do heliponto), sempre das 11 às 15 horas. “A expectativa não podia ser melhor”, diz Carraro. Sempre na questão legislação, em maio deste ano, a Câmara Municipal de Curitiba aprovou uma alteração à lei 9.688/99 que regulamenta de maneira mais clara o uso da calçada por parte da bares e restaurantes. Esse foi mais um avanço para estimular a comida ao ar livre.

Cachorro-quente

Símbolo da tradicional comida de rua, o cachorro-quente também passou por uma revolução nos últimos anos. Não só os carrinhos aumentaram de tamanho, mas também colocaram banquinhos, mesas e toldos à disposição dos clientes. As receitas também ficaram cada vez mais requintadas, inovadoras e ousadas. Muitos donos desses carrinhos viraram empresários formais e abriram unidades fixas.

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“Parece coisa fácil de se imaginar, mas há 40 anos era difícil fazer um lanche fora de casa”, conta César Brecailo, diretor do Au-Au e filho do fundador da rede curitibana. A marca, que nasceu em 1974 com um carrinho, conta hoje com 15 lojas no Brasil. Mas, para continuar a tradição, ainda mantém um carrinho em frente a cada unidade. “Com menos tempo e mais trânsito, as pessoas comem mais próximo do local de trabalho. O ritmo da vida atual faz com que surjam novas tendências nas cidades como a explosão da comida de rua”, afirma Brecailo.

O cachorro-quente continua tanto no gosto do curitibano, que um evento dedicado a ele, a Vinada Cultural promovida pelo Bom Gourmet, é o maior sucesso ano após ano. Durante o evento, que chegou em 2016 à quarta edição, estabelecimentos de cachorro-quente apresentam receitas exclusivas do célebre sanduíche com vina, tudo num mesmo lugar, e ao livre.

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