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Coluna Flor de Sal

O amargo gosto da desigualdade de gênero no mundo do café

por Gabi Mahamud, colunista do Bom Gourmet Publicado em 11/01/2020 às 15h
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Nunca fui muito do amargo. Segundo Glynn Christian, no livro “Como cozinhar sem receitas” (Editora Gutenberg, 2012), pode ser que meu paladar seja mais sensível a esse gosto do que outras pessoas. Por lógica, nunca gostei de café. Aprendi a tomar na época da faculdade por motivos quase óbvios, mas era aquele café bem melado, cheio de açúcar, do Diretório Acadêmico, que a gente apelidava carinhosamente de “cháfé”, por ser bem ralo.

Curitiba é conhecida Brasil afora não só pelo seu ar inovador, mas também por seus cafés e restaurantes sempre tão focados em qualidade e criatividade. Lembro que meu primeiro contato com bons cafés foi em Curitiba, antes mesmo de me mudar definitivamente para a cidade. Aprendi a gostar de fato quando comecei a entender sobre e, certamente, a tomar bons cafés. Percebi que o amargor não era regra, e que boas torras poderiam ter, na verdade, sabores bem agradáveis. Notei que eu tenho um tipo de café preferido, assim como vinho. Mas o que me fisgou mesmo nesse mundo complexo do café foi a recente campanha feita na cafeteria Supernova. Intitulada “Mulheres produzem café”, a ideia é trazer à luz mulheres envolvidas no processo de produção da bebida e que, muitas vezes, desempenham papéis importantíssimos sem que sejam reconhecidas.

>>> Projeto Consolida joga luz ao trabalho das mulheres na produção do café brasileiro

Que o universo da gastronomia é um ambiente de muita desigualdade, em termos de gênero, estamos cansados de saber. Já parou para prestar atenção em quantas mulheres você vê nas listas de grandes prêmios como o 50 Best Restaurants e Michellin? Quem acompanha de perto a jornada da nossa estrela Manu Buffara sabe quanto suor e garra estão envolvidos.

Em conversas com o Luiz Melo (Supernova), a Laís Leão (inCities) e com a Rafaella Peres (projeto Mulheres Produzem Café), descobri que além de as mulheres serem também as mais impactadas pelas mudanças climáticas e pelo uso de químicos na produção de alimentos, o panorama de desigualdade tem uma raiz no machismo estrutural/cultural, já que, ainda que nós mulheres ocupemos muitos lugares no mercado de trabalho no geral, quando a produção de alimentos é voltada para casa ela é associada ao feminino, mas quando voltada para o comercial, para o elitizado, premiado e público, ela passa a ter associação ao masculino.

Brownie de chocolate com café de Gabi Mahamud, colunista do Bom Gourmet. Foto: Divulgação

Brownie de chocolate com café de Gabi Mahamud, colunista do Bom Gourmet. Foto: Divulgação

Se pararmos para pensar nesse contexto historicamente, enquanto as mulheres urbanas estavam lutando por seus lugares na sociedade e direitos de trabalho, as mulheres rurais estavam sempre na produção (condição permanente) desde o fim da escravatura, quando o trabalho começou a ser levado em conta. Hoje, em países em desenvolvimento, as mulheres são 43% da força de trabalho e, ainda assim, uma parcela ínfima é realmente dona de uma propriedade rural. O nome escriturado dessa propriedade ou o reconhecimento da produção dificilmente é da mulher.

Muitas produzem, mas não aparecem na assinatura dos produtos, não vemos muitas mulheres em campeonatos e, muitas vezes, nem em cafeterias especializadas. Assim como na gastronomia em geral, o ambiente do café é masculino. Na produção, a desigualdade é ainda mais forte, porque os avanços em relação à igualdade chegam sempre em atraso. A Rafaella me contou, por exemplo, que só depois de 2013, com o projeto Mulheres Produzem Café, por iniciativa do Instituto Emater, as mulheres cafeicultoras do Paraná começaram a ter um atendimento diferenciado e voltado à produção de cafés especiais.

Outro ponto é que existe também uma glamourização do trabalho feminino rural, sendo que muitas vezes o trabalho é pesado, exige força, não é delicado ou leve. Por isso, o projeto e a campanha começaram a mostrar quem são os rostos por trás da produção de café na região Sul. Estão mostrando a força, capacidade e responsabilidade que essas mulheres têm. No Brasil, já existem inúmeros outros projetos como esse, com o intuito de fortalecer e reconhecer a presença feminina onde quer que ela esteja.

Foi assim que eu acabei me apaixonando pelo outro lado do café, o lado em que o amargo vira causa. Sigo estudando e entendendo como posso fazer parte desses movimentos. Mulheres que me leem, vos peço: comprem local, comprem de mulheres, enalteçam o trabalho de outras mulheres. Procurem ao menos um desses projetos e ajudem a divulgar. Nós já ocupamos os espaços em que estamos e pertencemos, que a gente lute pelo desenvolvimento e reconhecimento dele, juntas.

E para adoçar a conversa, uma receita de brownie de cacau com café:

* * Gabi Mahamud é chef e culinarista, autora do blog e livro best seller Flor de Sal e fundadora do projeto social Good Truck.

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