Garrafas vinho
Vinícolas brasileiras serão as mais afetadas pela falta de garrafas de vidro neste ano.| Foto: Ralph Ravi Kayden/Unsplash

A indústria de food service deve ficar pelo menos até o segundo semestre com o gargalo da falta de embalagens e vasilhames para os produtos vendidos. É o que prevê a consultoria de mercado Neogrid, especializada na sincronização da cadeia de suprimentos, que apurou uma baixa variação na chamada ruptura de mercado desde o início da pandemia no ano passado e janeiro de 2020.

A ruptura é o índice que mede a falta de produtos nas prateleiras dos supermercados, e vem em uma crescente desde setembro após uma leve variação para baixo. Segundo a Neogrid, a falta de insumos para a indústria chegou a 12,49% em janeiro, apenas 0,08 ponto porcentual abaixo do pico da pandemia, quando chegou a 12,57 em maio de 2020.

Isso aconteceu por conta da paralisação das atividades de diversas indústrias no ano passado por causa da pandemia do coronavírus, quando grandes contingentes de trabalhadores foram colocados em férias coletivas para se evitar o avanço da doença – pouco se sabia sobre os impactos dela e como conciliar a produção com segurança.

Não à toa, indústrias de cervejas e vinhos relataram dificuldades em dar vazão à produção por conta da falta de latas de alumínio, garrafas de vidro e papelão para embalar os produtos. Segundo Robson Munhoz, CCO da Neogrid, a indústria voltou gradativamente a produzir os insumos, mas ainda sofre para conseguir suprir a demanda represada.

“E isso vem causando transtorno na indústria que impacta toda a cadeia de abastecimento. A indústria não consegue embalar e nem produzir produtos e, com isso, atrasa produção e entrega", explica.

De acordo com os dados mais recentes da consultoria, a falta de insumos durante a pandemia alcançou o menor nível apenas no mês de setembro, quando chegou a 11,44% (0,37 ponto porcentual acima do período pré-pandemia). Depois disso, o índice voltou a subir.

Gargalo ao vinho

Em meados de novembro de 2020, a indústria cervejeira nacional já tinha relatado a falta de garrafas de vidro para envasar a produção, e logo depois as vinícolas também reforçaram a dificuldade. Deunir Argenta, presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), diz que os produtores precisaram importar vasilhames da Argentina e do Chile para dar vazão à crescente produção nacional de vinhos.

Por isso o mercado não chegou a ter falta de vinhos, mas ele conta que os preços poderiam ter sido um pouco menores se não houvesse esse gargalo. O consumo de rótulos nacionais deu um salto de 56% durante a pandemia por conta da alta do dólar, que encareceu os importados.

“O problema é sério. No início, a pandemia trouxe a insegurança do que estava por vir. Tivemos a maior safra e depois, favorecidos por diversos fatores, vimos o consumo dos vinhos nacionais despontar. E mesmo sabendo que este problema continuará, já fomos informados de que 2021 inicia com aumento no preço dos vasilhames, além de saber que a demanda continuará não sendo 100% atendida”, questiona.

A entidade que reúne os produtores está em busca de investidores para construir uma fábrica de garrafas de vidro em Bento Gonçalves (RS), para atender ao mercado local – a Serra Gaúcha é a maior produtora nacional de vinhos.

Embora as negociações estejam caminhando, Argenta considera que ainda vai demorar para uma planta entrar em operação. De acordo com ele, os fornos das fábricas podem levar até dois anos para ficarem prontos.

“A falta de garrafas vai continuar sendo um desafio esse ano, especialmente com o aumento da produção”, diz.

A expectativa é de que a safra de 2021 seja a maior das últimas duas décadas, somando 800 mil toneladas.

Recuperação da indústria

Embora a Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro) afirme que a situação deve ser normalizada até o final do primeiro trimestre, a consultoria Neogrid diz que a recuperação dos estoques virá mesmo só no segundo semestre.

Isso acontece por conta de outros fatores que vão além da paralisação das plantas no país, segundo Robson Munhoz. Ele explica que o poder de compra dos brasileiros caiu ao longo da pandemia, o que reduziu o consumo de certos tipos de produtos e afetou os pedidos feitos às indústrias de embalagens.

“Estamos vivendo um problema generalizado na cadeia de abastecimento. As consequências são o aumento da ruptura na ponta e a consequente inflação pelo aumento constante de preços", completa.

Essa alta de preços dos produtos acarreta uma negociação mais demorada entre o varejo e a indústria, segundo a consultoria, tornando toda a recuperação da cadeia mais lenta do que o esperado.

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