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mulheres coquetelaria
Bartender e pesquisadora, Jaci Andrade conta que as mulheres são as verdadeiras criadoras da coquetelaria.| Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo/arquivo

A noite cai, o relógio passa das 18h, e a meia luz faz um foco principal no balcão do bar. Na “barra” estão os copos, as bailarinas (mexedores de drinks), espremedores de limão e coqueteleiras e, logo atrás destes apetrechos, uma garota finamente vestida encarando o salão.

A cena pode parecer normal em qualquer bar das grandes cidades, mas, acredite: a presença de mulheres exercendo a atividade de bartender começou efetivamente a tomar forma há pouco tempo – pouco mais de uma década, pelo menos.

Na verdade, a expressão “tomar forma” deveria ser encarada mesmo como um “retorno” ao seu lugar de direito, já que as mulheres podem ser consideradas como as grandes criadoras da coquetelaria. E a própria história confirma isso.

De um modo singelo de explicar, basta lembrar da medicina popular das benzedeiras e das garrafadas de ervas com algum destilado que as avós faziam para os filhos lá muito antigamente. Já na medicina tradicional, os coquetéis eram receitados para o tratamento de doenças (a caipirinha, por exemplo, foi um remédio contra a gripe espanhola)

No entanto, com o passar dos anos, essas mulheres que praticavam a medicina popular manipulando destilados, raízes e ervas acabaram relegadas aos afazeres domésticos de cuidar do marido e dos filhos.

E isso provocou uma espécie de “apagamento” da história, segundo Jaci Andrade, barwoman do Mykola Lab Bar, de Curitiba, consultora e historiadora da área. De acordo com ela, a manutenção de ervas e de flores, de como surgiram as bebidas destiladas, estava nas mãos das mulheres desde sempre.

“Quando questionam qual o meu lugar dentro do bar, ou de qualquer mulher, eu digo que aquele sempre foi o nosso lugar. Por todo esse trabalho com ervas e bebidas, chegamos a ser consideradas ‘bruxas’ no passado”, conta.

Formada em Belas Artes pela Universidade Nacional de Montevidéu, no Uruguai, foi durante os estudos no país vizinho que Jaci começou a trabalhar em bares na capital uruguaia e, também, na Argentina, e se aprofundar no ofício de bartender.

A pesquisa a fez entender que “bater copinhos” atrás do balcão tem um conceito histórico muito mais profundo que se perdeu com o passar dos séculos. A visão patriarcal de que o homem deve ser o líder da família – e da vida cotidiana – fez essa perda ser ainda mais aprofundada.

Ouça também no programa Mundo Bom Gourmet, na Mundo Livre FM:

Sem registros

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A história conta que as mulheres eram as responsáveis pela manipulação de ervas, flores e bebidas que davam origem aos destilados.| Leticia Akemi/Gazeta do Povo/arquivo

Os estudos de Jaci confirmaram o “apagamento” das mulheres na história da coquetelaria mundial. Uma das principais personagens que se destacaram fora do conceito da família tradicional foi a inglesa Ada Coleman, primeira mulher a ocupar o cargo de chefe de bar do renomado hotel Savoy, em Londres, em 1903.

E não era um cargo qualquer, já que o bar era frequentado por celebridades e ela tinha a árdua tarefa de servir estas pessoas sob um olhar de desconfiança.

Lá, ela criou o Hanky Panky, um coquetel que se tornou um clássico da coquetelaria que muitos acabaram atribuindo ao seu auxiliar Harry Craddock, que depois viria a lançar um livro com as receitas de drinks do Savoy.

“E ele excluiu o nome dela dessa receita. Então, naquele ano que esse coquetel foi difundido mundialmente, ninguém soube que quem o criou foi uma mulher, dentro de uma sociedade discriminatória com as mulheres”, conta a profissional.

Jaci reforça que, ainda hoje, toda a história não apenas da coquetelaria está calcada nos feitos de homens, e escrita por eles. Para ela, o trabalho de resgate que vem sendo desenvolvido por mulheres ao redor do mundo já reflete numa evolução da cena.

Se antes as competições eram dominadas por homens, de poucos anos para cá, a sensibilidade e o olhar apurado das mulheres vêm aparecendo cada vez mais. Jana Santos, barwoman e sócia do Cosmos Gastrobar, também em Curitiba, conta que já é visível uma coquetelaria mais feminina ao redor do mundo.

“Mas lá atrás, há quatro anos, quando eu comecei a aprender sobre isso, foi difícil encontrar mulheres que ensinavam a fazer coquetéis. Com o passar dos anos, tenho visto sim uma evolução e um aumento de mulheres vindo procurar aprender mais sobre a coquetelaria”, conta.

É uma evolução que, embora seja aplaudida e comemorada, também é composta de barreiras que precisam ser superadas – e não lembradas apenas no dia 8 de Março com flores e elogios. O respeito e o tratamento igualitário nas relações de trabalho e convivência devem estar presentes dia a dia, numa luta que ainda hoje é dolorida para quem passa por isso.

Assédio na barra

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Além de bartender, Jana Santos é proprietária de bar e enfrenta outras barreiras para se fazer respeitada na "barra".| Bruno Milek/divulgação

Se no dia a dia, o assédio moral e sexual está presente até mesmo em pequenas ações que a sociedade faz vistas grossas, é na noite que se torna ainda mais evidente.

O momento de descontração com algumas doses alcoólicas a mais dá vazão a comportamentos condenáveis, mas que muitas vezes deixam de ser vistos até mesmo por quem deveria repreender o assediador.

Uma pesquisa inédita publicada nesta semana pelo Instituto Studio Ideas, em parceria com a marca de whisky Johnnie Walker e a startup Women Friendly, revela que 78% das mulheres que já trabalharam em bares, restaurantes e baladas sofreram algum tipo de assédio. Entre as frequentadoras, esse número é de 66%, sendo que 53% delas deixaram de frequentar estes locais.

“Existe uma cultura de que o ambiente do bar, de alegria e descontração, é livre de muitas regras, mas isso faz com que o assédio que nós mulheres sofremos em qualquer lugar acabe se tornando ainda mais imperativo. E pra nós trabalhadoras do bar é algo muito difícil de lidar, pois estamos ali para atender as pessoas”, revela Jana Santos.

O que é prontamente frisado por Jaci Andrade, que faz um paralelo do atendimento do bar com a própria casa. Ela considera que receber um cliente é como se o convidasse para sentar no sofá ou à mesa para um jantar, e que muitos acabam levando para o lado do desrespeito com seu anfitrião.

A própria pesquisa do Studio Ideas também revela isso, em que 93% dos assediadores eram frequentadores dos bares, restaurantes e baladas, responsáveis por 47% das mulheres que enfrentaram a insistência deles em falar com elas, mesmo sem receber atenção.

“É tão chocante, desgastante e desconfortável uma situação dessa que, muitas vezes, as meninas ficam sem reação na hora. São situações que se tornam lembranças ruins do momento, muitas vezes até mesmo por outros colegas de trabalho além de clientes mais abusados”, desabafa Jaci Andrade.

São situações assim que a fizeram criar o projeto Corre Guria!, uma rede de apoio autônoma para o desenvolvimento feminino, que também promove campeonatos de coquetelaria para mulheres, com o objetivo de valorizar o trabalho delas na área.

Fora a disputa entre as barmaids (como também são chamadas), o coletivo une ao evento workshops com médicas, advogadas e outras especialistas para falar sobre temas relacionados à saúde, direitos trabalhistas, entre outros.

O Corre Guria! também colabora para a formação de novas profissionais para a coquetelaria. "Hoje em Curitiba a coquetelaria tem um espaço bem legal. Praticamente ninguém abre um restaurante sem um bar. E eu acredito muito na gestão feminina. Temos vários bares geridos por mulheres [a exemplo do Cosmos Gastrobar, de Jana Santos, e do Ananã], e a diferença no serviço é gritante", diz Jaci.

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