Bebidas

Clima da Copa do Mundo

Símbolo da Rússia, uma boa vodca deve ser suave e ter retrogosto de cereais

Apreciado desde proletários a czares, destilado tem origem incerta e disputada por vários países

por Júlia Ledur, especial para a Gazeta do Povo Publicado em 22/05/2018 às 16h
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Pensar na Rússia é pensar em vodca. Mas não é qualquer vodca. Com berço no leste europeu, a bebida produzida no país de Putin, e nos vizinhos Bielorrússia e Ucrânia, é reconhecida pela qualidade e liderança no mercado, além da diversidade – o país tem cerca de 4 mil rótulos registrados. O processo de produção do destilado é regrado e possui diversas especificações de qualidade. Além disso, o consumo também é bastante diferente do que estamos acostumados no Brasil.

Vodca Czar’s Gold é considerada uma das melhores do mundo. Foto: Nay Klym/Gazeta do Povo

Aproveitando a proximidade da Copa do Mundo, sediada na Rússia neste ano, o Bom Gourmet conversou com russos que moram em Curitiba para saber mais sobre onde encontrar as melhores vodcas russas, como elas são produzidas e, principalmente, qual é o jeito certo de consumi-las.

Símbolo nacional

A origem exata da vodca é incerta. Na década de 1970, a Polônia alegou que a vodca seria um monopólio do país, que teria nascido no reino formado por Polônia e Lituânia no século 14. Portanto, segundo a Polônia, o nome “vodca” deveria ser de uso exclusivo do país, assim como o Champagne designa a bebida produzida somente na região francesa de mesmo nome. Mas em 1978, a União Soviética deu início a uma pesquisa para comprovar a origem da vodca. Quatro anos depois, um tribunal internacional decidiu a favor dos soviéticos, mas até hoje se discute se o destilado surgiu na Rússia, na Polônia ou na Finlândia, antiga colônia russa e grande produtora da bebida.

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O russo Yury Serednyaqov representa as grandes marcas da bebida no Brasil. Foto: Nay Klym/Gazeta do Povo

A verdade é que a vodca esteve sempre presente na história russa, tanto no âmbito cultural quanto econômico. O destilado foi ingerido por czares, soldados da Segunda Guerra Mundial e pelo proletariado, substituindo no ranking das bebidas queridinhas dos russos o hidromel, antiga bebida fermentada comum no Leste europeu. Para se ter uma ideia da importância da bebida para o país, por volta de 1850, a vodca chegou a gerar 46% do orçamento do estado (mais do que trens e ferrovias).

Mas foi no século 20 que o estereótipo da associação da vodca com o país foi reforçado. Porque o governo russo detinha o monopólio estatal da vodca no país, as propagandas e filmes incentivando o consumo da bebida tornaram-se comuns. “Formou-se essa imagem positiva de se beber moderadamente e, hoje em dia, com certeza vodca é uma bebida super típica e nacional”, diz Igar Pyjau, professor de russo que vive no Brasil há 9 anos.

A vodca é para a Rússia o que a cachaça é para o Brasil”, afirma Yury Serednyaqov, russo que vive no Brasil e é representante de grandes marcas russas de vodca no país. Para ele, as melhores vodcas da Rússia – e do mundo – são a Beluga, filtrada duas vezes em filtros de prata e quartzo, e a Czar’s Gold, feita com água de um lago de St. Petersburgo e filtrada em fios de ouro que conferem suavidade extrema à bebida.

Vodca russa x brasileira

Mas o que torna a vodca russa tão especial? “Tudo depende do procedimento e dos ingredientes”, responde Igar Pyjau. A água e o álcool etílico, os dois ingredientes principais da vodca, devem seguir algumas especificações. A água precisa ser extremamente suave. “Tem muitas vodcas que são feitas com gelo derretido”, explica o professor. “Também se usa água da seiva de bétula, uma árvore comum na Rússia. O sabor dela é um pouco mais marcante, parecido com água de coco”.

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Algumas garrafas da coleção do russo Yury Serednyaqov, que mora no Brasil. Foto: Nay Klym/Gazeta do Povo

Já o álcool das vodcas russas é produzido a partir de cereais, como centeio ou trigo, considerada a variedade de álcool mais premium que existe. Em outros países, a proveniência do álcool varia, já que depende da matéria-prima disponível no local. No Brasil, por exemplo, é comum produzir vodcas com o álcool extraído a partir da cana de açúcar.

Além dos ingredientes, outro fator determinante nas vodcas russas é o teor alcoólico, que deve ser de exatos 40%. “Menos ou mais do que isso não pode ser chamado de vodca”, frisa Pyjau.

E como identificar uma vodca de qualidade? Além de verificar os ingredientes e o teor alcoólico, também é possível mensurar as propriedades da bebida provando-a. Ao contrário do que se pensa no Brasil, vodca de qualidade é sinônimo de suavidade, como já diz o nome – a palavra “vodka” significa “aguinha”. “A gente sabe que a vodca não tem sabor, mas ela tem que ter um retrogosto muito fino, suave de cereais”, explica Igar Pyjau. “Quanto mais suave, melhor. Ela não precisa arranhar a garganta”.

Como beber

Diferentemente dos brasileiros, os russos normalmente consomem a vodca pura, em pequenas doses. Ela é servida extremamente gelada em um copo de shot de cerca de 50 ml. Vale lembrar que ela nunca é tomada com gelo, mas precisa ter sido gelada previamente no congelador.

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Foto: Nay Klym/Gazeta do Povo

O intuito do ato de beber vodca também é outro na Rússia: abrir o apetite. “A gente gosta de vodca porque a gente gosta de apreciar a comida”, conta Pyjau. “Tomar vodca pura para apreciar o sabor dela não existe. Se uma pessoa fizer isso, a gente vai chamar ela de alcoólatra”, brinca, acrescentando que a dose ideal para se tomar durante uma refeição longa é de no máximo 200 ml. Após tomar a vodca, é comum comer um picles.

A bebida não é consumida todos os dias. Geralmente é servida nos finais de semana, em eventos comemorativos ou encontros de família ou amigos. “Os brasileiros e russos são parecidos no sentido de que gostam de tomar uma bebida boa no final de semana junto com a refeição”, compara Yury Serednyaqov.

Onde encontrar

Curitiba já foi casa de dois bares com temática russa: o Pravda Vodka Bar, que fechou as portas em 2015, e o Soviet, que há alguns anos passou a funcionar com proposta de discoteca. “Até 2014 teve um crescimento no mercado. Depois caiu, por causa da crise, e agora as pessoas estão voltando a começar a gastar com isso”, aponta Serednyaqov.

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Foto: Nay Klym/Gazeta do Povo

Apesar da atual ausência de casas na capital paranaense com foco exclusivo em bebidas russas, ainda é possível encontrar os destilados produzidos no país em alguns bares, supermercados e adegas. A Adega Brasil vende quatro vodcas produzidas na Rússia: Ministry (R$ 56,90), Czar Gold (R$ 248,50), Imperia (R$ 339,50) e Stolichnaya Elit (R$ 299).

Já na Adega Municipal é possível encontrar a Russian Rye (R$ 34,93), a Russian Ice (R$ 41,93) e a White Lake (R$ 18,03). A Adega Municipal, a Adega Boulevard e a Queijos e Vinhos Delicatessen também vendem vodcas russas. O Aurora Bar serve as vodcas Czar’s e Stolichnaya.

Além disso, é possível entrar no clima russo no Czar Bar. A partir do dia 1º de junho, a casa servirá sete shots com a temática russa, cinco deles feitos com a vodca Stolichnaya. “Nós já queríamos elaborar algo relacionado à Rússia no bar, por conta do nome”, diz Renata Guglielme, curadora de eventos do Czar, em menção ao título adotado por imperadores russos. “Então aproveitamos o gancho da Copa para lançar os shots”.

Entre os drinks estão o Stalin, feito com licor de melão, Bailey’s e vodca, e o Moscow, que leva vodca, suco de limão e gengibre. Todos custam R$ 10.

Agora que você já sabe como identificar uma vodca de qualidade, onde encontrá-la e como bebê-la de acordo com os costumes russos, entre no clima da Copa e будем здоровы! (Saúde!).

Serviço

Adega Boulevard. Rua Voluntários da Pátria, 539, Centro – (41) 3224-8244. De segunda a sexta das 10 às 19h e sábados das 10 às 15h. | Rua Mateus Leme, 2690 Lj2, São Lourenço – (41) 3016-8444. De segunda a sexta das 10 às 20h e sábados das 10 às 16h.

Adega Brasil. Rua Saldanho Marinho, 1.487, Batel – (41) 3077-1020. De segunda a sexta das 9 às 19h e sábados das 9 às 18h. | Av. Cândido Hartmann, 1485, Mercês – 3014-0796. De segunda a sexta das 10 às 19h e sábados das 9h às 19h. | Av. 7 de Setembro, 1865 (Mercado Municipal, Box 270) – (41) 3264-4232. De segunda a sábado das 8 às 18h e domingos das 8 às 13h.

Adega Municipal. Avenida Sete de Setembro, 1865, Box 15A, 15B, 17 e 19, Batel – (41) 3039-1984. De terça a sábado das 7 às 18h e domingo das 7 às 13h.

Aurora Bar. Alameda Pres. Taunay, 312, Centro – (41) 3233-1754. Terça, quarta e sábado das 18 à 1h, quinta e sexta das 18 às 3 e domingo das 18h à meia-noite.

Czar Bar. Rua Frederico Cantarelli, 68, Mercês – (41) 99524-2556. Sexta e sábado das 20 às 2h e eventos especiais.

Queijos e Vinhos Delicatessen. Avenida Sete de Setembro, 1865, Box 276 e 277, Batel – (41) 3264-9982. De terça a sábado das 8h30 às 18h e domingos das 8h30 às 13h.

Pão de Açúcar. www.paodeacucar.com

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