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Impacto restaurantes
O longo período de quarentena sem ajuda efetiva do governo é o principal motivo para o alto índice de mortalidade dos restaurantes.| Foto: Bigstock

Três em cada 10 bares ou restaurantes brasileiros já fecharam as portas por conta da pandemia do coronavírus e a previsão é de que esse número aumente ainda mais até o fim do ano caso não haja novas medidas emergenciais de ajuda ao setor. É o que revela a quarta pesquisa da série Covid-19 realizada pela Galunion Consultoria para Foodservice em parceria com a Associação Nacional de Restaurantes (ANR).

O levantamento divulgado na última semana foi realizado com 800 empresários de Norte a Sul do país com pelo menos duas unidades de estabelecimentos de alimentação fora do lar, entre os dias 5 e 17 de junho. Destes, 35% já fecharam as portas definitivamente em menos de 100 dias de restrições e outros 15% afirmam que provavelmente não conseguirão manter as operações até o fim da pandemia.

No entanto, o número de estabelecimentos que fecharam definitivamente pode ser ainda maior do que o apurado na pesquisa. Segundo Simone Galante, CEO da Galunion Consultoria, muitos dos que responderam aos primeiros levantamentos já não participaram mais destes últimos, o que indica que não estão mais operando.

“Essa é a quarta pesquisa desde o início da pandemia e quem não está mantendo os negócios também não está mais respondendo. Nas pesquisas passadas, o número de quem achava que não iria sobreviver era de 20%, e agora baixou para 15%. A nossa leitura é que já tem um volume de pessoas que nem se importa mais com as pesquisas do setor”, afirma.

Para Simone, é isso que indica um índice de mortalidade maior do que o verificado até agora. Segundo ela, o índice de fechamentos pode chegar até 40% do total de estabelecimentos até o fim do ano.

Entre os ramos mais afetados estão as lanchonetes de fast food, com mais da metade dos fechamentos (53%), os de serviço completo (18%) e o autosserviço (15%), mais recentemente por conta das medidas restritivas em muitos lugares do país. Curitiba, por exemplo, proibiu a reabertura de restaurantes de buffet por quilo, permitindo apenas o atendimento no formato de rotisseria.

Para o presidente da Associação Nacional de Restaurantes, Cristiano Melles, a causa para tamanha mortalidade é o longo período de quarentena sem ajuda financeira efetiva para o pagamento de aluguéis, tarifas de serviços públicos, fornecedores e funcionários que não tenham sido incluídos no Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda do governo federal.

“Quando você está a mais de 100 dias sem entrada nenhuma de faturamento e, muitas vezes, a conta jurídica se mistura com a pessoal, o que temos é as contas chegando sem ter mais o que cortar. Os empresários acabam entregando o ponto sem condições de reabrir quando for permitido”, diz.

O fechamento definitivo dos bares e restaurantes brasileiros já provocou a demissão de 1,3 milhão trabalhadores, de um total de 6 milhões de pessoas em todo o país ligadas diretamente ao setor.

De acordo com a pesquisa, 63% deles demitiram pelo menos dois colaboradores e 16% demitiram mais da metade. A ANR estima que 72% das empresas tiveram que encerrar contratos de trabalho sem conseguir ter acesso a algum benefício do governo federal.

Rede não é segurança

A pesquisa apontou ainda que a proporção de fechamento de operações foi a mesma para restaurantes independentes ou aqueles que fazem parte de uma rede. A concorrência e a dificuldade de pagar as contas provocou o fechamento de 1/3 dos estabelecimentos que servem comida variada (33%), seguido pelas hamburguerias e sanduicherias (15%) e de pratos asiáticos (11%).

A maior dificuldade dos empreendedores será a de manter a rentabilidade do modelo dos negócios com o comportamento do consumidor no chamado "novo normal", que terá de aliar a dificuldade financeira de ter capital de giro com a adaptação a novos protocolos de higiene e segurança alimentar. E ainda a concorrência das novas operações baseadas apenas no delivery – 20% dos entrevistados afirmam que irão investir nas dark kitchens.

“A concorrência é saudável, deve existir. O que não pode é ter operadores que não seguem os protocolos de higiene, e há ainda a questão das altas taxas de delivery cobradas pelos aplicativos. É inviável operar com uma plataforma que cobra de 20% a 30% de taxa”, afirma Melles.

Os números da ANR são um reflexo do que já vem sendo registrado desde o início da pandemia do coronavírus pelo Instituto Foodservice Brasil, que reúne cerca de 10 mil lojas e quiosques de 12 operadores brasileiros. No último levantamento, a entidade apontou uma queda de 48,4% no faturamento em maio deste ano na comparação com o mesmo período de 2019.

Expectativa

Por outro lado, entre os que fecharam as portas nos últimos três meses, apenas 25% descartam abandonar definitivamente os negócios. Uma grande parcela dos empreendedores acredita que conseguirá voltar ao mercado.

“Eles realmente acreditam que as coisas estão mais difíceis, mas 45% dos respondentes acham que voltam a obter vendas e lucratividade que tinham antes da pandemia e 30% daqui a dois anos”, afirma Simone Galante.

Eles se somam aos 60% de entrevistados independentes que acreditam que conseguirão se manter em pé até o final, que estão mais otimistas com o mercado. Há ainda um acumulado de 96% de empreendedores que operam lojas de redes alimentícias esperançosos com o que vier no pós-Covid.

“É como eles próprios se veem, a vida deles está ali no restaurante. A crise tem começo, meio e fim, e acreditamos que vamos ter uma retomada. Precisamos ter resiliência e adaptação, mas também ajuda do governo para termos fluxo de caixa e voltarmos aos negócios. É algo como um grito de ‘quero sobreviver’”, afirma o presidente da ANR.

Entre as mudanças apontadas pelos empresários que devem ocorrer na retomada dos negócios estão o uso massivo de dados digitais para gerir o negócio; a colaboração com parceiros, fornecedores e franqueados e a migração de produtos do restaurante para o varejo, possibilitando aos clientes levarem os alimentos para preparar em casa.

A pesquisa também apurou que 66% deles vão investir em novos processos para reduzir desperdícios, 57% pretendem renegociar preços e trocar de fornecedores, e 56% planejam promover e incentivar produtos mais lucrativos. Esses objetivos virão com a reforma da loja para levar ao consumidor uma nova experiência, com preços mais em conta e, se for preciso em último caso, sacrificar um pouco a qualidade e comprar insumos mais baratos.

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