Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
Protesto restaurantes
Mesmo sob chuva, manifestação reuniu cerca de 250 pessoas segundo a Guarda Municipal de Curitiba.| Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná

Dono de um dos principais pontos da boemia curitibana, o empresário Natalino Santos nunca imaginou que chegaria aos 23 anos de comando do seu restaurante Gato Preto com uma dívida praticamente impagável de cerca de R$ 800 mil com bancos. Esse é o montante que ele precisou pegar emprestado para seguir em pé nos últimos 11 meses de pandemia em Curitiba, que fizeram o movimento cair a 90% por causa dos decretos sanitários que limitam o atendimento noturno, seu principal ramo de atuação.

Ele é apenas um de centenas de empresários e trabalhadores dos setores de alimentação fora do lar, hospitalidade e eventos que fizeram uma manifestação na tarde desta quarta (24), em Curitiba, pedindo a reparação dos gastos que tiveram por causa da pandemia do coronavírus.

Debaixo de chuva com cartazes e carro de som, os cerca de 250 participantes, segundo a Guarda Municipal, fizeram uma caminhada até a prefeitura e ao Palácio Iguaçu para mostrar o quanto foram afetados pelos decretos sanitários que limitaram o funcionamento dos setores. Ao longo de 2020, fecharam definitivamente as portas 40% dos bares, 30% dos restaurantes, 75% das casas noturnas e 80% das empresas de eventos no Paraná – o desemprego chegou aos 90 mil trabalhadores formais e informais.

O próprio Natalino Santos foi um dos empresários que precisaram engrossar essa estatística. No Gato Preto e nos outros dois estabelecimentos dele, Restaurante Guadalupe e NJS Eventos, a equipe foi reduzida em 30% dos 104 funcionários.

“É uma calamidade trabalhar, não nos deixam abrir no horário que funcionávamos das 18h até altas horas da madrugada. Hoje eu tenho que fechar às 23h [até a última semana o decreto limitava às 22h], e inclusive agora levei uma multa de R$ 10 mil. Não tem condições de sobreviver, vou ter que mandar mais gente embora e não sei como vou pagar os empréstimos para os bancos”, diz.

A situação é semelhante à vivida por José Edmundo, proprietário do Bar do Edmundo, que viu o movimento despencar a 70% nos últimos 11 meses. Ele conseguiu recuperar um pouco do faturamento depois que implantou o serviço de delivery, mas que não compensa nem a metade do período pré-pandemia.

“Está sendo muito difícil pela restrição de horário, e também as pessoas que saem para o lazer têm pouco tempo para curtir esse momento. Eu abro às 18h, chega numa bandeira laranja que fecha às 22h, as pessoas chegam sentam para jantar às 21h, mesmo tendo todas as adequações. Estamos lutando para podermos trabalhar com todos os cuidados”, lamenta.

Encontrar novos caminhos

Chegando a quase um ano de limitações provocadas pela pandemia, o empresário curitibano Délio Canabrava também precisou recorrer aos bancos para manter as contas quase em dia dos seus restaurantes Cantina do Délio e Bella Banoffi. Os boletos dos empréstimos somam mais de R$ 300 mil e a dúvida se vai conseguir pagar ou não.

“Se deixarem a gente trabalhar eu consigo pagar, o duro é se vier mais alguma medida restritiva. Com bastante tristeza e preocupação, porque eu tenho mais de R$ 20 mil para pagar de dívida por mês. O delivery ajudou a amenizar, mas só 50%”, diz.

Ao lado de Délio na manifestação estava Athayde Neto, promotor de shows e eventos em Curitiba que está sem trabalhar desde o final de 2019. Ao Bom Gourmet Negócios, ele contou que estava para retomar as atividades quando começaram as medidas mais restritivas, em março de 2020. Foram mais de R$ 2 milhões sem faturar neste período.

“Gero cerca de 500 empregos semanais entre colaboradores e fornecedores. Veja que sexta-feira agora vence o IPTU, um valor de quase R$ 100 mil, e eu estou sendo obrigado a pagar mesmo através do decreto eu não podendo abrir a minha casa. Por isso esse protesto de reparação”, desabafa.

Ele diz que não está pedindo para reabrir a casa de eventos que administra, a Like Curitiba, para cinco mil pessoas. Ele pede apenas que tenha autorização para funcionar com um porcentual seguro de atendimento, que é possível o setor de eventos receber as pessoas com mais protocolos sanitários de segurança do que um shopping center, por exemplo.

Luto pelos eventos

Protesto Curitiba
Setor de eventos teve 90% de fechamento nos últimos 11 meses.| Átila Alberti/Tribuna do Paraná

A situação dos promotores de eventos é tamanha que a empresária Rafaela Lima foi vestida de noiva de luto para mostrar como a cadeia foi profundamente afetada. A curitibana se tornou a cara da manifestação.

“Um ano que deixa os profissionais de eventos sem renda para as suas famílias e é um ano realmente lamentável para todo o mercado que movimenta Curitiba. Já não tenho nem ideia mais do que perdi neste ano, precisei fazer trabalhos paralelos”, diz.

No vestido de luto estavam destacados os segmentos ligados ao setor de eventos que paralisaram as atividades por conta das restrições, como costureiras, estilistas, fotógrafos, consultores de vendas, entre outros.

Diretora da Maison Veridiane Noivas, Teresinha Kutchma recorreu aos números de arrecadação de impostos para explicar o quanto teve o serviço afetado por conta dos decretos sanitários.

“É muito fácil: eu pagava R$ 40 mil de impostos e 39 funcionárias. Estou agora com oito funcionárias, a loja sem movimento e não estou pagando nem R$ 5 mil de impostos. Precisa falar alguma coisa a mais? Não, né, tá tudo errado”, questiona frente aos 49 anos de empresa.

Teresinha estava acompanhada da colega Dilma Leduc Salata, do estúdio fotográfico Manoel Karam, que diz estar completamente sem caixa para pagar inclusive os impostos – entre eles o IPTU.

“Nunca deixamos de pagar, mas agora não tem como. Vemos pessoas na periferia trabalhando, fazendo festas clandestinas, e aqui não podemos trabalhar. Só queremos trabalhar com protocolos de segurança”, diz.

Ela conta que muitos restaurantes de eventos fecharam as portas e que o setor ainda terá mais falências se nenhum auxílio for dado.

Apelo ao poder público

Ao final da caminhada, representantes das entidades entregaram uma carta de apelo ao secretário Luiz Fernando de Souza Jamur, da Secretaria do Governo Municipal, com um apelo e demandas dos setores afetados pela pandemia. No documento, as entidades apoiam as medidas de contenção ao coronavírus implantadas na capital do estado, mas criticam o que avaliam como “incoerência de decisões”.

Para as entidades, a prefeitura erra em impor medidas restritivas aos estabelecimentos e eventos enquanto que o transporte coletivo, por exemplo, tem aglomerações de passageiros dentro dos ônibus e nos pontos e terminais.

“O transporte coletivo teve a reparação monetária pela falta de passageiros, receberam uma compensação a fundo perdido da prefeitura, não vão precisar pagar. Já nós não tivemos reparação alguma”, explica Nelson Goulart Junior, presidente da seccional paranaense da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-PR), uma das organizadoras do ato desta tarde.

Da mesma opinião é o presidente da Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas (Abrabar), Fábio Aguayo. Ele considera a caminhada desta tarde como um desabafo do setor.

“A situação é de calamidade, temos 90% dos estabelecimentos endividados, uma programação de retomada só em 2023, mas muitas empresas não têm mais condições de pagar tributos ou contas de água, luz, e nem de gerar caixa operando com tantas restrições, como horários e atendimento reduzidos. É impossível manter um negócio assim”, analisa.

Apoio na Câmara

A mobilização das entidades chegou até mesmo à Câmara Municipal, onde o vereador Alexandre Leprevost (Solidariedade) fez um apelo na sessão plenária da manhã para que se busquem alternativas de fortalecimento aos setores afetados pela pandemia.

“Algumas das vezes que se solicitado autorização (sic) para o trabalho, estes segmentos tiveram negadas as possibilidades com a alegação de princípio do bem comum e de preocupação, sempre sendo acolhidos estes argumentos. Os próprios segmentos estão, por todo esse período, propondo protocolos rígidos que, sinceramente, comparado com ônibus cheios, estão à frente na preocupação com os cuidados com o Covid”, disse.

Na noite desta terça (23), o prefeito Rafael Greca afirmou em um comentário em uma rede social que “a bandeira deve mudar. A pandemia não acabou”, mas sem detalhar o que será reavaliado. A secretária municipal de saúde, Márcia Huçulak, afirmou que Curitiba está “a frente de uma nova onda [de Covid-19], provavelmente a terceira onda”.

No final da tarde, a prefeitura confirmou a volta da bandeira laranja de risco médio de contágio do coronavírus em Curitiba, com a implantação de uma quarentena dominical e suspensão dos eventos para até 50 pessoas. Bares seguem proibidos de atender presencialmente e restaurantes e lanchonetes podem abrir as portas de segunda a sábado, das 6h às 23h. A medida vale até o dia 10 de março.

Carta aberta

Veja o que diz a carta de apelo que as entidades entregarão à Prefeitura de Curitiba durante a mobilização desta tarde:

Aos cidadãos de Curitiba.
Caminhada por reparação.

Primeiramente pedimos a Deus que conforte os corações daqueles tantos que tiveram em suas famílias uma vida retirada por esta terrível doença. Queremos também pedir a Ele que ilumine e proteja nossos heróis e heroínas da saúde de nossa Curitiba.

Nossa caminhada não é pela reabertura, é pela justa reparação. Alguns setores estão há 11 meses sem poder trabalhar, outros enfrentam restrições tão severas que inviabilizam sua operação. As demissões em eventos, hotéis, agências de viagem, restaurantes e bares, ultrapassam 12.000 pessoas em nossa cidade.

Sempre que solicitamos operar dentro das regras de prevenção, nos foi negado trabalhar alegando-se o princípio do bem comum e da precaução.

Acolhemos resignadamente estes argumentos.

Mesmo nossos setores tendo sido os primeiros a propor protocolos rígidos, e não diferirem, substancialmente, em se tratando de “aglomeração”, do transporte coletivo por exemplo. Ao contrário, eventos, como um casamento têm controle de presença, medição de temperatura, higienização, distanciamento entre mesas (todas com álcool gel), proibição de pista de dança, máscara durante todo o tempo em que estiver de pé, etc.

Fomos obrigados a aceitar que somos diferentes e que temos de nos sacrificar mais que outros setores pelo bem e a saúde da comunidade de nossa querida cidade.

Mas, já que não pode haver justa igualdade na distribuição do ônus da grande crise ocasionada pela Covid 19, que haja REPARAÇÃO pois, mesmo proibidos por decreto de funcionar, continuaram as faturas de aluguel, de impostos como IPTU, de luz, de condomínio, de folha de pagamento dos funcionários com estabilidade do decreto 936 etc.

Se essa proibição ou severa restrição de funcionamento é do interesse da coletividade, que seja assim, a coletividade representada pelo poder público, que editou a norma que nos proíbe de trabalhar, de ganhar o pão, a nos fazer a justa reparação.

Normas que concorrem ao interesse da coletividade, necessitam mecanismos do poder público que obrigam a população a se comportar passivamente. Nesse caso deve-se obedecer. Entretanto não podemos negar que resistir é um direito reconhecido aos cidadãos em certas condições. A resistência é legítima em nossa condição quando a ordem que o poder impõe está divorciada da justiça.

ABAV-PR, ABEOC-PR, ABIH-PR, Abrabar, Abrasel, ACP, Sindabrabar, Sindhoteis, Sindiprom, Curitiba Convention & Visitors Bureau, Liga das Hamburguerias De Curitiba, Centro  Europeu, Inspirar Gourmet, Família Camisa Preta, profissionais do setor de eventos sociais, infantis e correlatos.

5 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]