Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
café sustentabilidade
Novos negócios de café devem ter foco e atenção nos conceitos de sustentabilidade e ESG.| Foto: divulgação/SIC

A pandemia do coronavírus fez as pessoas consumirem mais cafés de qualidade, mas também gerou uma preocupação ainda maior de como a bebida é produzida. Essa é a constatação de especialistas que participam da Semana Internacional do Café (SIC), realizada até esta sexta (12), em Belo Horizonte.

A feira é uma das primeiras do Brasil realizada presencialmente ainda durante a pandemia da Covid-19, e retoma o formato de olho nos impactos que o coronavírus causou na vida de clientes e empresários. E uma coisa é certa: ela mudou completamente o modo como tomamos café e como a cadeia produtiva e as cafeterias vão trabalhar na retomada da vida normal.

De imediato se pôde perceber que as pessoas em casa passaram a beber mais cafés de qualidade, já que as cafeterias e demais comércios precisaram fechar completamente as portas por mais de um ano. Esse consumo migrou das ruas para a internet, e provocou um aumento de 30% nas vendas de variedades especiais, segundo pesquisas de mercado apresentadas por especialistas.

Rodrigo Mattos, analista do mercado de bebidas, cigarros e canabis da consultoria internacional Euromonitor, diz que essa migração do consumo para casa permitiu que as pessoas buscassem experimentar novas variedades além do café comum vendido nos supermercados. Foi como levar o momento que se passa em uma cafeteria de rua para o home office.

“E agora nós estamos em um momento de volta à normalidade, como uma adaptação, não exatamente um novo normal. E, no longo prazo, os gráficos nos mostram uma tendência de grande crescimento no consumo de cafés especiais e novos formatos no Brasil”, analisa.

As pesquisas de mercado apontam que esse consumo de cafés especiais será vinculado a uma preocupação maior dos clientes acerca da procedência desse produto, algo que já é visto tanto pelas grandes indústrias como pelos empresários.

Sustentabilidade na xícara

Expositores
Mais de 100 marcas estão expondo seus produtos na SIC, além de palestras e debates presenciais e online.| divulgação/SIC

Não à toa, grandes marcas de café vêm mudando suas estratégias de publicidade para contar às pessoas como seus produtos são desenvolvidos. João Mateus Ferreira, técnico em pós-colheita da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Poço Fundo e Região (Coopfam), conta que as produções das indústrias já são compostas por 44% de cafés com certificação.

Ou seja, cafés produzidos com técnicas especiais em que se valoriza o trabalho dos pequenos produtores e as boas práticas de processamento. “Foi uma virada de chave na consciência do produtor, uma relação com a natureza visando mais do que apenas o lucro”, diz.

E esta é a principal discussão que norteia todos os debates desta edição da SIC. O tema do ano, “Retomar, reencontrar, reconectar”, é tratado como um recomeço da cadeia, em que produtores e empresários precisam estar atentos aos novos hábitos dos consumidores.

Para Roberto Simões, presidente da Federação da Agricultura do Estado de Minas Gerais (FAEMG), uma das organizadoras da SIC, isso tem muito a ver com a preocupação mundial com as mudanças climáticas, que impulsionam o mercado para a questão da sustentabilidade e das políticas de ESG (consciência coletiva de uma empresa em relação aos fatores sociais e ambientais).

“Estamos acompanhando a realização da COP26 e tantos outros eventos nessa área, então é um tema que não poderia ser deixado de lado na SIC”, afirma.

A pesquisa apresentada pelo Euromonitor apurou que essa questão se mostra ainda mais presente no Brasil por conta da própria situação socioambiental do país, em que as pessoas estão cada vez mais conscientes sobre o que consomem. Isso porque as mudanças climáticas estão muito próximas dos brasileiros, como as queimadas na Amazônia, a seca ou chuvas fora do normal em algumas partes do país, etc.

Novos hábitos

Cafeteria Modelo
No espaço da Cafeteria Modelo, especialistas orientam sobre as novas tendências de empreendedorismo.| divulgação/SIC

James McLaughlin, CEO da Intelligentsia Coffee, empresa pioneira nos ideais de qualidade excepcional, transparência e inovação na indústria do café, afirmou que muitos dos novos hábitos dos clientes vistos no Brasil são exatamente os mesmos apurados entre os norte-americanos.

Assim, segundo ele, é possível criar um paralelo entre as preocupações e os desafios do mercado de cafés e o negócio das cafeterias. A começar pela própria questão socioambiental e de sustentabilidade.

“Tomar café especial é um hábito que veio para ficar, tanto nos momentos de lazer como a trabalho, inclusive na volta aos escritórios. Além disso, os consumidores querem também bons cafés em formatos mais convenientes, o que abre um leque de novas oportunidades”, conta.

Ele conta que, após 18 meses, é possível verificar uma volta robusta das pessoas às cafeterias, hotéis e restaurantes mesmo com o avanço da variante Delta do coronavírus nos Estados Unidos, mas que nem ela interrompeu esse retorno.

Outro ponto levantado também pela pesquisa da Intelligentsia é de que as pessoas que ficarem em definitivo em home office vão adotar as cafeterias como um “novo escritório”. Para McLaughlin, as pessoas vão cansar de trabalhar apenas em casa.

“Elas irão às cafeterias em alguns dias da semana, principalmente em bairros mais residenciais. Consequentemente, também vai se verificar um aumento do tíquete-médio e da oferta de refeições nestes locais”, completa.

Novos negócios

Este futuro hábito dos clientes vai gerar novas oportunidades de negócios para quem pretende empreender neste mercado. Hélcio Junior, produtor e proprietário da Unique Coffees, explica que o mercado está mais sólido e fortalecido do que antes, mas que os novos empreendedores devem encontrar o próprio formato de operação.

“As novas cafeterias devem ser muito focadas no produto café e ir além de apenas vendê-lo pronto”, diz ressaltando que é desanimador chegar no barista para perguntar sobre o café usado e ele simplesmente afirmar que é um ‘blend da casa’. “Tem que ter para vender também, e criar o próprio conceito de loja, sem imitar outros, ser diferente”, completa.

Para ele, este mercado ainda vai crescer muito, tanto quanto o visto com as cervejas especiais. E isso é confirmado pelas projeções da Euromonitor, em que o consumo de cafés especiais de qualidade vai dar um salto no Brasil maior do que no Reino Unido, Estados Unidos, Japão e Alemanha até 2026.

*o jornalista viajou a convite da Semana Internacional do Café.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]