Restaurante fechado
Participantes do movimento afirmam que restringir o atendimento aumenta a aglomeração de pessoas em outros horários ou locais que não seguem os protocolos sanitários.| Foto: Bigstock

Empreendedores de bares e restaurantes de São Paulo criaram um abaixo-assinado na internet para que o governo e as autoridades do estado flexibilizem as regras do Plano SP que restringem o funcionamento dos estabelecimentos durante a pandemia do coronavírus.

A petição chamada de Gastronomia Viva já soma mais de 2,4 mil assinaturas (até a manhã desta segunda, 18) desde que foi colocada no ar na última semana, e afirma no texto que restringir o atendimento nos bares e restaurantes provoca mais aglomeração nos outros horários de funcionamento e em reuniões privadas ou clandestinas.

Para embasar a petição, o documento afirma que dados das prefeituras de Nova York e Londres mostraram que “o setor de restaurantes e bares com serviço sentado representou somente 1,43% do total de transmissões do vírus da Covid-19, enquanto que reuniões privadas representaram mais de 74%”.

Embora o texto do abaixo-assinado não cite as fontes dos estudos, as entidades participantes propõem uma parceria do setor com os órgãos do estado e prefeituras para adotar as devidas práticas de segurança sanitária e até mesmo ajudar na fiscalização dos que não seguem os protocolos.

Para o empresário Edrey Momo, que faz parte do movimento, o setor está à mercê de regras que mudam de uma hora para a outra mas que não são acompanhadas da devida fiscalização das prefeituras. Ele afirma que restringir o funcionamento dos bares e restaurantes automaticamente faz as pessoas procurarem outras alternativas de lazer em lugares que não aplicam as determinações de combate à Covid-19.

“Digamos que eu combino de ir com amigos próximos a um restaurante que tem tudo higienizado, cardápio digitalizado, mesas afastadas, mas aí a prefeitura vem e fecha. As pessoas vão pra outro lugar, pra rua, para a casa de amigos, para uma festa clandestina, elas não vão parar de socializar porque o restaurante fechou, e aí sim o risco de contaminação aumenta”, explica.

Sócio de casas como a 1900 Pizzeria e Tasca da Esquina, entre outros, Edrey conta que o objetivo do Gastronomia Viva é mostrar que os empresários que seguem os protocolos não podem ser penalizados por poucos que descumprem as normas.

Além dele, também participam do movimento nomes importantes como os chefs Alex Atala (DOM), Isaac Azar (Paris 6) e Janaína Rueda (A Casa do Porco). O movimento também conta com restaurateurs como Arri Coser (NBSteak e Maremonti) e o apoio de entidades de classe como a Associação Nacional de Restaurantes (ANR) e a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).

Compromissos com a segurança

Ao todo, os empresários se propõem a seguir sete compromissos para atenderem os clientes com a devida segurança sanitária, como assinar um termo de compromisso de ajudar na fiscalização e no cumprimento das normas acordadas:

  • Respeitar, exigir e propagar boas práticas de segurança.
  • Não efetuar vendas de balcão exceto para levar (to go / take away).
  • Não servir pessoas em pé dentro ou fora do estabelecimento.
  • Desestimular e comunicar aglomerações na rua, em frente e/ou próximo ao estabelecimento, às autoridades quando necessário.
  • Servir de canal de comunicação e treinamento com os estabelecimentos.
  • Fazer campanha de divulgação das informações que demonstram serem estas a melhores regras para conter a transmissão do vírus.
  • Elaborar documentos de apoio a estas medidas e o compromisso do setor em colaborar com o governo na implementação delas.

Por outro lado, as entidades e demais signatários do abaixo-assinado pedem uma contrapartida do poder público de apoio ao setor, flexibilizando as regras do Plano SP para ampliar o atendimento ao público:

  • Receber clientes até às 22h e fechamento total às 23h.
  • Limitação da venda de bebidas alcoólicas a partir das 22h em todo tipo de comércio, evitando aglomerações e consumo na rua.
  • Toque de recolher ou “lockdown” total da 0h às 6h para coibir festas, aglomerações e eventos privados nas ruas e espaços públicos sem o controle e fiscalização dos órgãos competentes.
  • Utilização de áreas abertas e/ou calçadas respeitando os mesmos protocolos das áreas fechadas, somente com consumo sentado, distanciamento e respeitos a normativa de 1,20m para circulação.
  • Ocupação máxima limitada a 60% da capacidade do local, desde que observados o distanciamento de mesas e pessoas recomendado pelas normas de segurança.
  • Adoção dos protocolos padrões e setoriais específicos conforme as normas vigentes e protocolos acertados.

Abaixo-assinado nacional

Embora o abaixo-assinado seja específico para as autoridades sanitárias de São Paulo, o diretor-executivo da ANR, Fernando Blower, explica que ele pode ser usado como base para entidades de classe e empresários de outros estados e cidades. Para ele, a petição é como um grito de socorro do setor.

“Esse modelo da petição pode ser estendido para outras localidades, mas depende de articulações locais de acordo com as características de cada cidade ou estado, já que há diferentes decretos em vigor em todo o país”, analisa.

Blower explica que o setor de bares e restaurantes é um dos mais afetados pela pandemia do coronavírus, com aumento do endividamento dos empreendedores, fechamento de empresas e perda de milhares de empregos.

A última pesquisa setorial apontou que 4 em cada 10 estabelecimentos já fecharam as portas em todo o país por conta das restrições de funcionamento dos decretos estaduais e municipais, com um milhão de desempregados entre formais e informais.

“Nós vínhamos percebendo um aumento gradual e significativo no movimento até novembro, mas o aumento dos casos acabou gerando mais restrições e as pessoas acabaram saindo menos de casa. Aquele aumento gradual acabou sendo freado em dezembro e segue assim agora em janeiro”, conta.

O aumento de casos entre o final de 2020 e o começo deste ano está se refletindo em novas restrições que vão jogar a recuperação do setor ainda mais para frente, mesmo com a chegada da vacina.

Na manhã da última sexta (15), o governo do estado de São Paulo reclassificou as bandeiras do Plano SP e levou mais oito regiões a regredirem para a bandeira laranja de atenção ao contágio do coronavírus, com eventuais liberações, e a bandeira vermelha, apenas de atividades essenciais.

Com isso, 10 das 17 regiões do estado seguem com restrições mais apertadas, como a proibição do atendimento presencial em bares e funcionamento reduzido dos restaurantes apenas até às 20h. Entre as cidades afetadas estão Presidente Prudente, Ribeirão Preto, Taubaté e Sorocaba.

Já a bandeira vermelha atinge apenas a cidade de Marília (445 km de São Paulo). Por outro lado, a capital segue na bandeira amarela, com ocupação limitada a 40% nos estabelecimentos, bares abertos para atendimento presencial até às 20h e restaurantes até às 22h.

“Vemos que essa retomada será ainda muito gradual a passos lentos pelo menos até novembro, quando a vacinação deve atingir mais pessoas”, conclui Fernando Blower.

A flexibilização e a volta do atendimento são, inclusive, dois dos vários desafios que o setor de bares e restaurantes tem pela frente em 2021. A eles se somam a retomada da confiança dos clientes em voltarem às ruas com os devidos protocolos sanitários, o pagamento dos empréstimos contraídos ao longo do ano passado para manterem as operações em pé, a queda na renda dos brasileiros por conta do fim dos programas de auxílio emergencial do governo federal, entre outros.

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