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Restaurante fechado
Pesquisa aponta que 66% dos restaurantes ainda abertos no Brasil não tem capital de giro para mais de 30 dias.| Foto: Bigstock

A chegada do frio do outono aumentou a preocupação com o crescimento dos casos de Covid-19 principalmente nos estados das regiões Sul e Sudeste do país, onde cidades e capitais já preveem novos surtos da doença e até mesmo a adoção de medidas ainda mais restritivas semelhantes às de março deste ano.

E isso ligou o sinal de alerta dos bares e restaurantes que ainda estão se recuperando das perdas vividas nos últimos 14 meses. Pesquisa divulgada na última semana pela Associação Nacional de Restaurantes (ANR) e Instituto Foodservice Brasil (IFB), em parceria com a Galunion Consultoria, aponta que pelo menos 6 em cada 10 empreendedores podem fechar as portas de vez se novas medidas restritivas forem impostas no país – 66% dizem não ter capital de giro para mais de 30 dias.

O número é apenas mais um dos péssimos indicadores de atividade da categoria desde o começo da pandemia, em março do ano passado, já apontada como a mais afetada e ainda longe de conseguir recuperar as perdas. A pesquisa apontou que 29,2% dos empreendedores têm dívidas totais que representam de 1 a 3 meses de faturamento médio de 2020, 28,1% têm até 6 meses de caixa comprometido, e 15% de até 1 ano de receitas apenas para cobrir os compromissos financeiros.

Alguns deles estão entre os poucos empresários que conseguiram ter acesso aos recursos do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) que, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), chegou a apenas 4 em cada 10 empresas do setor. O restante precisou ir atrás de recursos em instituições privadas ou recorrer às próprias economias.

Fernando Blower, diretor-executivo da ANR, explicou ao Bom Gourmet Negócios que o setor chegou ao limite no Brasil, sem condições de suportar mais uma onda de contágio do coronavírus e suas respectivas medidas restritivas. Para se ter uma ideia, Curitiba já estuda retomar a bandeira vermelha de risco elevado de contágio ainda nesta semana, após mais de um mês de flexibilização do funcionamento de restaurantes e lanchonetes – os bares estão proibidos de operar nesta modalidade de alvará há mais de um ano.

“Os bares e restaurantes do Brasil todo estão em uma situação extremamente complicada, e as recentes pesquisas mostram que não só o nível de endividamento que está gigantesco. Eles não terão condições de suportar uma nova onda de fechamentos e restrições”, analisa.

Já Simone Galante, CEO da Galunion Consultoria, explica que uma análise mais aprofundada mostra uma situação ainda mais dramática dos restaurantes de serviço completo – aqueles com atendimento na mesa – e dos que operam o formato de autosserviço.

Para os de atendimento a la carte, principalmente os que operam apenas no horário do jantar e diretamente afetados por medidas mais restritivas, o nível de endividamento chega aos 80%. Entre os de autosserviço, esse número chega a 83%.

“Oito em cada dez deles afirmam não ter recursos para arcar com despesas em uma restrição de funcionamento de mais de 30 dias”, conta.

Em boa parte das capitais e cidades das regiões Sul e Sudeste, estes restaurantes passaram praticamente o mês inteiro de março e parte de abril fechados até começar uma recuperação lenta e gradual a partir da segunda quinzena – data prevista pela Abrasel e confirmada em algumas delas.

Segundo a pesquisa, 79% dos entrevistados devem para bancos, 54% estão com impostos em atraso e 37% têm débitos com fornecedores – estes tiveram de conceder prazos mais alongados de pagamentos para ajudar a manter o setor funcionando, mesmo sem receber nas datas programadas.

Falência e desemprego

Embora o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm) tenha conseguido preservar milhares de empregos em todo o país, 64% dos empreendedores que continuam abertos tiveram de demitir trabalhadores, e 76% conseguiram manter alguns deles. Segundo a própria Associação Nacional de Restaurantes, foram mais de um milhão de empregos perdidos entre formais e informais, uma média de 21% do quadro total de colaboradores.

A pesquisa aponta que 76% dos empresários fizeram uso da medida que autoriza a suspensão de contratos e redução da jornada de trabalho. Hoje a adesão é de 48%, que veio tardiamente após o fim da primeira fase do programa em dezembro de 2020, e não conteve uma onda de demissões no primeiro trimestre deste ano. Foram 100 mil postos de trabalho eliminados junto de 35 mil empresas segundo a Abrasel.

“Foi o setor que mais desempregou jovens no Brasil, e este setor está à beira do colapso. Precisamos de um alento pra continuar mantendo as portas abertas e os empregos”, frisa Fernando Blower.

O alento a que ele se refere é de medidas econômicas mais eficazes e que cheguem a todos os empresários, como novas linhas de crédito específicas para o setor, como fizeram outros países. Uma nova rodada do Pronampe já foi aprovada pelo Senado e aguarda a sanção do presidente Jair Bolsonaro, mas ainda esbarra no volume de recursos a ser liberado – senadores pediram R$ 10 bilhões, mas Ministério da Economia autorizou a metade.

Para Ely Mizrahi, presidente do Instituto Foodservice Brasil (IFB), a pesquisa evidencia a dimensão do impacto da pandemia sobre toda a cadeia de valor, principalmente do food service.

"Os desafios destacados pela pesquisa refletem na dinâmica de todos os elos da cadeia e demandam senso de urgência nas ações de apoio ao setor, especialmente ao pequenos operadores. O momento é de dificuldade e incerteza principalmente em relação ao apoio governamental, visto em outros países como fundamental para a recuperação desta indústria", disse.

Em alguns estados brasileiros, medidas específicas para o setor de bares e restaurantes já vem sendo aprovadas e colocadas em prática. No Paraná, por exemplo, consultas ao Cadastro Informativo Estadual (Cadin) foram suspensas por mais 120 dias, além da prorrogação da carência para o pagamento de parcelas de empréstimos contraídos junto à Agência Fomento Paraná e ao Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).

E no Ceará, as contas de água foram suspensas por cinco meses, a isenção do pagamento do IPVA de 2021 para veículos registrados em nome de empresas do setor ou até um carro de profissional autônomo ou microempreendedor individual que atue no segmento, e o parcelamento de débitos do ICMS.

Vai recuperar?

Não é apenas a possibilidade de novos decretos ainda mais restritivos que preocupa os empresários brasileiros do setor de bares e restaurantes. As atuais regras de atendimento com horário limitado e a menor capacidade de ocupação também são apontadas como responsáveis pela lenta recuperação do setor.

Quatro em cada dez deles dizem que essas limitações afetam diretamente o crescimento do movimento, e outros três afirmam que, mesmo com restrições e protocolos, os clientes seguem sem confiança para voltar aos bares e restaurantes.

Com isso esse cenário de incertezas, 39% dos empresários dizem não conseguir projetar qualquer tipo de recuperação mais consistente, e outros 34% acreditam em um pequeno crescimento – apenas 17% são mais otimistas e esperam uma expansão acentuada.

O capital de giro e o vencimento das dívidas foram apontados como os maiores desafios para a retomada dos negócios neste ano por 7 em cada dez empreendedores, e a rentabilidade do modelo de negócios e mudança de hábitos dos consumidores por pelo menos 4 em cada dez deles.

A pesquisa revelou ainda que o delivery já atinge quase que a totalidade dos bares e restaurantes do país: 86%. E também que o aplicativo de troca de mensagens WhatsApp se tornou um importante canal de comunicação e entrega para os negócios, chegando a 70,5% deles.

“O delivery continuou a crescer, mas em ritmo menor e através de mais canais de vendas, como o WhatsApp, e foi interessante notar que há uma consciência maior do setor de que é necessário caminhar em direção a digitalização, aspecto que será ainda mais importante na retomada", completa Simone Galante.

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