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Restaurantes e lanchonetes de Curitiba podem atender somente nas modalidades de entrega, como delivery, drive thru e retirada no balcão.| Foto: Lineu Filho/Tribuna do Paraná

Após quase 15 meses de decretos de abre-e-fecha para conter o avanço do coronavírus no Brasil, os restaurantes de todo o país chegam à terceira onda da doença com as contas debilitadas – em alguns casos impossíveis de serem pagas – e sem condições de suportar novas medidas mais restritivas.

E a necessidade de fechamento obrigatório já começou a ser imposta em diversas cidades brasileiras. Em Curitiba, a segunda bandeira vermelha começou a vigorar no último sábado (29) para tentar diminuir a quantidade de casos ativos (mais de 10 mil em 24 horas) e da lotação das UTIs exclusivas (104% de ocupação no dia).

A situação não é isolada no país, mas, neste momento, é a única capital com medidas tão restritivas. O fechamento forçado de todo o comércio pela segunda vez no ano vai até o dia 9 de junho, sendo que os restaurantes ainda estavam se recuperando do primeiro período, no começo de março.

Na conta estão demissões, dívidas impossíveis de serem pagas, perda de faturamento e muitas dúvidas dos clientes sobre qual decreto vale na cidade: o da capital ou do estado (mais brando e que permite o atendimento presencial).

Embora entidades de classe reconheçam que a situação da doença em Curitiba é preocupante, o remédio amargo que foi receitado pela prefeitura poderia ter sido mais brando segundo elas, com medidas diferenciadas de controle.

Mesmo com a promessa feita pela prefeitura de que esta será a última bandeira vermelha, que a secretária municipal de saúde Márcia Huçulak afirmou ser um “último esforço”, entidades já organizam manifestações para esta semana. Serão ações nas redes sociais e em locais próximos à prefeitura de Curitiba e Câmara Municipal.

Durante o primeiro final de semana desta segunda bandeira vermelha, surgiram protestos isolados nas redes sociais, como do empresário Beto Madalosso, que dividiu opiniões entre internautas e seus pares do ramo. Um deles, Dudu Sperandio, disse que jamais fechou as portas, enquanto que Janaína dos Santos criticou a ação.

O Bom Gourmet Negócios pediu a Madalosso, na sexta (28), um depoimento sobre a volta da bandeira vermelha, mas ele não respondeu até o fechamento desta reportagem.

Desabafos

Para retratar como está a situação dos restaurantes não só de Curitiba mas de todo o Brasil passados quase 15 meses de pandemia, o Bom Gourmet Negócios reproduz depoimentos enviados por chefs e restaurateurs desde sexta (28). Alguns deles foram condensados ou resumidos para melhor entendimento do leitor.

Nelson Goulart Junior, proprietário do restaurante Ibérico e presidente da Abrasel-PR:

A primeira coisa mais importante é que eu tenho um restaurante de experiência, então pra mim o delivery não resolve nada, não é o meu negócio. Para me reinventar com o delivery, eu teria que deixar de ser um restaurante de experiência, demitir 24 pessoas, ficar com apenas quatro e uma cozinha, não precisaria nem de ponto comercial. Eu poderia ter uma dark kitchen e operar assim, isso é reinventar. E para quem foi demitido, o que é reinventar? Eu sei que quando tudo isso acabar, e um dia vai acabar (não sabe quando), os restaurantes de experiência vão voltar com muita força. Agora, até lá, essa é a questão. O que a gente vê é que temos espaçamento, temos controle, cuidamos e somos fechados. E os ônibus, por exemplo, ficam lotados sem nenhum controle, sem álcool em gel, sem nada. Nos sentimos muito mal, ainda mais que os ônibus tem outro tratamento, os proprietários são cidadãos de outra categoria. O nosso negócio é esse [de restaurante de experiência], eu demorei anos para formar uma equipe, como é que eu vou demitir essas pessoas? [Dizem que] tem que pensar no negócio. Sim, mas o meu negócio são essas pessoas, não são as mesas ou o fogão, os pratos, os talheres, o ponto comercial. O nosso negócio são as pessoas. Eu tenho um conjunto de pessoas que eu posso pegar e levar para outro lugar, alugar um fogão que seja e ter um restaurante lá. Agora, eu não posso demitir as pessoas e ficar com o fogão, que isso não é o meu negócio.

Délio Canabrava, proprietário do restaurante Cantina do Délio e Banoffi Confeitaria:

Me considero um privilegiado, vencedor, campeão e uma exceção. Apesar das dificuldades, estou conseguindo equilibrar as contas. Hoje eu tenho quatro empresas de delivery e internet para dar o que um restaurante dava anteriormente, com a Cantina, a Banoffi, o Torrone e um empório de congelados na mesma estrutura que antes era somente o restaurante. Graças a Deus estou bem, mas a verdade é que não gosto de bancar de vítima e ficar chorando, sou grato pelo meu resultado e meu destino. Agradeço todos os dias por ter me dado fé para virar o jogo e conseguir ser vitorioso nesta pandemia. Este “lockdown” como Curitiba faz está provado que não funciona, e que o efeito para a sociedade é muito pior que não fazê-lo – ainda mais praticamente só para restaurantes e shoppings, o resto tudo fica normal, com ônibus, supermercados, feiras, e a região metropolitana funcionando normalmente e utilizando nossos hospitais. E ainda nesta data, na última semana do mês, que impacta diretamente na semana subsequente a mais importante de contas a pagar. Fica impossível equilibrar o fluxo de caixa, [estamos há] mais de um ano nesta loucura. Todas as pequenas reservas que existiam foram se esgotando, já vendemos tudo que podíamos, pegamos todos os empréstimos que existiam, prorrogamos todos impostos que podíamos, agora estamos cheios de boletos antigos e ainda FECHADOS. Vencem as contas até o dia 10, água, luz, telefone, folha de pagamento de 25 funcionários e com encargos da folha, vale transporte e FGTS ate o dia 7, tudo vence no início do mês. Como todos os brasileiros ainda tenho que trazer dinheiro para casa, tenho esposa e 3 filhos em escolas particulares. Isto é uma loucura, entende? 

Carlos Aichinger, proprietário do restaurante Pata Negra:

Obviamente estamos muito deficitários. É um festival de incertezas, decretos e decretos, e na contrapartida do sistema de saúde municipal e estadual nada se faz. Mas decoração de muros, pintura de asfalto, etc, são feitos. E nós do comércio estamos pagando a conta. Não temos mais como recuperar financeiramente, devo dinheiro para todos, [como] bancos, funcionários, aluguel, fornecedores, serviços públicos (energia elétrica, água, gás natural) – estas parcelam em no máximo seis meses, em vez de 24 meses. São 15 meses, se fechar o bicho come, a situação é desesperadora.

André Antunes Nascimento, proprietário do Tora Bar:

Já estou até com os papeis [prontos], vou suspender o contrato de dois colaboradores. [Na última semana] já demiti um da cozinha e um da noite, tive redução de 80% do faturamento e vou ter que pegar dinheiro emprestado. Não tenho saldo pra sete ou oito dias, vou ter que renegociar boletos daqui a uns 15 dias ou pegar dinheiro emprestado. O impacto é forte.

Aguinaldo Monteiro, proprietário do restaurante Pimenta Rosa:

O impacto é absurdamente negativo, só o sábado e domingo a atividade presencial aumenta o tíquete médio, a gente aumenta bastante o giro, até umas 300 pessoas no pré-pandemia. Depois, nos finais de semana que conseguimos abrir, resgatamos em torno de 120 pessoas. Agora com tudo fechado, a gente gira em torno de 40 a 50 marmitex, com um tíquete médio muito mais baixo. O impacto no faturamento [chega a] 60% a 70%, tanto que saímos de 15 funcionários para apenas seis. As pessoas ficam com medo de consumir, de gastar, ninguém tem segurança de estabilidade no emprego. Esse medo generalizado vai trazendo uma série de outras consequências. E o grande dilema pra gente é realmente ficar com esses decretos em cima da hora, e a falta de isonomia, não sermos tratados igual a outros setores. É muito cruel essa situação que o nosso setor está vivendo. E também a falta de uniformidade tanto na região metropolitana como no estado, nos perdemos nos decretos e os clientes também. Falta um pouco de clareza, padrão procedimento, os clientes vêm e perguntam porque não estou montando o buffet. Nem a população sabe direito o que está acontecendo. Fica difícil de lidar com tudo isso.

Carla Fioreze, proprietária do Château de Gazon:

O reflexo disso pra nós é o mesmo que para todos os nossos colegas de setor, que apesar de todos os esforços que estamos fazendo para seguir as regras e trabalhar de uma forma correta, não está sendo suficiente. Estamos todos no nosso último fôlego, tá bem complicado. E agora esse fechamento implica em mais consequências, não estamos mais vendo saída pra administrar essa situação toda. A gente não consegue ver um bom fim, mas vamos levando, vivendo um dia de cada vez. Sem perspectiva, sem poder se programar, sem poder se organizar. Essas mudanças de um dia para o outro, de uma semana para a outra, deixa a gente sem saber como trabalhar de forma organizada, deixa o cliente sem saber como se organizar com a questão de reserva e horário, quando abre e quando não abre. O que eu mais recebo é ligação de cliente me perguntando como está o funcionamento, como está o decreto, porque ele já se perdeu se é às 20h, se é às 21h, se abre sábado, se não abre... A gente percebe que isso tudo está passando uma incerteza e uma administração totalmente perdida, sem um respaldo científico, sem uma lógica nas atitudes deles. Para nós está sendo bem complicado, e eu acredito que para todos [também]. A gastronomia está sendo bem prejudicada e não estamos tendo ajuda nem incentivo de parte alguma, muito pelo contrário. Estamos tendo todos os impostos e deveres que temos que cumprir, está bem complicado. E fechar agora vai ser ainda mais complicado para depois, para a retomada. Mas, é isso. Seguimos.

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