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restaurante fechado
Anúncio da bandeira vermelha com menos de 24 horas de antecedência impede o planejamento dos restaurantes.| Foto: Bigstock

Os restaurantes e lanchonetes de Curitiba podem voltar a ter o atendimento presencial proibido a partir deste final de semana, como ficou sinalizado em uma reunião realizada nesta quinta (27) entre representantes da sociedade civil e autoridades sanitárias da capital.

Ao longo de cerca de três horas, a prefeitura apresentou a situação do avanço do coronavírus na cidade e reforçou a necessidade de retomar a chamada bandeira vermelha de alto risco de contágio da doença. A medida vem após quase dois meses de flexibilização do último período mais restritivo, em meados de março.

O anúncio da nova bandeira era para ter sido no final da tarde de quinta (27), mas foi adiado para esta sexta (28) para ser discutido com prefeitos dos municípios da região metropolitana. A decisão de adiar em mais um dia causou apreensão entre os empreendedores dos restaurantes, que tiveram a promessa de que a bandeira seria anunciada com mais de 24 horas de antecedência, para poderem preparar as operações.

Empresários ouvidos reservadamente pelo Bom Gourmet Negócios disseram que esse adiamento do anúncio, sem uma previsibilidade e feita de uma hora para a outra como aconteceu na primeira vez em 12 de março – às 20h de uma sexta-feira para entrar em vigor já na manhã seguinte – impede qualquer tipo de compra de insumos para o trabalho e a própria organização da escala de trabalho.

Há ainda o agravante de que, em alguns estabelecimentos, há preparos elaborados ao longo da semana para uso apenas no final de semana, e que acabam sendo descartados por causa de decisões imediatas.

Durante a reunião, a prefeitura de Curitiba e algumas das próprias entidades disseram realmente ser necessário impor novamente a bandeira vermelha de restrições, mas é uma situação que poderia ter sido evitada segundo o setor de alimentação fora do lar, caso outras medidas tivessem sido tomadas desde o começo da pandemia.

Os sucessivos decretos restritivos que abrem e fecham o comércio são vistos como duvidosos e sem transparência por entidades de classe, que criaram até mesmo uma petição online para pedir uma maior participação popular nas medidas tomadas.

Mais demissões

O temor dos empresários é de que o novo fechamento dos restaurantes force uma nova onda de demissões e falências, como aconteceu em março. Levantamento da seccional paranaense da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-PR) feito a pedido do Bom Gourmet Negócios apontou que cinco mil trabalhadores foram demitidos apenas no primeiro trimestre – principalmente durante os 23 dias de lockdown.

Nelson Goulart Junior, presidente da Abrasel-PR, explica que a associação entende a necessidade da medida, mas que o impacto sofrido está sendo desigual nos negócios.

Para ele, a indústria, a agricultura e o grande varejo funcionam normalmente – inclusive contratando funcionários – enquanto que restaurantes seguem fechando as portas e demitindo, principalmente os pequenos negócios familiares, a maioria dos operadores.

“A realidade é que não conseguimos demover a administração pública de mudar a maneira de fazer o enfrentamento do problema. ‘Ônibus lotados com auxílio a fundo perdido e restaurantes vazios com aumento do IPTU’ continuará a ser a tônica”, disse.

A medida da prefeitura de Curitiba também conflita, de acordo com as entidades, com as decisões tomadas pelo governo do estado, um pouco menos restritivas e que permitem o funcionamento do comércio mesmo com limitações. Na última, publicada na terça (25) e atualizada nesta quinta (27), os restaurantes podem atender presencialmente de segunda a sábado até às 21h.

Fábio Aguayo, presidente da Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas, também reconhece que a situação atual do contágio é caótica, mas ressalta que esse conflito de decisões entre estado e prefeitura está cobrando um preço alto apenas do setor produtivo. Para ele, é preciso que a própria prefeitura também dê uma parcela de contribuição.

“Somos contra este modelo de bandeira vermelha que só o setor produtivo paga a conta. Teremos que buscar na justiça a padronização com o estado, o nosso povo esta cansado de bater cabeça, pois precisamos desta oportunidade de conciliar a saúde e a economia”, dispara.

Assim como para a Abrasel-PR, Aguayo ressalta a questão do transporte coletivo da cidade, que opera sem limitações e ainda recebendo recursos a fundo perdido. Ele questiona porque não há um controle de acesso aos ônibus como há para os restaurantes, com limitação da capacidade de atendimento.

No final da tarde desta quinta (28), a prefeitura divulgou uma nota rebatendo a afirmação, justificando que “dos cerca de 300 mil passageiros que diariamente passam pelas catracas do transporte coletivo de Curitiba com cartão-transporte, 99,9% não têm diagnóstico de Covid-19”.

O levantamento foi feito com base em um rastreamento feito pelo Centro de Epidemiologia no banco de dados da secretaria, cruzando os resultados de testes positivos com CPFs dos usuários do cartão-transporte da Urbs.

Fechados e sem recursos

A primeira bandeira vermelha em Curitiba decretada em março teria duração de apenas nove dias, mas durou 23 e impediu o atendimento presencial em todos os restaurantes e lanchonetes da cidade. Nos primeiros dias, até mesmo o drive thru e a retirada em balcão foram proibidos – o ajuste que permitiu estas modalidades veio seis dias depois.

Por outro lado, o decreto permitia o atendimento presencial sem consumo local em padarias, panificadoras e confeitarias todos os dias, e o funcionamento dos supermercados de segunda a sábado, e apenas delivery aos domingos.

Na ocasião, empresários ouvidos pelo Bom Gourmet Negócios disseram que o faturamento perdido passaria dos seis dígitos, se somando às perdas somadas ao longo da pandemia até então. Levantamento recente do Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) mostrou que a atividade comercial do setor recuperou apenas 57,9% em abril deste ano na comparação com o mesmo período de 2020, auge da primeira onda da pandemia.

Isso se somou aos estudos da atividade do comércio e inadimplência feitos pela Serasa Experian, de queda de -2,5% e de 51,4% em abril, respectivamente.

Para Cristina Souza, consultora em food service da Gouvêa Ecosystem, o setor de alimentação fora do lar já está extremamente debilitado após 14 meses de pandemia, e que uma terceira onda – como já se anuncia – será danosa e fatal.

“Especialistas da Gouvêa Analytics sinalizam que a recuperação será em formato K, ou seja, partindo do mesmo ponto, empresas que estavam bem no início da pandemia seguirão sua rota de crescimento e as que entraram frágeis correm sério risco de efetivo fechamento, especialmente se houver uma terceira onda”, diz.

A previsão é confirmada pela mais recente pesquisa setorial feita pela Associação Nacional de Restaurantes (ANR) com a Galunion Consultoria, que apontou que seis em cada dez empreendedores podem fechar as portas de vez se novas medidas mais restritivas forem impostas no país – 66% dizem não ter capital de giro para mais de 30 dias.

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