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Queda alimentação
Medidas restritivas, demora para a volta do auxílio emergencial e inflação derrubaram faturamento do varejo de alimentação.| Foto: Bigstock

A flexibilização das medidas restritivas em grande parte do Brasil no começo do ano animaram os empresários do setor de alimentação em janeiro em fevereiro, mas os poucos ganhos apurados durante as férias de verão foram rapidamente eliminados e derrubados a índices negativos em março e abril.

É o que revela a mais recente pesquisa do Indicador de Atividade do Comércio da Serasa Experian divulgada na última semana, que aponta que o segmento de alimentos e bebidas despencou em -2,5% no mês de abril, eliminando o ganho de 0,7% dos dois primeiros meses do ano e agravando a perda de -1,4% de março.

Embora englobe apenas as vendas alimentícias do varejo, como supermercados, hipermercados, empórios, açougues, entre outros, a queda do indicador também afeta o segmento de bares, lanchonetes e restaurantes, por conta da retração das condições de consumo das famílias e aumento da inadimplência dos empresários. Segundo a Serasa Experian, mais da metade dos empreendedores do setor de serviços do Brasil está endividada.

Para Luiz Rabi, economista da instituição, a segunda onda do coronavírus entre março e abril foi apenas um dos motivos para a queda nas vendas do varejo. O término do auxílio emergencial no final do ano passado e a inflação pioraram a economia.

“E isso afetou não apenas o setor de alimentação, mas todos os outros que tiveram de fechar as portas ou trabalhar com horários reduzidos para atendimento presencial”, explica.

Apesar da queda de faturamento em março e abril, o setor cresceu 28,1% na comparação com o mesmo período de 2020. Já entre os bares, lanchonetes e restaurantes, não houve crescimento do segmento, mas uma recuperação de faturamento que já chega a 57,9% descontada a inflação (65,4% de avanço nominal), segundo o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) em abril. A explicação é de que o setor estava com boa parte das operações paralisadas no mesmo mês do ano passado.

Mesmo com a expectativa de uma terceira onda da Covid-19 atingir o Brasil a partir deste final de maio e meados de junho, Rabi acredita que o país vai conseguir segurar o avanço da doença e melhorar a campanha de vacinação, evitando novos decretos mais restritivos. Nesta entrevista ao Bom Gourmet Negócios, o economia diz que o fundo do poço já passou, e que o comércio brasileiro já está em uma tendência de crescimento constante.

Bom Gourmet Negócios: Com base nos números apurados pela Serasa Experian desde o começo do ano, podemos perceber que o avanço ou reversão da recuperação acompanha a curva de contágio do coronavírus no Brasil, de uma recuperação considerável em janeiro até uma queda muito expressiva em abril. Isso mostra que o impacto das medidas restritivas não escolheu um segmento ou outro do setor, mas ele inteiro?

Luiz Rabi: Esses números refletem exatamente o impacto da segunda onda do coronavírus na economia. Se pegarmos a curva de casos, ela começou a subir em novembro [do ano passado], na época do segundo turno das eleições, e não exatamente com as festas de final de ano. O fato é que a segunda onda chegou, a maioria dos governos estaduais e municipais retomaram as medidas de restrição a partir da segunda quinzena de março, e isso afetou não apenas o setor de alimentação, mas todos os outros que tiveram de fechar as portas ou trabalhar com horários bastante reduzidos para o atendimento presencial do público – o setor de tecidos, vestuário e calçados, por exemplo, caiu 28,7% em março e mais 18,7% em abril. E além da segunda onda, nós tivemos mais dois impactos neste período, que foram a ausência do auxílio emergencial, que foi pago durante os meses de abril a dezembro do ano passado e só retomado agora a partir de abril – o que diminuiu o poder de compra e tirou dinheiro da economia –, e o aumento da inflação nos últimos meses (6,76% em 12 meses até abril, segundo o IBGE) e continua alta (0,31%), o que corrói o poder de compra das famílias.

Para a Serasa Experian, a categoria de alimentos e bebidas engloba os supermercados e hipermercados, que continuaram abertos mesmo nos períodos mais restritivos, embora com algumas limitações de horários e dias da semana. Os restaurantes e lanchonetes não contam neste tipo de pesquisa do varejo, mas qual é a ligação que eles têm com o que foi apurado no indicador?

A alimentação fora de casa se enquadra no setor de serviços, não exatamente no setor de comércio [no varejo]. No entanto, nós acompanhamos e vemos que sim, ele foi ainda mais atingido e não apenas despencou, mas desmoronou no período. Nós acompanhamos a inadimplência deste setor, sendo que 51,4% de toda a inadimplência registrada no Brasil é de empresas do setor de serviços (micro e pequenas empresas somam 92,4% do total de inadimplentes), que foi o mais atingido e continua sendo fortemente afetado pelas medidas de restrição e pela pandemia como um todo.

O que vemos nessa pesquisa é que o corte do auxílio emergencial fez com que as pessoas passassem a limitar as compras e os gastos, priorizando artigos do dia a dia. O que a Serasa Experian vê como prioridade que os brasileiros estão gastando em face desses impactos?

É muito difícil determinar o que é prioritário, isso depende muito das preferências de cada consumidor. Tem gente que é tabagista e pra ele o cigarro é prioritário, por exemplo. Agora, no geral, a gente pode dizer que o prioritário é aquilo que tem a ver com a sobrevivência e necessidades básicas das pessoas. Ou seja, no caso do varejo, a alimentação é o item mais prioritário de toda a classificação do comércio. No entanto, é bem possível que parte do poder de compra que as pessoas iriam exercer no comércio de tecidos e vestuário, por exemplo, tenha migrado para a alimentação, com o pensamento de que “já que não vou comprar uma roupa nova ou um calçado, eu vou comprar um alimento para o final de semana”. Existe esse tipo de substituição também, e é por isso que esse setor de alimentos e bebidas é menos volátil, em que cai ou sobe menos do que outros segmentos da economia.

Neste momento a Serasa está apurando os números de maio, que possivelmente serão um pouco melhores que em abril por conta da reabertura do comércio. O que se espera daqui para frente?

Já dá para prever, inclusive temos uma pesquisa recente do Dia das Mães que mostra que houve um aumento de 6,4% nas vendas deste ano em relação ao ano passado. É muito pequeno, mesmo porque a queda em 2020 foi de quase 30%, mas mesmo assim é um aumento, um sinal de que agora, a partir de maio, o varejo aos poucos começa a se recuperar e engatar uma trajetória de crescimento daqui até o final do ano se nós não tivermos terceira onda e se a vacinação avançar. De tal forma que não seja mais necessário reintroduzir novas medidas de restrição de horários e isolamento social. Vemos que talvez o mês de abril tenha sido o fundo do poço, assim como foi abril do ano passado, que foi coincidentemente o pior mês da primeira onda da pandemia.

Isso em um cenário otimista de não ocorrer uma terceira onda da Covid-19 e com o avanço da vacinação. E em um cenário pessimista?

Não estamos vislumbrando uma terceira onda e também estamos projetando um avanço da vacinação em todo o território nacional, essas duas somam a principal medida econômica hoje. Estamos em uma situação em que as condições sanitárias é que vão ditar o rumo da economia e, no nosso cenário básico, apostamos que isso deve ser gradualmente superado ao longo do segundo semestre. Temos ainda o auxílio emergencial neste ano que é muito menor do que em 2020 (R$ 44 bilhões contra R$ 300 bilhões), e avaliamos que o mês de maio é o início de uma nova retomada de uma trajetória de crescimento econômico assim como foi de maio a dezembro do ano passado. Esperamos ter uma curva assim neste ano também, um movimento positivo.

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