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Grand Cru vinhos
Na Grand Cru, o fechamento de restaurantes e lojas próprias foi parcialmente compensado pelas vendas no varejo e internet.| Foto: Massimo Failutti/divulgação

Com perdas que chegam a até 50% do faturamento, as principais importadoras brasileiras de vinhos estão buscando novos mercados para se manterem abertas. As regras de isolamento social por causa do coronavírus e a alta recorde do dólar afetaram diretamente as vendas das empresas.

Os restaurantes, que somam a maior parte da carteira de clientes das importadoras, ficaram fechados em algumas cidades do país. Nos locais onde puderam continuar funcionando o movimento despencou em até 70%. O setor de alimentação fora do lar amargou uma perda de R$ 8,13 bilhões entre março e abril segundo dados divulgados na última semana pela Confederação Nacional do Comércio (CNC).

Nos estabelecimentos que passaram a atender apenas pelo delivery, a compra de vinhos passa longe da quantidade de pedidos no salão. Só na importadora MMV, de Curitiba, as vendas caíram pela metade nestes dois primeiros meses de restrições de isolamento social.

Jonas Martins, diretor e sommelier da importadora, explica que restaurantes, mercados e empórios compravam em média quatro mil garrafas por mês. Agora, o volume chega a duas mil para o varejo, com previsão de recuperar só a partir do último trimestre do ano -- e malabarismos para recuperar as contas.

"Postergamos todos os pagamentos para depois de junho para segurar os clientes e estamos evitando ao máximo mexer na tabela. Mas em algum momento vamos ter que reajustar o preço por causa da alta de mais de 30% do câmbio", diz.

A empresa, que está no mercado há 15 anos, vinha crescendo mês a mês desde que foi feita uma reestruturação completa dos negócios no ano passado. Jonas prevê que 2020 vai amargar um volume tão grande de perdas que o ano de 2021 será inteiro para a recuperação do setor.

Já na Grand Cru o fechamento dos restaurantes e das lojas próprias atingiu 80% do portfólio da empresa. Augustin Blanco, CEO da marca, afirma porém que essas perdas foram compensadas por uma migração dos canais de distribuição.

"Restaurantes continuam vendendo por delivery e com menos volume mas, sem dúvida, a força de vendas no momento está nos supermercados e empórios, que tiveram curvas de crescimento agressivas nos últimos 40-60 dias", analisa.

No entanto, assim como na MMV, o dólar mais caro também está afetando as vendas da Grand Cru. Blanco explica o preço final ao consumidor subiu em torno de 15%, mesmo com a empresa absorvendo parte das perdas. E houve, ainda, a possibilidade de suspensão dos pagamentos aos fornecedores após o vazamento de um comunicado interno -- confirmado pela empresa.

"O que existiu foi um alerta de emergência pelo cenário que estava sendo apresentado. Trata-se de uma comunicação relacionada a uma reorganização interna de prazos de pagamento e com as incertezas da cadeia de pagamentos no Brasil gerada pela crise mundial", completa o CEO.

Diversificação

As empresas que possuem um portfólio que vai além dos vinhos estão conseguindo segurar parte das perdas. Na também curitibana Porto a Porto, dos quatro mil clientes nacionais, os restaurantes correspondem a 25%. Os demais são empórios e supermercados, que aumentaram as compras de alimentos que fazem parte do catálogo da importadora - como massas, azeites, molhos, entre outros produtos.

As vendas de produtos como azeite de oliva, aceto balsâmico, polpas de tomate, molhos, conservas e outros (sendo que a marca Paganini é o carro-chefe) representam 40% do faturamento da empresa.

Como as perdas foram menores do que nas outras importadoras, a Porto a Porto acredita que a recuperação dos negócios começará no final do mês de maio, com a abertura gradual dos estabelecimentos em parte do país. A importadora prevê porém que o nível de vendas pré-crise seja novamente alcançado somente no fim do ano.

Digitalização

Se há algo que a pandemia do novo coronavírus provocou no mercado foi a antecipação dos projetos de digitalização dos negócios. Embora não existam dados gerais da venda de vinhos pela internet, a plataforma digital Eniwine registrou um aumento de 20% nos últimos dias.

A importadora MMV antecipou os planos da loja virtual, prevista inicialmente para o primeiro trimestre do ano que vem, com venda direta para o consumidor final. A loja tem os mesmos cerca de 50 rótulos do catálogo voltado aos restaurantes. "Nós mesmos desenvolvemos a loja virtual e agora vendemos para o Brasil todo, não mais apenas para o trade", afirma Martins. Os preços dos rótulos no site são os mesmos dos trabalhados para os restaurantes.

A Grand Cru também passou a focar as estratégias de vendas nos canais digitais diretos como e-commerce, televendas e atendimento virtual e também no varejo em supermercados e empórios. "Acreditamos que muitas mudanças comportamentais trazidas pela pandemia vieram para ficar. A estratégia da Grand Cru tem sido potencializar a sua fortaleza multicanal para transformá-la em uma plataforma omnichannel", afirma Blanco.

A Porto a Porto descarta a venda direta ao consumidor final, mas planeja o fortalecimento do B2B (business-to-business) pelos meios digitais. A importadora também está disponibilizando um curso online gratuito para as brigadas de atendimento dos restaurantes, com 18 aulas práticas para melhor atender aos clientes, a partir do final de maio.

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