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Comida italiana
Embora sejam os mais típicos produtos italianos, as massas tiveram uma retração na importação de alimentos.| Foto: Bigstock

Os brasileiros sempre foram grandes consumidores de pratos italianos, visto a quantidade de restaurantes com cardápios baseados nesta culinária. E também de produtos importados para o preparo em casa, como massas, molho de tomate, azeite de oliva e vinhos.

No entanto, a pandemia do coronavírus mudou completamente estes hábitos ao fechar os salões dos restaurantes e fazer as pessoas olharem mais para dentro de casa – e suas cozinhas. O consumo de alimentos para o preparo em casa cresceu consideravelmente em algumas categorias, caiu em outras, e deu um salto principalmente entre os chamados “de indulgência”.

Para os produtores italianos é como se os brasileiros tivessem “redescoberto” o país da bota, com destaque para os pães, biscoitos e doces que cresceram 65,16% em volume. Na sequência vieram os vinhos (30%), arroz para o preparo de risotos (26,5%) e azeite de oliva (20,44%).

Por outro lado, a compra de massas e molho de tomate teve uma queda de 2,82% e 7,5%, respectivamente, embora ainda respondam por grandes volumes de compras (23,5 mil e 21,4 mil toneladas). Para Ferdinando Fiore, diretor do Italian Trade Agency (ITA) no Brasil, essa retração de alimentos tão típicos se deu por conta do próprio desenvolvimento da indústria brasileira, que aumentou a qualidade dos produtos nos últimos anos.

“Hoje o Brasil já tem fábricas de massas e molhos [que produzem com mais qualidade]. Os distribuidores não importam mais produtos como molhos e massas como antes, vão importar produtos a distância de três a seis meses, como o arroz para o risoto”, diz.

No apanhado geral das importações de alimentos e bebidas da Itália para o Brasil, o crescimento foi de 1,06%, somando US$ 231,2 milhões (R$ 1,27 bilhões). Em entrevista ao Bom Gourmet Negócios, Ferdinando Fiore contou que o objetivo agora é aumentar ainda mais a presença italiana no Brasil, chegando a estados com pouca tradição de consumo dos produtos do país. Veja os principais trechos da conversa.

Bom Gourmet Negócios: Ao longo do ano de 2020 em que as pessoas precisaram ficar mais em casa para conter o avanço do coronavírus, vimos um crescimento considerável de produtos italianos como um todo, com destaque para alimentos de padaria, vinhos e arroz para o preparo de risotos. Ao mesmo tempo, o consumo de produtos mais típicos como massas e molhos teve uma queda. A que se deve isso?

Ferdinando Fiore: O ano passado foi terrível com essa pandemia, que precisamos nos fechar em casa e os bares e restaurantes também fecharam -- canais privilegiados para o consumo de produtos italianos. Mas, apesar disso, foi um fenômeno bastante curioso. As empresas italianas continuaram a exportar os produtos enquanto que os brasileiros descobriram de novo o prazer de cozinhar em casa. Houve essa mudança de comportamento dos brasileiros tal qual aconteceu na Itália durante o lockdown. E as pessoas começaram a fazer pães e doces em casa (a importação de farinha teve um crescimento de 15,57%) estando com familiares. E, cozinhando em casa, utilizamos produtos de alta qualidade como são os italianos, com um controle de toda a cadeia de produção desde o campo. Temos mais de 300 deles com certificações de origem protegida, o que acaba chamando a atenção pela alta qualidade.

Dizemos que a Itália é realmente conhecida por esses ingredientes fundamentais de pratos com pasta e molho de tomate. Mas, temos hoje fábricas no Brasil [que produzem com mais qualidade], por exemplo. Então, os distribuidores não importam mais tanto produtos como massas e molhos, eles estão importando itens com um tempo maior, de três a seis meses. O arroz italiano tem uma qualidade melhor, como o Carnaroli e o Arbório. Acho que foi também uma mudança de gosto e costume das pessoas em descobrir novas receitas italianas utilizando o arroz, como normalmente se utiliza e come na Itália.

Embora as pessoas tenham ficado mais em casa e importado produtos para se fazer mais pratos além dos conhecidos macarrão e risotos, chama a atenção esse aumento expressivo dos alimentos de padaria, como pães, bolos e biscoitos. Se levarmos em consideração a presença de indústrias de massas, como dito acima, temos também muitas indústrias de panificação no Brasil, e mesmo assim os brasileiros compraram mais estes itens importados – e mesmo com a questão cambial do Euro mais caro. A que você credita isso?

Quando eu cheguei ao Brasil no final de 2019, fiquei impressionado ao ver como vocês apreciam os panetones até mesmo mais que nós italianos. Eu acho que essa preferência, somada aos dois fenômenos que falamos antes, é mais pela busca por qualidade nos produtos, principalmente no Sul do país, onde há mais descendentes de italianos. Então há mais procura por este tipo de produto, pela forte presença da cultura italiana não só na gastronomia, mas também nas artes, na moda, no turismo. Este fenômeno pode influenciar no comportamento dos consumidores nos estados do Sul e do Sudeste do país.

Onde mais está o consumo dos produtos italianos no Brasil além dos estados do Sul e do Sudeste?

Esses estados são também os mais desenvolvidos do país, em especial o estado de São Paulo que tem dois aeroportos internacionais (Campinas e Guarulhos), e o porto de Santos, que é a principal porta de entrada dos alimentos importados da Itália para o Brasil e a América Latina inteira. Então, seguramente, estes produtos são mais consumidos nos estados do Sul e Sudeste do país, mas estamos fazendo campanhas de promoção de produtos italianos também em estados em que nunca tínhamos nossos programas de desenvolvimento. Os produtos italianos são também de qualidade e de preço diferente, então é normal que se concentrem em regiões mais ricas do país, onde o PIB é mais alto. Mas, estamos vendo que temos demanda em todo o país, em regiões que normalmente não são grandes consumidores.

Onde que vocês estão entrando com campanhas de promoção dos produtos italianos?

Nossa campanha foi organizada também no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal. Mas, nossos programas neste ano irão envolver mais cadeias de distribuidores, chegando aos estados do Norte do país onde ainda não há muita penetração de produtos italianos. Vamos envolver todos os estados do Brasil para conhecerem a cultura culinária italiana de qualidade, é a nossa missão. Estamos em São Paulo, mas a nossa missão se refere a todo o Brasil.

Em apenas duas semanas da campanha “Sabores da Itália”, foram comercializados R$ 20 milhões em produtos como vinho, arroz e preparações para risoto, azeite, massa, farinha de trigo e presuntos, queijos e embutidos.

Ao longo de 2020 vimos o Real se desvalorizar muito frente ao Dólar e ao Euro, e os produtos italianos que vêm ao Brasil são cotados nestas moedas. Embora as pessoas por aqui tenham passado a olhar os produtos internos, vocês acreditam que as importações de produtos italianos poderiam ter sido ainda maiores se não fosse essa questão do câmbio?

Acredito que sim, porque os principais obstáculos para a importação de produtos são o câmbio, já que o Real perdeu cerca de 30% do valor, e também o regime fiscal, com impostos altos para produtos estrangeiros. Mas, como disse antes, o fenômeno para o crescimento do consumo de produtos italianos significa também que os consumidores estão mais atentos à qualidade dos alimentos. E, neste setor, os produtos italianos são seguramente de qualidade muito superior.

Ou seja, as pessoas não estão se preocupando em pagar um pouco mais por conta da qualidade?

Acho que sim, porque estamos mais em casa cozinhando com a família, passando um pouco mais de tempo. Então as pessoas querem comer e beber bem.

E para este ano, o que a ITA prevê para o Brasil?

Para este ano tudo vai depender da evolução da pandemia, assim como a Itália também está sendo afetada pela doença de novo. Por lá teremos mais um lockdown na Páscoa que também vai afetar as indústrias e a produção. Mas, acredito que no ultimo trimestre de 2021 teremos uma retomada de negócios presenciais, para viajar, organizar feiras e atividades que vão incrementar a negociação e a presença de produtos italianos no Brasil. Espero manter este nível visto até agora e incrementar mais um pouco.

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