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Fígado de ganso

Nova York, a meca da diversidade gastronômica mundial, proíbe o polêmico foie gras

Cidade se junta ao estado da Califórnia (EUA) na proibição do fígado de ganso. No Brasil, apenas duas cidades têm leis semelhantes

por Guilherme Grandi Publicado em 31/10/2019 às 18h
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A cidade de Nova York, nos Estados Unidos, vai proibir a venda de foie gras a partir de 2022 de acordo com uma lei aprovada nesta semana pelos vereadores. A medida deve afetar mais de mil restaurantes e empórios e vai impor uma multa de US$ 2 mil (R$ 8 mil) a quem descumprir a legislação. Com isso, Nova York se junta ao estado da Califórnia na proibição do polêmico fígado de ganso, o que despertou a ira de chefs e apreciadores – e preocupação dos produtores da iguaria.

Foie gras do Tocqueville

No restaurante Tocqueville, em Nova York, o chef Marco Moreira serve um preparo de escalopes com foie gras. Foto: reprodução Facebook.

Para a vereadora Carlina Rivera, autora do projeto de lei aprovado por 42 membros do Conselho da Cidade, esta é uma forma de ajudar na preservação do meio ambiente e na defesa dos direitos dos animais. Ela afirma que a iguaria é produzida a partir de uma alimentação forçada de patos e gansos.

“Esta é uma das práticas mais violentas e é feita para um produto puramente de luxo”, disse. Carlina afirma que a produção do foie gras é a mais desumana na indústria comercial de alimentos. Chamada de ‘gavage’, a produção consiste em superalimentar os animais por meio de um tubo enfiado no esôfago a fim de aumentar o fígado do animal até dez vezes, nas semanas anteriores ao abate.

Entusiastas do consumo do foie gras afirmam que a proibição será um duro golpe contra a clássica cozinha francesa e contemporânea, já que a cidade é considerada um dos maiores mercados da iguaria no mundo depois da França. Um dos chefs que passaram a protestar contra a prefeitura da cidade americana é Marco Moreira, dono do restaurante francês Tocqueville, em Manhattan. Ele diz ser impossível acreditar que os vereadores tenham aprovado uma lei assim.

“Nova York é a meca das refeições no mundo. Como é possível que Nova York não tenha foie gras? Qual será o próximo, a vitela, os cogumelos?”, questionou ele ao The New York Times fazendo referência à classificação dada pelo prestigiado Guia Michelin, que a citou como a ‘meca da diversidade gastronômica’. Moreira oferece diversos pratos salgados e doces preparados com o patê de fígado de ganso.

Golpe na indústria

Além dos mais de mil restaurantes que servem pratos com foie gras, a proibição em Nova York também deve provocar uma quebra de 30% na produção da iguaria nos Estados Unidos além do que já foi perdido com o banimento na Califórnia. Sergio Saraiva, da fazenda La Belle Farm, ao norte de Nova York, diz que tem um prejuízo de mais de US$ 50 mil (R$ 200,7 mil) por semana com a medida.

“Califórnia e Nova York eram nossos maiores mercados, então isso é devastador”, disse Saravia acrescentando que a lei tornará difícil continuar com o negócio. Para ele, a alegação de que os patos e gansos são alimentados à força é exagerada, e que isso é apenas pelo foie gras ser considerado um produto de luxo.

Apesar da aprovação e sanção, os vereadores deram um prazo de três anos para a lei entrar em vigor com o objetivo de incentivar os produtores a ajustarem seus modelos de negócios.

Polêmica mundial

Foie gras

Apesar de ser uma iguaria clássica da culinária francesa, o foie gras passou a ser questionado por defensores dos direitos dos animais. Foto: Bigstock.

Outros países como a Índia, Israel e Grã-Bretanha também já proibiram a venda ou produção de foie gras. A própria França, terra da iguaria, passa por um debate semelhante com leis tramitando na prefeitura de Paris e no parlamento. Por lá há um movimento de engenheiros de alimentos desenvolvendo foie gras em laboratório a partir de células-tronco de gansos criados livremente, e não mais em confinamento.

Já no Brasil, o patê de fígado de ganso é proibido apenas em Florianópolis e Blumenau (SC), embora outras cidades e estados também tenham tentado aprovar legislações semelhantes. Em São Paulo, a polêmica começou em 2015 quando o então prefeito Fernando Haddah (PT) proibiu a venda de foie gras. Um mês depois, uma liminar da Associação Nacional de Restaurantes (ANR) derrubou a decisão que acabou confirmada pelo Tribunal de Justiça do estado. E, em 2017, a lei foi declarada inconstitucional já na gestão de João Doria (PSDB). Casos semelhantes ocorreram em Sorocaba e Taubaté.

O Paraná também chegou a ter uma lei tramitando na Assembleia Legislativa do estado, mas o projeto acabou engavetado em 2015.

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