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“Sou muito mais feliz agora”, diz ex-deputado que largou a política para fazer pão

Conhecido por ter uma das maiores fortunas do Paraná, Marcelo Almeida compra parte da Prestinaria e põe a mão na massa para fazer e vender os próprios pães

  • PorGuilherme Grandi
  • 14/10/2019 05:31
Marcelo Almeida padeiro. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.
Marcelo Almeida padeiro. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.| Foto: LETICIA AKEMI

De empresário milionário a deputado federal, herdeiro de uma grande empreiteira (a CR Almeida) e agora padeiro. Muita gente pode achar estranho alguém sair dos corredores do poder para vender pão e viver em uma cozinha, mas foi exatamente o que Marcelo Almeida fez ao largar a política. Engenheiro civil, dono de uma das maiores fortunas do Paraná, ele comprou parte da Prestinaria – A Casa dos Pães em Curitiba há dois meses para satisfazer um sonho pessoal.

O interesse pela culinária surgiu a partir da literatura e projetos culturais criados quando atuava na política. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.
O interesse pela culinária surgiu a partir da literatura e projetos culturais criados quando atuava na política. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.| LETICIA AKEMI

Cliente da padaria desde a inauguração em 1999 e desacreditado com a forma como a política é feita no Brasil, Almeida contou ao Bom Gourmet que sempre quis ser dono da Prestinaria, mas só conseguiu quando um dos donos resolveu abrir mão da sociedade. Lembrando do livro “O Artífice”, de Richard Sennett, que explora o trabalho manual (não industrializado), ele resolveu botar a mão na massa e também fazer pão junto dos outros padeiros, mas sem sequer saber como.

“Eu sempre soube fazer pizza e a comida trivial do dia a dia, mas o pão como eles fazem aqui, com farinha francesa e Levain (fermento natural clássico), eu nunca nem imaginei como fazia. Como sempre fui muito curioso, quis aprender tudo sobre o trabalho e comecei por baixo enxugando louça na pia, limpando o chão, ajudando a porcionar a farinha, pesar, misturar, funções bem operacionais e elementares”, conta ele que ainda não fez o próprio pão por inteiro.

No entanto, é só uma questão de tempo para o empresário servir as primeiras fornadas feitas por ele mesmo. Aos poucos Almeida vai descobrindo as diferenças entre os pães vendidos e até mesmo sugere aos clientes quais eles devem levar – só se satisfaz quando consegue convencer que um pão 7 grãos (R$ 13,90) de fermentação natural, por exemplo, é mais saudável que um comprado no mercado.

“Enquanto eu não vender um pão eu não saio dali. Isso é algo que a política me ensinou, que é a arte do convencimento. Ou você acha que é fácil convencer 100 mil pessoas a votarem em você”, questiona fazendo um paralelo entre a carreira que levava e o atual ofício.

Todo mundo junto

Junto de Gilmar e "Painho", Almeida diz que a convivência na cozinha passa longe da relação patrão-empregado. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.
Junto de Gilmar e "Painho", Almeida diz que a convivência na cozinha passa longe da relação patrão-empregado. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.| LETICIA AKEMI

Marcelo Almeida chega na Prestinaria por volta das 9h da manhã, coloca o avental, monta a vitrine dos pães e vai para a cozinha começar a produção. Na bancada já estão os padeiros Ivanildo Ferreira da Silva (carinhosamente chamado de “painho”) e Gilmar Santos Ribeiro Pinto, que o ajudam e ensinam as receitas do que será servido no dia. Ao lado de pessoas tão diferentes do convívio até então habitual de engravatados e políticos, ele conta que a relação patrão-empregado passa longe dali.

“Agora eu sou feliz de verdade aqui com eles, pegando na massa. Sou igual a eles, apesar do dinheiro. Sou um homem rico, mas meu coração é de pobre, sempre fui assim”, conta. É de lá que saem os pães que enchem a vitrine da Prestinaria, como os croissants campeões de venda (R$ 6,20), o pain au chocolat (R$ 7,90) e as focaccias com coberturas variadas de legumes ao pesto ou caprese (R$ 64,90/kg).

O próximo passo de Almeida é fazer o próprio pão do começo ao fim e conseguir produzir as tortas doces servidas, que ele considera “desafiador”, como o bolo indiano com canela e brigadeiro branco (R$ 56,90/kg) ou a torta rústica de sementes com açúcar mascavo, pasta de amendoim, banana e granola (R$ 54,90/kg). Para o ano que vem, ele também pretende aprender o ofício de barista, para preparar cafés especiais, e abrir a segunda unidade da Prestinaria, no São Lourenço.

Culinária e literatura

Além de padeiro, o ex-deputado também atende no balcão sugerindo pães aos clientes. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.
Além de padeiro, o ex-deputado também atende no balcão sugerindo pães aos clientes. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.| LETICIA AKEMI

O interesse de Marcelo Almeida pela culinária surgiu a partir da literatura e dos projetos culturais que ele levava como bandeira durante a atuação política de deputado federal entre os anos de 2007 e 2015 e, antes disso, como vereador de Curitiba de 1993 a 2004. Ele é um dos sócios da livraria Arte & Letra, no bairro do Batel, e já teve participação na antiga Trattoria do Victor, na Praça da Espanha.

Ao contrário dos outros cinco irmãos também herdeiros da empreiteira CR Almeida, Marcelo preferiu seguir o caminho da política ao invés dos negócios da família. Hoje, aos 53 anos e fora dos cargos públicos, ele divide a gestão da Prestinaria com os chefs Fábio Sarraff e Rodrigo Machado. “A política foi um ciclo que se encerrou, agora eu sou muito mais feliz”, finaliza.

Serviço:
Prestinaria – A Casa dos Pães
Rua Euclides da Cunha 699C, Bigorrilho
Horários de atendimento: segunda a sexta, das 7h30 às 20h30. Sábado e domingo, das 8h às 20h.
(41) 3342-4576

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Comentários [ 2 ]

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  • A

    alceu nunes

    ± 0 minutos

    Chequei pesquisando, sou de Guarapuava, ouvinte da radio T e quando for a Curitiba e sobrar um tempinho quero conhecer essa cara, tomar um café em sua padaria. Ouço seus comentários e percebia que ele deve ter lido e muito, mas nunca imaginei que fosse milionário parece uma pessoa simples.

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    • J

      JAQUES BRAND

      ± 231 dias

      Seu caráter, visão generosa e sensibilidade para as coisas e causas da Cultura (front decisivo da definição do País que buscamos) vão fazer falta na Política. Muita sorte e sucesso, bom Marcelo, neste novo caminho.

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