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Maior vinícola da Eslovênia inunda Brasil com vinhos ainda desconhecidos

Tradição vinícola do pequeno país do Leste Europeu é mais antiga que a francesa e espanhola

por Marina Mori Publicado em 06/09/2019 às 15h
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Fazer bons vinhos não é novidade alguma para a Eslovênia, mas a surpresa costuma estampar o rosto de quem não conhece a História deste país do Leste Europeu, de 20 mil quilômetros quadrados de extensão. Com população de dois milhões de habitantes – a título de comparação, Curitiba tem 1,7 milhão –, o país conta com aproximadamente 28 mil pequenas vinícolas espalhadas por 22,3 mil hectares de terra.

Apesar de ser considerada uma das menores regiões produtoras do mundo, sua tradição de vinicultura é mais antiga que a de países tradicionais no ramo, como França e Espanha. Mesmo assim, os vinhos eslovenos ainda são pouco conhecidos para além das fronteiras com a Itália, Áustria, Hungria e Croácia. Para mudar este cenário, a família dona da maior vinícola do país decidiu mostrar ao mundo o que os vinhos da Eslovênia têm a oferecer.

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Embora muita gente não saiba, a Eslovênia é um dos países com a tradição mais antiga de produção de vinhos. Foto: Daniil Vnoutchkov / Unsplash

Antes de conhecer o trabalho dos Puklavec, porém, é preciso entender o contexto do país. Por que quase ninguém fala sobre seus vinhos brancos? Os rótulos brancos representam 75% da produção nacional e são surpreendentemente frescos e crispados no paladar graças à combinação de clima mediterrâneo e continental das paisagens verdes e montanhosas da Eslovênia.

A História nos dá a resposta: ao fim da Segunda Guerra Mundial, o país passou a viver sob regime socialista na antiga Iugoslávia. A região unificou também Bósnia, Croácia, Macedônia, Sérvia e Montenegro até 1992. Durante este período, o vinicultor Martin Puklavec viu seu trabalho ser profundamente prejudicado por questões políticas.

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Toda a sua plantação, iniciada nos anos 1930 na região de Podravje, no nordeste da Eslovênia, e as mais de 40 pequenas vinícolas da cooperativa de produtores criada por ele passaram a servir ao Estado. “Durante o socialismo, a quantidade era mais importante que a qualidade. Meu pai sofreu muito com isso, porque ele queria fazer bons vinhos, mas não podia”, contou Vladimir Puklavec, filho de Martin, em entrevista exclusiva ao Bom Gourmet durante uma visita a Curitiba para apresentar seus rótulos ao mercado.

Quando recuperou as terras da família no fim da década de 1990, Vladimir resolveu retomar a profissão do pai. O processo levou quase uma década e, em 2009, o engenheiro com carreira consolidada aprendeu a fazer vinhos. Junto com as filhas Tatjana e Kristina, a família hoje comanda uma produção que chega a cinco milhões de litros por ano e ocupa cerca de 55% da região vinícola da Eslovênia.

 

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Da Eslovênia para o mundo

Quatro rótulos compõem o portifólio da Puklavec: Puklavec & Friends, Jeruzalem Ormož, Estate Selection e Seven Numbers. A família cultiva uvas que vão desde as mais conhecidas chardonnay e sauvignon blanc à variedade nativa furmint, que produz vinhos brancos com alta complexidade de sabor e aroma. “Muito cítrico e encorpado. Não é uma variedade comum para os brasileiros, mas é uma uva nobre que tem se expandido pela Eslovênia e região”, diz Paul Tugday ao provar uma taça da safra de 2016.

Embora a maior parte da produção da Puklavec seja comercializada internamente, uma parcela é exportada para a Austrália, EUA, Canadá e Europa. No continente asiático, China, Taiwan e Indonésia são compradores fiéis.

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Vladimir e Tatjana Puklavec. Pai e filha trabalham juntos para mostrar ao mundo o melhor dos vinhos eslovenos. Foto: Marina Mori/Gazeta do Povo

No Brasil, Moacir Martins Júnior é o responsável pela importação da marca junto dos distribuidores no Paraná, Paul e Juliana Tudgay, da Rootstock Vinhos. As garrafas da Puklavec chegam às adegas com preços partindo de R$ 65 a garrafa. Em Curitiba, são mais de 50 adegas e restaurantes com os rótulos Puklavec à venda, dentre eles Rause Café + Vinho, Adega Brasil (Mercado Municipal), Família Scopel, Nomade, Tartuferia San Paolo e Restaurante Igor.

Pergunto a Tatjana qual é o principal desafio de produzir vinho na Eslovênia e ela é categórica na resposta. “Este é o desafio”, diz, rindo. “Se produzíssemos vinho na Itália ou na França seria mais fácil para as pessoas entenderem de onde viemos, mas teríamos mais competição. Mas nós somos da Eslovênia, um país que ninguém conhece. Somos uma família que ninguém conhece. Então precisamos ser humildes e até diferentes em um certo ponto. Nosso objetivo é fazer o melhor vinho possível”.

Dá para dizer que eles estão conseguindo. Nos últimos dois anos, pelo menos sete vinhos Puklavec ganharam medalhas de ouro, prata e bronze em competições na Europa, como o Decanter Wine Awards e a Mundus Vini. Entre eles, o “Puklavec & Friends sauvignon blanc e pinot grigio 2016”, um vinho com aroma frutado de maracujá e maçã e sabor levemente picante.

 

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Yessss my friends , we are on a roll, gold, silver and bronze are ours.Imagine us at the Olympics! Na zdravje!

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Quase naturais

Vladimir e suas filhas preferem não dizer que seus vinhos são naturais, apesar de toda a produção ser similar à filosofia. O uso de agrotóxicos é mínimo e apenas quando necessário, assim como a aplicação de conservantes às garrafas. “Não chamamos de vinhos biodinâmicos ou naturais porque alguns dos nossos vizinhos usam pesticidas e a água do subsolo pode conter alguns resquícios que não podemos controlar”, explica Vladimir.

As características da região também ajudam a manter o processo quase artesanal da Puklavec. Como a geografia da Eslovênia é marcada por colinas, as vinhas precisam ser cultivadas em uma técnica de terraceamento (ou socalques), onde a plantação forma um tipo de escadaria que só permite a colheita manual das uvas.

Quando olha para o trabalho que tem feito ao longo da última década com as filhas, Vladimir não economiza sorrisos. O senhor esloveno de 73 anos e quase dois metros de altura cruza as mãos sobre a mesa e fala sem pressa com um orgulho tão intenso quanto seu sotaque em inglês. “Hoje posso ir ao túmulo do meu pai e dizer a ele que não se preocupe. Nós fazemos bom vinho”.

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