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Mercado úmido em Kuala Lumpur, na Malásia.| Foto: Bigstock

Não é preciso se aprofundar em qualquer conversa sobre cultura chinesa para que clichês ocidentais como “um povo comedor de morcegos e carne de cachorro” apareçam no diálogo. Essas afirmações ganharam ainda mais peso após as primeiras evidências científicas apontarem para o surgimento da Covid-19 em um mercado de carnes úmidas, em Wuhan, na China. Isto porque dos primeiros 41 pacientes infectados pelo novo vírus, 27 estiveram fazendo compras no local, o que levou as autoridades chinesas a fecharem o comércio e banirem temporariamente a venda de carnes silvestres no país.

Bastou essa informação para que os hábitos alimentares asiáticos fossem colocados em xeque e condenados pela comunidade internacional - seja através de comentários preconceituosos ou pela censura de autoridades sanitárias globais à forma como os abates e armazenamento de animais são feitos nesses locais.

Não é a primeira vez que esses espaços estão sob julgamento internacional. Em 2003, o surto de SARS também teria iniciado em um mercado úmido, na Província de Guangdong, o que levou igualmente ao fechamento do local e a suspensão temporária da venda de carnes silvestres. Mas a verdade é que os mercados de carne fresca não são um hábito exclusivamente chinês.

Intimamente ligado à falta de opções de refrigeração e à cultura alimentar tradicional em algumas comunidades, o transporte de animais domesticados vivos e abate em feiras é comum nas Américas Central e do Sul, em especial nos países próximos a floresta amazônica, além do Noroeste africano, Índia e em toda a Ásia. Muitos deles, inclusive, funcionam como pontos turísticos. Mas mais do que concentrar animais domésticos para abate em situações sanitárias duvidosas, muitos desses espaços também realizam a venda de carnes exóticas, legais e ilegais.

Com informações dos jornais The Guardian e JMIR, especializado em saúde pública, o canal Vox Atlas criou este mapa onde estão concentrados os principais mercados úmidos no planeta.
Com informações dos jornais The Guardian e JMIR, especializado em saúde pública, o canal Vox Atlas criou este mapa onde estão concentrados os principais mercados úmidos no planeta. | Vox Atlas

O que torna esses mercados um risco em potencial é o armazenamento e contato de animais silvestres e domésticos, uns com os outros, de uma forma que nunca seria possível na natureza. Sob stress e com o sistema imunológico deficiente, os animais passam a compartilhar vírus, gerando mutações e infecções cruzadas, que nos colocam diariamente mais perto da próxima pandemia.

“No curto prazo, é preciso melhorar a regulamentação e as práticas de higiene nos mercados físicos de alimentos. Mas, a longo prazo, se a sensibilidade cultural permitir, esse tipo de comércio deve ser eliminado de qualquer maneira”, diz o oficial do Programa para Sistemas Alimentares e Agricultura Sustentáveis do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), James Lomax.

“Em muitos países a carne silvestre e selvagem é ilegal, mas em grande parte deles a fiscalização não tem força”, afirma Lomax.

Mais do que entender a disponibilidade da carne de animais como cobras, crocodilos, gatos selvagens, tartarugas, ratos e até ursos, como sinônimo de falta de alimento e pobreza, é preciso entender como esse tipo de consumo virou uma forma de ostentação de poder e movimenta uma indústria alimentícia bilionária, em especial na Ásia.

“A maioria do povo chinês não come animais selvagens e não há escassez de alimentos. A China produz mais de 80 milhões de toneladas de carne por ano, entre porcos, frango e gado. Possui também a maior capacidade de pesca oceânica do mundo. As pessoas não precisam de mais carne”, explica o doutor Peter Li, especialista em comércio de animais e professor de política do Leste Asiático, na Universidade de Houston.

“Portanto, o surto de Covid-19 não tem nada a ver com a cultura chinesa ou a raça chinesa. Isso tem muito a ver com o modo de produção da indústria de vida selvagem da China, onde um grande número de animais criados em cativeiro e capturados em seu habitat natural são acumulados, transportados e abatidos geralmente em condições totalmente repugnantes”, diz.

A indústria a qual o professor se refere é a criação autorizada e também o tráfico ilegal de animais silvestres, um comércio que só em 2018 movimentou mais de R$ 100 bilhões. Estimulados por mitos de curas milagrosas, potencializantes sexuais e construtores de músculos, o consumo deste tipo de carne está muito mais ligado à classes sociais altas, principalmente em eventos de celebração.

O pangolim por exemplo, um dos principais suspeitos de ter iniciado a transmissão do coronavírus aos humanos, é o mamífero mais traficado do mundo. Isto porque suas escamas e carne são consideradas iguarias gastronômicas e medicinais para alguns grupos. O consumo desse animal, originário da Ásia e África, está associado a poder e status, já que apenas um quilo de sua carne ou de suas escamas pode atingir a cifra dos milhares de dólares.

“Esta demanda foi criada pelos comerciantes e donos de restaurantes de comida exótica. Se as pessoas tiverem que comer carne de caça por causa da fome, eu diria que não teríamos problemas com pandemias. Mas, no caso da China, os comerciantes encorajam o consumo de carne de animais selvagens, não por questões de sobrevivência e sim para se exibir. Não há nada de tradicional ou cultural nesse comportamento alimentar”, afirma Li.

A balança, no entanto, é difícil de equilibrar. Isto porque a carne silvestre e a ilegal tem ocupado o mesma espaço de produtores familiares e tradicionais, polemizando a defesa do banimento total de mercados úmidos. É o que argumenta, Glenn Makuta membro do núcleo gestor da Associação Slow Food do Brasil.  “De fato esses mercados são vitais para a subsistência e segurança alimentar e nutricional de milhões de agricultores familiares, comerciantes e consumidores. Ainda assim, parece haver uma fetichização e mercantilização do consumo das carnes silvestres, não sendo possível generalizar que este seja um hábito de todas as pessoas da maior população humana da Terra. O modelo mercadológico ao qual esses produtos foram adaptados, são sem dúvida muito mais nocivos do que os produtos em si”, diz.

Conteúdo editado por:Talita Boros Voitch
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