Bebidas

Mito ou verdade

Vinho de rolha é melhor que o de tampa com rosca?

Especialistas explicam o que muda na bebida a partir dos diferentes tipos de vedação

por Marina Mori Publicado em 10/06/2019 às 18h
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Você está passeando pelo corredor dos vinhos no supermercado e decide comprar uma garrafa. Escolhe uma depois de poucos minutos – o rótulo é interessante e o preço está dentro do orçamento, mas um detalhe te faz questionar a qualidade da bebida. Em vez da rolha de cortiça, a embalagem é fechada por uma tampa de rosca. Será que esse vinho é bom mesmo?

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Foto: Chuttersnap / Unsplash

Se você já passou por uma situação como essa, bem-vindo ao “time dos desconfiados do screw cap”, nome do fecho que substitui a tradicional rolha cortiça pelo lacre de alumínio. “As pessoas ainda têm essa visão dele como algo usado para um vinho barato e de baixa qualidade”, comenta o tricampeão brasileiro de sommellerie Diego Arrebola. “Isso acaba prejudicando o uso dessa tampa aqui no Brasil, mas ela oferece uma vedação muito mais eficiente do que os outros fechamentos”.

Lá fora a história é outra. Desde o início dos anos 2000, o fecho rosqueável passou a ser adotado com sucesso pelas chamadas vinícolas do Novo Mundo (países que começaram a produzir vinho há poucas dezenas de anos). Além da Califórnia, Chile e Austrália, a Nova Zelândia também se tornou referência no assunto. “95% dos vinhos deles têm screw cap”, diz Arrebola.

Por que a tampa de rosca pode ser melhor que a rolha de cortiça?

Existem vários pontos positivos a favor do fecho de alumínio, apesar de qualquer olhar desconfiado. Um deles é o menor risco de contaminação, já que em 3% a 4% dos vinhos produzidos no mundo a cortiça pode ser afetada pelo TCA (composto tricloroanisol que surge a partir da presença de fungos) e gerar a doença da rolha – conhecida também pelo termo bouchonné, é quando todo o conteúdo da garrafa estraga e fica com cheiro e sabor de mofo.

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A outra vantagem é a garantia de frescor. Justamente por isso, existem vinhos considerados ideais para serem lacrados com screw cap: as bebidas jovens de corpo médio e leve, em especial brancos e rosés, conforme indica Diego Bertolini, gerente de promoção do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). “Nestes casos, a minha primeira opção como consumidor é o screw cap. Ele conserva todos os aromas, além de ser prático. É muito mais fácil vedar a embalagem e guardar o vinho na geladeira com a tampa”.

O sommelier Claudio D’Auria, da vinícola uruguaia Bodega Garzón, eleita pela Wine Enthusiast como a melhor do Novo Mundo, explica que até mesmo vinhos tintos podem ser fechados com a rosca de alumínio. “Principalmente aqueles feitos para serem bebidos dentro dos primeiros dois ou três anos de vida, porque o objetivo é que continuem frescos.

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Foto: Dandy Marchetti / Divulgação Ibravin

Rolha de cortiça para vinhos de guarda…será?

Por outro lado, há um consenso de que os vinhos feitos para amadurecerem na garrafa por muitos anos sejam fechados com rolhas de cortiça. Como a tampa de alumínio promove uma vedação completa da embalagem, a evolução da bebida ocorre de uma forma diferente.

“Com o screw cap, a evolução é redutiva, ou seja, na ausência de oxigênio. Com rolha, é redutiva e oxidativa, porque tem uma microentrada de oxigênio na garrafa”, diz o sommelier Diego Arrebola.

O resultado, depois de uma longa guarda, é que o vinho fechado com cortiça tenda a produzir mais rapidamente aromas ligados à oxidação, já que existe troca de oxigênio entre o líquido e o meio externo.

“São notas de frutas secas, fruta evoluída, esse tipo de aroma e sabor. No caso do screw cap, pode até aparecer, mas vai demorar muito mais. Porque o único oxigênio que está disponível ali dentro é o que estava dentro da garrafa quando ela foi fechada”.

A escolha da rolha de cortiça se deve mais à tradição do que necessariamente a uma regra de qualidade, segundo Arrebola. “Não é que o vinho evolui mais ou menos, melhor ou pior. Só é diferente. Nós usamos a cortiça há 300, 350 anos, então a gente sabe como vai ser essa evolução”.

Como a tampa de rosca é um elemento recente na história milenar da bebida, faltam referências para entender e até mesmo comparar resultados. “Ainda não temos vinhos de 50 ou 60 anos com screw cap“.

Mas há quem enxergue pistas de um futuro onde supermercados e adegas poderão ter tantas ou mais opções de lacres rosqueáveis ao lado das rolhas de cortiça. O sommelier, por exemplo, ainda guarda na memória as notas frescas de um vinho branco neozelandês, um pinot gris 2003, aberto há poucos dias. “Tinha fecho de screw cap e evoluiu muito bem nesses últimos 16 anos: fruta branca e cítrica evoluída, textura cremosa, acidez viva e longo final de boca”.

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