Bebidas

Entrevista

O enólogo argentino da nova geração que faz vinhos com a antiga uva Criolla

Santiago Mayorga é o responsável pelos vinhos da Cadus Wines, vinícola de Mendoza que desponta com rótulos exclusivos e em edições limitadas

por Roberta Braga, especial para a Gazeta do Povo Publicado em 28/08/2018 às 17h
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Na opinião do enólogo argentino Santiago Mayorga, tido pela revista americana Wine Enthusiast como um dos enólogos de destaque da “nova geração”, o melhor vinho é aquele que a pessoa gosta de tomar.

Santiago, que esteve em Curitiba recentemente para lançar os vinhos da vinícola Cadus Wine, opina que cada tipo de vinho tem seu momento ideal, e por isso não é possível definir uma variedade como sendo a melhor. “Hoje a tendência de vinhos mais leves, feitos para harmonizar com as refeições, é cada vez mais forte. Percebemos que as empresas e os consumidores buscam fugir da sofisticação, preferindo produtos mais simples, mas de boa qualidade”, observa.

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Enólogo argentino Santiago Mayorga, da Cadus Wine: “vinhos mais leves são uma das tendências”. Foto: Divulgação

A marca argentina Cadus, que nasceu como braço da consagrada Bodegas Nieto Senetiner, e então passou a ser uma vinícola independente, tem foco na produção de “vinhos de boutique” e tem processo mais artesanal.

Cada rótulo é minuciosamente desenvolvido pelo enólogo com uvas selecionadas. São vinhos ultra premium que são produzidos em quantidade limitada de garrafas – alguns não passam de 4 mil unidades. Os rótulos chegaram ao Brasil recentemente, trazidos pela importadora curitibana Porto a Porto.

Ao todo são sete opções: Cadus Signature Series Petit Verdot 2015; Cadus Signature Series Criolla 2017; Cadus Appellation Vista Flores Chardonnay; Cadus Appellation Tupungato Malbec 2016; Cadus Appellation Tupungato Cabernet Sauvignon 2016; Cadus Las Torcazas Malbec 2014 e Cadus Blend de Alturas Malbec 2014.

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Você é engenheiro agrônomo por formação. Como você entrou na área de vinhos?

Em 2003 me formei como engenheiro agrônomo e comecei a trabalhar com meu pai, que também é engenheiro. Em uma viagem de trabalho à África do Sul, conheci o enólogo argentino Roberto de la Mora, que notou meu interesse pela área e me convidou para participar de um projeto pequeno, de boutique. Trabalhei com ele por dez anos e me encantei pelo mundo dos vinhos. Depois, em 2013, fui chamado para ir para a Bodega Nieto Senetiner.

Depois, veio o convite para comandar a Cadus Wines, que já nasceu com um conceito diferenciado. O que você busca desenvolver na vinícola?

A Nieto Senetiner busca expressar o estilo do Malbec usando variações na produção, como fruta madura, fresca, com mais ou menos madeira, e com uvas de diversos terrenos. Na Cadus o trabalho é mais de unir a variedade a um terroir especial e, assim, buscar o potencial máximo do vinho. Meu trabalho na Cadus é, basicamente, tentar trazer o que está acontecendo no resto do mundo. Cada terroir expressa algo diferente no vinho e esse é o nosso ponto de partida, e acho que também é o diferencial dos produtos argentinos em geral. A uva Malbec é a nossa maior ferramenta e usamos uma combinação de variedades de terroirs, o que faz com que consigamos bebidas únicas e autênticas. O trabalho segue, basicamente, três pilares: volumes pequenos; vinhos de terroir e respeito à identidade do lugar e de sua variedade.

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A produção de vocês consiste em vinhos chamados “de boutique”. É uma tendência no mercado?

Há pouco tempo, os consumidores eram fiéis a marcas, mas hoje querem provar diferentes vinhos, não existe mais esse apego. Por isso, esses conceitos de vinhos de boutique e de vinhos de autor estão tão em evidência. Então, podemos dizer que, sim, é uma tendência, na qual a figura do enólogo é cada vez mais importante na hora de pensar um vinho. Logicamente, existem vinícolas com diferentes conceitos e formas de pensar. E, para mim, o interessante está justamente na diversidade.

A Cadus fica em Mendoza. O que faz com que a região seja um polo para a produção de uvas e vinhos?

Mendoza é a região que produz aproximadamente 80% dos vinhos argentinos e é um lugar muito grande e com muita diversidade de terroir, solos e climas. Portanto, tem muita variação de acordo com o que é cultivado e da forma como as uvas acabam por expressar as frutas e as características sensoriais. Por outro lado, Mendoza, assim como em boa parte da Argentina, é um lugar onde a fruta consegue sua maturidade de forma mais rápida por termos pouca umidade, muito sol e uvas de boa qualidade. Dessa forma, conseguimos ter uvas com muita expressão da fruta e maturidade de tanino. E isso é muito interessante, pois faz com que os vinhos possam ser tomados ainda bem jovens e mesmo assim tenham alta concentração de sabores e complexidade.

Um dos vinhos da Cadus usa a uva autóctone Criolla, uma variedade antiga que agora voltou a ser valorizada. Isso é algo que o mercado também está buscando?

Sim, existe essa tendência em países da Europa e agora isso também na Argentina, que é a de resgatar a identidade da região, buscando uvas que eram cultivadas antigamente. A uva Criolla chegou à Argentina vinda de Tenerife, nas Ilhas Canárias. Foi trazida pelos jesuítas que a plantavam ao lado de suas igrejas para fazer o vinho da missa. Essa variedade tinha pouca cor e pouca concentração de tanino, mas aos poucos foi passando pelo processo de mutação e algumas, que são cultivadas em regiões de bom potencial, resultam em vinhos muito interessantes. São os tipos de vinhos que estão em alta: menos encorpados, com muita fruta, com características minerais e terrosas, suaves e frescos.

A Argentina vem, cada vez mais, conquistando lugar de destaque no cenário internacional. Como você vê a produção vinícola do país?  

A Argentina é um país considerado em ascenção na produção vinícola, mas que sempre foi reconhecido pela alta qualidade de vinhos. A Malbec foi o tipo de uva que nos ajudou a conquistar lugar de destaque no mapa e tem capacidade de expressar distintas tipicidades aromáticas de acordo com a região em que são cultivadas. Hoje, muitas pessoas do exterior nos procuram justamente pela qualidade dos nossos vinhos. Em geral, são bebidas que, de qualquer região que sejam, expressam terroir e tem uma boa relação preço/qualidade. Também podemos destacar que, além do vinho Malbec, estamos produzindo outras variedades como Merlot, Cabernet Franc, os vinhos brancos com a Petit Verdot, e outros blends. Então, podemos dizer que a Argentina tem muito potencial e que irá seguir sendo considerada como umas das produtoras de maior qualidade do mundo e que oferece valor agregado aos seus vinhos.

Conheça os rótulos da Cadus Wines

Cadus Signature Series Criolla 2017 – Edição Limitada

 

 

 

 

A uva autóctone Criolla origina-se de um vinhedo Vista Flores, no Vale de Uco, Mendoza. O vinho é elaborado em tanques pequenos com extração suave com pressão manual e envelhecido em ovos de concreto. É fresco e frutado e traz notas de ervas e algum mineral que lembra o concreto. No paladar é fresco e suculento. A graduação alcoólica é de 13,5%. A produção foi de 4 mil garrafas.
Valor: R$152,90

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Cadus Signature Series Petit Verdot 2015 – Edição Limitada

 

 

 

 

As uvas Petit Verdot são de Chacayes, Tunuyán, no Vale de Uco, Mendoza. É um vinho de cor vermelho escuro, com frutas vermelhas maduras, grafite e notas frescas de mentol. A graduação alcoólica é de 14,5%. A produção foi de 5 mil garrafas.
Valor: R$ 152,90

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Cadus Appellation Vista Flores Chardonnay 2016


A uva branca Chardonnay vem do vinhedo Vista Flores, no Vale de Uco, em Mendoza. 50% do vinho é fermentado e envelhecido entre 8 e 12 meses em barricas de carvalho francês. De aroma fresco, traz flores brancas, como acácia e flor de laranjeira, notas cítricas e minerais. É seco, sedoso e com acidez vibrante. A graduação alcoólica é de 13%.
Valor: R$135,90

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Cadus Appellation Tupungato Malbec 2016

 

 

 

 

 

Traz uvas Malbec do vinhedo Gualtallary, no Vale de Uco, Mendoza. A colheita é manual e entre 60% e 80% do vinho amadurece por 12 meses em barricas de carvalho francês. Traz uma combinação de frutas vermelhas com notas de mineralidade. De cor intensa, destaca-se pela acidez e pela presença marcante de taninos. A graduação alcoólica é de  13,8%.
Valor: R$ R$ 135,90

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Cadus Las Torcazas Malbec 2014

 

Elaborado na Fazenda Las Torcazas, em Agrelo, Luján de Cuyo, região de Mendoza. As uvas Malbec são colhidas manualmente e fermentadas em inox. Depois, amadurecem em barricas de carvalho francês por até 24 meses e, em garrafa, por 12 meses. Traz aromas de ameixa, framboesa, violeta, mentol, caramelo e um toque defumado. Apresenta bom corpo, taninos macios, é denso, longo e suculento. A graduação alcoólica é de 14%.
Valor: R$307,90

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Cadus Blend de Alturas Malbec 2014

As uvas Malbec se originam de três vinhedos na região de Mendoza. A bebida amadurece por 12 meses em barricas novas de carvalho francês e passa mais 12 meses em adega. Apresenta aroma de frutas vermelhas com notas florais. Em boca é seco, encorpado, com boa acidez e taninos finos. A graduação alcoólica é de 15%.
Valor: R$ 221,90

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Cadus Appellation Tupungato Cabernet Sauvignon 2016

As uvas Cabernet Sauvignon se originam no vinhedo Gualtallary, na apelação Tupungato, no Vale de Uco, Mendoza. A colheita é manual e aproximadamente 80% do vinho amadurece por 12 meses em barrica de carvalho francês. É um vinho de aromas sutis que mistura amoras, cassis e groselhas com algumas notas herbáceas. É concentrado e equilibrado. A graduação alcoólica é de 14,5%.
Valor: R$ 135,95

Serviço

Os vinhos podem ser encontrados, em Curitiba, na Adega Brasil, Celeiro Municipal e Bebidas Juvevê.

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