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Beijo AA Força

Banda morre e finda uma época musical do Paraná

Vinte e cinco anos depois de seu surgimento revolucionário no cenário musical paranaense, a banda Beijo AA Força faz nesta quinta-feira seu último show

  • Luiz Claudio Oliveira - Gazeta do Povo Online
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Finda uma época em Curitiba. Vira-se a página de um quarto de século de boa música e muita agitação de uma das melhores bandas que a cidade já teve. O tempo equivalente a uma geração que serviu para que a cidade parasse de olhar o próprio umbigo, respirasse ares contemporâneos e metropolitanos e cantasse a si e ao mundo sem obrigações ou reverências. Há 25 anos, nascia nesta cidade uma banda que nos ensinaria a ser mais livres, mais atuais e menos piegas e provincianos. Como tudo e todos, o que era novo envelhece e chega a hora de morrer. Esta quinta-feira, dia 22 de março de 2007, é o último dia de vida da banda Beijo AA Força. O réquiem, missa de corpo presente, será no Vox, com o último show.

No tempo em que a banda nasceu, a cidade tinha lá seus representantes na pauta do rock e pop, mas a coisa estava meio encruada. A Chave tinha tido seus dias de glória e a Blindagem era a sucessora. Havia boas bandas heavy, mas muito tímidas e que sempre sofreram com o preconceito da mídia. Não existia um movimento nem uma força mais atual e o público e a cena estavam minguando. Mas eis que chega a roda viva em forma de Contrabanda e carrega a tristeza pra lá. Conecta a cidade com o pop rock contemporâneo daquele início dos anos 80.

Começava a trazer para os palcos da cidade o que se produzia de mais atual fora do patropi. Uma irreverência que lembrava o rock’n’roll dos anos 60. Uma falta de técnica compensada pela energia e alegria que transformava shows em happenings, como se dizia então, ou em instalações, como se diz hoje, mas sem a chatice hermética dos artistas plásticos. Eram apresentações carregadas de um certo psicodelismo histriônico que exalavam novidade. Quem via tinha a certeza de que estava presenciando algo novo, algo que nascia naquele momento. E com razão.

Com a Contrabanda nasceu uma nova era que agora acaba, mais de 25 anos depois. A Contrabanda era uma tamanha mistura que não poderia mesmo durar muito. E ela transmutou-se em algumas bandas, mas a que vingou e durou até agora como representante oficial daqueles tempos foi a Beijo AA Força. Num primeiro momento, ela radicalizou total, assumindo a estética e a sonoridade hardcore. Mas era preciso escutar aqueles meninos punks porque eles sempre tinham algo a dizer. Os shows do BAAF sempre acabavam ou em festa ou em briga, às vezes as duas coisas, mas bem mais em festa.

Não sei como eles conseguiam, mas mesmo sendo punks radicais, nos shows e nos contatos pessoais pelos bares e casas e festas, acabavam provando, aos que prestavam atenção, que o preconceito estava mais nos outros que os julgavam sem os conhecerem. Pois esses meninos organizaram o primeiro festival de punk rock de Curitiba e trouxeram bandas paulistas para tocar aqui, iniciando um intercâmbio musical que nunca mais parou e deve sobreviver até mesmo à morte anunciada para esta noite no Vox.

Sem Suingue

O Beijo cresceu e, com espírito sempre aberto a novidades, foi aos poucos se afastando da radicalidade e adotando outros sons e possibilidades. A cada show, a cada novo trabalho, um elemento diferente se impunha como um tempero a mais na maravilhosa sopa de criatividade do grupo. Alguns anos depois, deram à luz um duplo deles mesmos.

Um novo grupo formado de anti-matéria? Foram engolidos pelo mundo por trás do espelho? Como então explicar que aqueles desbravadores do punk nacional formavam uma nova banda de ... samba! Sim, sambas, maxixes, marchinhas, tudo embrulhado num sotaque polaco-curitibano sem suingue (e o BAAF lançou um CD e uma produtora com o nome de Sem Suingue). Do ventre exposto do Beijo AA Força nasceu a Maxixe Machine, mas a surpresa foi só para os que não conheciam as referências e preferências musicais dos que formavam o Beijo.

Os caras tocavam marchinhas em um ritmo um pouco mais acelerado, hardcore, desde os tempos de punks. Nas madrugadas, quando começavam a cantar, tudo acabava em samba e quase quebravam as mesas de tanto batucar naquele ritmo alcoólico e sem suingue. Com a nova banda, a coisa toda ficou tão separadinha que o Maxixe Machine foi convidado para, numa participação especial, tocar no CD do BAAF e vice-versa.

Fizeram vários shows marcantes dentro e fora de Curtiba. Inesquecível em som e imagem um do Aeroanta, de produção caprichada com cenário e adereços da artista plástica Iara Teixeira (por acaso, cunhada deste que vos escreve). Foi talvez o melhor, o mais bem produzido, entre os vários bons shows da banda.

Beijo da morte

Há dez anos, morria Marcos Prado, uma espécie de letrista oficial e elemento da banda que não subia fisicamente ao palco. São deles composições como “No Tempo das Diligências”, “O Homem de Ferro”, “Síndrome de D. Juan”, “O Dono da Farra”, “Tristes Homens Azuis”, entre tantas outras que poderiam estar em qualquer coletânea das melhores letras do rock nacional. É claro que não é fácil superar uma perda destas. Mas lá se foram dez anos até a chegada da morte definitiva e anunciada.

E a despedida chega com um legado, lançamento de CD e DVD num projeto da Grande Garagem que Grava, empreendimento tocado pelo Luís Ferreira e o Rodrigão, membros fundadores da Contrabanda e que se bandearam juntos para o Beijo AA Força e tanto fizeram pela cena musical paranaense. A Grande Garagem já gravou CDs de dezenas de grupos dos mais variados estilos neste início de século.

Paralelamente ao trabalho da banda, Ferreira, Rodrigão, Prado e outros que giravam em torno do BAAF, agitaram culturalmente a cidade. Promoveram festivais, coletâneas, facilitaram gravações e atuaram em cinema (produziram o filme Bar Babel, uma caricata e resumida história da música brasileira), teatro (foram responsáveis pela trilha musical da peça “A vida é cheia de som e fúria”, que ajudou Felipe Hirsch a, merecidamente, ser um sucesso nacional) e literatura (no final de 2005, Hirsch retribuiu e produziu o livro Ultralyrics, com poesias de Marcos Prado e que trazia um CD com canções feitas com letras do poeta, publicado pela Travessa dos Editores).

Rodrigo e Ferreira são também os produtores do programa Rádio Caos, que vai ao ar todos os domingos pela Rádio 91 Rock (91.3 MHz) de Curitiba e pode ser conferido também pela internet (www.radiocaos.com.br). No programa, o melhor da música mundial e da literatura em português. Rodrigão ainda arranja tempo para falar de esportes em uma coluna semanal, que sai todo sábado, na Gazeta do Povo.

Portanto, as atividades são muitas e vão muito além do Beijo AA Força. Essa efervescência existiu e continuará existindo após o enterro desta noite. O BAAF vai deixar saudades partindo assim, nem cedo nem tarde, apenas indo, aos 25 anos. “Mas, seja como for, um dia o pulso pára”, como diz uma das letras de Marcos Prado. Resta-nos dar o beijo da morte e agradecer por tantos anos de criatividade e bons serviços prestados à música nacional. Que o Beijo AA Força reste não em paz, mas no agito eterno em que sempre viveu.

Serviço:

Despedida do Beijo AA ForçaVox (R. Barão do Rio Branco, 418), (41) 3233-8908.Dia 22, quinta-feira, às 22 horas. R$ 10.

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