Rod Paradot vive Malony, adolescente linha dura. | Divulgação
Rod Paradot vive Malony, adolescente linha dura.| Foto: Divulgação

Duas mulheres discutem a respeito da guarda de um pequeno garoto. Não se veem suas faces, apenas se ouve um diálogo ríspido. No centro da cena, o menino reage turbulento enquanto nos encara com um olhar inquisidor: de quem é a culpa?

A situação serve de prólogo a “De Cabeça Erguida”, filme da francesa Emmanuelle Bercot que atraiu a atenção ao ser escolhido para abrir o Festival de Cannes deste ano e estreou nos cinemas na última quinta-feira (17).

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A violência contida da cena também anuncia um drama de insubordinação, da rebeldia como modo de expressão, da violência como resposta à violência. Esta característica tem no Antoine Doinel, protagonista de “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, uma matriz cuja influência persiste no cinema.

Por meio de elipses que intensificam e lançam o drama, “De Cabeça Erguida” revela a transformação de Malony da criança indefesa vista no primeiro momento em um adolescente selvagem e criminal.

Em torno dele, a mãe inepta e drogada (Sara Forestier) e uma juíza de menores (Catherine Deneuve) se confrontam a respeito de saídas para arrancar o jovem do destino ao qual parece condenado.

Catherine Deneuve interpreta juíza de menores no filme “De Cabeça Erguida”. Divulgação

Bercot põe em contraste os efeitos da liberdade ilimitada com a função das leis de enquadrar e coibir. O discurso moral, no entanto, não pesa nem sobrecarrega o filme na medida em que a direção prefere seguir o desempenho do estreante Rod Paradot no papel de Malony, personagem que provoca respostas ambíguas, ao qual reagimos com aversão e afeto.

Como Jean-Pierre Léaud em “Os Incompreendidos” (1959) ou Sandrine Bonnaire em “Aos Nossos Amores” (1983), primeiros trabalhos de ambos atores, Paradot magnetiza todas as cenas e, assim, desloca o foco do drama social para sua atuação.

O efeito colateral dessa proeza é que “De Cabeça Erguida” estica e puxa um pouco demais as situações, reitera para subjugar o espectador com a performance abundante do protagonista. Se tivesse meia hora a menos, o filme venceria mais pela força do que pelo cansaço.

Varilux

O filme estreou no festival Varilux, em junho. Na ocasião, em visita ao Brasil, a diretora explicou como construiu o roteiro e a narrativa. “Foram muitos anos de gestação. Acho que esse projeto me acompanhou desde sempre, por causa de meu tio, mas, no momento em que decidi levá-lo adiante, comecei a ver e a rever tudo o que a TV e o cinema já haviam feito sobre o tema. E visitei as instituições. Fui a reformatórios abertos, fechados. Entrevistei centenas de adolescentes. Descobri que, por ser artista, eles me olhavam de maneira especial.

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