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 | Albari Rosa/Gazeta do Povo
| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Deve haver um mandamento ainda a ser noticiado cuja ordem expressa é fazer com que tudo que aconteça em Curitiba revele-se distinto, potencialmente confuso e quase sempre engraçado. Pois em uma cidade com alma saramandística, em que capivaras são habitués de rodoviárias, em que há corrida de pedalinhos, cidade em que uma entidade besuntada pedala de sunga, e na qual o patrimônio histórico, feito mágica, é subvertido em espigões sem graça ou shoppings emperequetados, a neve não poderia retornar de qualquer jeito.

Em Curitiba, é caso de divã essa expectativa quase doentia, a ansiedade pelos floquinhos, a tara pela neve. Talvez porque, inseguros de frio, precisemos reafirmar a nós mesmos que somos a capital mais gelada do país, ora, onde até neva.

O rebu da última terça-feira durou minutos, mas será lembrado e discutido até a próxima neve, daqui a 38 anos, talvez. Metade, ao menos, do que demora o cometa Halley – outro que muitos dizem que viram, mas não viram.

Se teve uma coisa boa nessa história toda, cientificamente falando, foi aprender o que é sleet, a chuva congelada capaz de separar otimistas de pessimistas. O fato é que, com sleet ou a neve que caiu (caiu?), tão mirrada que não deu nem para um boneco, a terça-feira passada foi singular.

Relatos dão conta de que pedestres encorujados, assim que notaram pontos brancos na japona, cumprimentaram espontaneamente quem vinha na direção oposta, acenando com a cabeça ou levantando o polegar enluvado. "Tá nevando," disseram, baixinho, com a incerteza de quem fala com um estranho às 8 da manhã. Mais ou menos como fazem os ciclistas que se cruzam pelo caminho, cúmplices do bate-queixo de todos os dias de julho. O frio aproxima, então?

Durante a neve, viramos todos Pollyannas. Às 10 horas, fotos em redes sociais tentavam mostrar algo que, de fato, não existia. Seria sleet? Nas conversas de elevador – teve até disso na terça – perguntas se sobrepunham, buscando uma verdade comum e alentadora, capaz de apaziguar quatro décadas de esperança.

– Você viu a neve?

– Vi. Quer dizer, acho que vi.

No clima de freezer aberto que se instalou na madrugada de segunda-feira, o responsável pelo Twitter do Simepar, com precisão poética, soltou essa: "Gente, vamos com calma. Esta câmera ao vivo no Batel registra esta garoa fina, que brinca livre ao vento, que está presente em toda Curitiba." O pessoal chateou.

Mas horas depois, confirmado o fenômeno para além do sleet, veio o registro em música. Lívia Lakomy (da banda Lívia e os Piá de Prédio) e Bernardo Bravo (da Felixbravo), lançaram no YouTube "Mas Que Nevou, Nevou", um resumo do acontecimento mais rápido, gelado e incrível dos últimos tempos nessa cidade adoravelmente histriônica. "Da minha janela vi o floquinho cair/ Desci pelo elevador/ Mas quando cheguei no térreo notei/ Que a neve não esperou." Só em Curitiba dez minutos duram tanto tempo. E são capazes de tanta coisa.

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