– Desculpe, se­­nhor, mas de­­vo estar lhe avisando que nós estamos gravando esta ligação, e, como eu estava lhe explicando, o problema que o senhor está nos apresentando...

– Moça, nem lembro mais o problema que me fez ligar pra esse 0800, transferiram tanto a ligação que eu falei que não aguento mais ouvir gerúndio. Aliás, você sabe o que é gerúndio?

– Não sei, senhor, por isso vou estar lhe passando para o supervisor, que poderá estar lhe esclarecendo melhor, um instante.

Musiquinha. O supervisor:

– Pois não, quem está falando?

Digo que é o sr. Gerundivo.

– E qual é o problema, sr. Gerundivo?

– O problema é que não aguento mais ouvir tanto gerúndio!

– O senhor poderia estar explicando melhor?

Tenho vontade de uivar-ganir-esganar, mas só pergunto:

– Sabe o que é gerúndio?

– É alguma peça de algum produto nosso que o senhor está usando?

– Não, gerúndio é um tempo verbal!

– O senhor poderia estar esclarecendo melhor?

– Por exemplo, "esclarecendo" é gerúndio do verbo esclarecer.

– O senhor não deveria estar se informando sobre esse assunto com o Disk Gramática? Ligando para o 102...

Explodo:

– Quem devia se informar sobre a língua portuguesa são vocês, seus gerundistas linguicidas!

Ele fala com voz grave:

–Desculpe, senhor, mas nosso pessoal esteve sendo treinado para estar atendendo conforme as me­­lhores normas internacionais, to­­dos tendo pelo menos o colegial completo e estamos contando até com pessoal de nível superior.

– Mas em todos os níveis estão atolados em gerundite!

– O senhor vai estar me desculpando, mas nós estamos tendo orientação para estar desligando em caso de destrato.

– Então vamos tratar o seguinte: eu desligo antes e depois o se­­nhor pode estar desligando, tá?!

Desligo, suspiro, respiro fundo várias vezes, aí ligo de novo.

– Eu queria estar sabendo por que vocês ficam falando assim, sempre usando os verbos em "ando", "endo" e "indo".

– Não estou entendendo, senhor.

– Tá vendo? Você podia dizer "não entendo", mas disse "não estou entendendo". Usou três palavras em vez de duas, devem gastar milhares de minutos encompridando à toa os verbos.

– Senhor, minha orientação é para estar passando para a chefe os casos que não estiver entendendo, um momento.

Musiquinha. A chefe:

– Pois não, com quem estou falando?

– A senhora está falando com uma pessoa que já está falando deste assunto faz quase uma hora e não está adiantando.

– Qual é o problema que está ocorrendo, senhor?

– O problema é que jogaram a concisão no lixo e estão se enrolando em gerúndios e mais gerúndios.

– Não estou entendendo, se­­nhor, poderia estar explicando melhor?

– Não! Não vou estar explicando nem quero estar sabendo de mais nada, vou desligando, até nunca mais, até nuncando!

Bato o telefone, minha mulher está chegando (eis um gerúndio preciso!) e pergunta quem me irritou assim. Digo que foram 800 gerundistas; ela me olha intrigada, digo para deixar, ou melhor, ir deixando pra lá.

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