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José Castello

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José Castello

Libério vai ao médico

  • josegcastello@gmail.com
Antologia - Papel Passado - Libério Neves. Editora UFMG, 130 págs., R$ 40 |
Antologia - Papel Passado - Libério Neves. Editora UFMG, 130 págs., R$ 40
 
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Uma leitora, Silvia M., abnegada leitora de poesia, me escreve para reclamar que muitas vezes me falta a capacidade de escolher. “No caso da poesia, você insiste em falar de todos os poemas, e acaba por não falar de nenhum”. E, firme, arremata: “O que vejo nisso é a sua falta de coragem para escolher”. O email de Silvia M. deve ter uns seis meses, quase um ano. Não me recordo a que livro específico ela se referia. Voltou-me à mente (e tratei de relê-lo) agora que preciso escrever sobre Papel Passado, a antologia poética do desconhecido, mas genial, Libério Neves (Editora UFMG).

Nascido em 1934 em Ribeiro das Antas, interior de Goiás, Libério chegou a Belo Horizonte em 1952. É um poeta mineiro, e mais: um grande poeta. Enquanto lia seus 63 poemas, ainda tonto — como se provasse de uma bebida forte pela primeira vez —, rabiscava, anotava, perdia-me. Lembrei-me, então, de Silvia e decidi que deveria, pelo menos dessa vez, me deter em um único poema. Escolhi justamente o primeiro, “Doação”, poema inaugural de uma série em que Libério trata das relações entre a existência e a matéria. Entre a poesia e a vida.

Começa com quatro versos extraordinários: “Dou minha matéria à terra./ Entanto antes apresento/ o corpo a ti, doutor, para/ a ciência dos teus dentros”. A poesia conhece o frágil limite da ciência. A poesia é o frágil limite da ciência. O doutor examina o cérebro, a pele, as veias, os nervos e o coração, mas o doutor vê o poeta? Enxerga a poesia na anatomia? A poesia (o poeta) começa onde o olhar do médico termina. (Não devia ser assim, não deve ser. Conheço médicos que avançam sobre a alma sem medo.)

Quem vê o cérebro, não vê o poema que nele incendeia. “Tu vês o cérebro/ em seus maciços de estanho,/ mas não dissecas os versos/ aí regurgitando/ inconclusos ou inéditos”. O olho do médico só vê as coisas, não vê A Coisa. Não vê aquilo que agita a carne, não percebe o murmúrio que se levanta e se transforma em palavra. Não é que o médico (a ciência) seja cego. Ele está preparado para ver “o que é”, mas a poesia é “o que não é”. A poesia é potência. Seria impossível, diante do poeta, o doutor diagnosticar uma doença que ele terá daqui a dez anos. Do mesmo modo, é impossível que enxergue as palavras que nele se agitam — e que, a rigor, são o que o mantém de pé. Elas são a alma de que falo; não a alma dos católicos, piedosa e vaga, mas a fogueira que ilumina o interior do corpo levando-o a falar.

Silvia M., minha leitora, você tem razão. Não sei se ainda lê minha coluna dos sábados, não sei se dela se cansou, justamente por lhe faltar aquilo que você nomeou como a coragem da escolha. Mas hoje, que escolho “Doação” — que me arrisco a escolher um entre tantos poemas contundentes — parece que minha visão também se abre; que consigo enxergar entre as palavras, e não apenas sobre elas. Diz Libério: “Vês no avesso em mim a pele,/ mas não seus arrepios”. Ao me deter em um poema, um único poema, não apenas acarinho esse arrepio: um tremor me submete também.

Não há nada de místico nisso, isso é só — só? — um efeito da poesia, que detém o poder de rasgar a pele e penetrar ali onde nada de concreto há para se apalpar, onde não há corpo — o que não quer dizer que nada exista. “Vês os nervos estendidos/ com suas cordas dormidas,/ e nunca sabes perceber/ as vibrações mais vivas/ dos meus íntimos tremores”. Eis aí: aí está tudo. Minha falecida mãe era espírita e garantia que, na encarnação passada, na primeira metade do século 19, fui um médico de prestígio. Talvez, Silvia M., este médico perdurasse em mim até que o poema de Libério viesse desafiá-lo. E o médico (eu, um leitor) se viu obrigado a parar, a ler e reler, a deter-se em frágeis 36 versos, que quase cabem em uma página, e deles fazer seu alimento. É esse mastigar sangrento que agora, ainda espantado, ofereço a meu leitor.

“E tens em mãos o coração!/ Mas não levas o poder/ (indo além do endocárdio)/ de reter estes impulsos/ do meu secreto amor”. Muitos segredos escapam ao olhar clínico do doutor — a não ser que ele tenha a coragem de abandoná-lo um pouco e ser apenas um homem diante de outro homem. Quantos conseguem ter? Eu conheço alguns que sim. O médico examina e examina, mas não pode ver as palavras que só são vistas quando são lidas. Sem a leitura, palavras não passam de um nó de letras. É isso, talvez, tudo o médico de Libério vê.

Até que o poeta morre — embora ele, Libério, continue bem vivo, ainda que escondido na penumbra de nosso descaso. “Então dou à terra/ pulmões e unhas e ossos/ e outras partes singulares”. Faz sua entrega: à terra o que lhe pertence. Algo, no entanto, permanece. Algo sobra. “Não posso dar os versos,/ não posso meus arrepios”. A poesia (a palavra) é um resto. Precisa do corpo para nascer, mas deles não depende para sobreviver. A poesia sobrevive ao corpo. Não é espírito, não é iluminação, não é revelação, embora se pareça um pouco com tudo isso. É palavra — isso que nos alimenta.

Obrigado, Silvia M., por me levar a entender, enfim, que toda a poesia de um poeta cabe em um único poema. Toda a poesia de Vinicius de Moraes cabe na “Carta aos puros”. Toda a poesia de João Cabral cabe em “Uma faca só lâmina”. Toda a poesia de Libério, assim também, cabe em “Doação”. Parece que fui mais feliz em minha escolha do que poderia imaginar. Prestem atenção no título: “Doação”. Lugar em que o poeta se entrega, não a si, falso mineiro (ou talvez mineiro dos mais verdadeiros), mas ao poeta que carrega. Obrigado, Silvia M., por me mostrar que a poesia, toda a poesia, se concentra, em potência, em cada poema.

Os poemas reunidos na antologia de Libério Neves foram pescados em 11 livros, três deles inéditos. Oito livros publicados, a começar por “Pedra solidão”, e nunca li nenhum! É verdade: não se pode ler tudo. É verdade ainda (e aqui falo de mim que faço isso que os críticos chamam de crítica): lê-se muita coisa desnecessária. Quem primeiro me falou de Libério foi um certo Daniel, cujo sobrenome esqueci. Estivemos juntos em Poços de Caldas, durante uma feira de livros. A amizade a Humberto Werneck nos aproximou. Obrigado também a você, Daniel, por me defrontar com minha própria ignorância. Que, não se iludam, permanece.

A poesia não é espírito, não é iluminação, não é revelação. É palavra — isso que nos alimenta.

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