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Wilson Martins

Conversações angolanas

 
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Tudo se passa em Angola, depois da independência. A narrativa se desenvolve pela técnica socrática do diálogo maiêutico entre dois personagens, o jornalista brasileiro que ali se acha a convite do MPLA (Movimento Popular da Libertação de Angola) e a amiga angolana, professora e radialista, provável militante dos grupos revolucionários (Sérgio Guimarães. Zé, Mizé, Camarada André noticia de Angola. Rio: Record, 2008). O autor compromete a categoria literária, digamos, do livro pelo recurso intempestivo ao ingrediente rocambolesco do manuscrito misterioso que lhe é entregue na calada da noite: “Luanda? A luz do poste, a frente da minha casa, só funciona quando quer. [...] E ali, pela meia-noite, aproveitando a desculpa do toque de recolher, simplesmente se apaga. [...] Foi pouco antes das nove da noite, fim dos anos 1970. Zé Roberto entrou feito manchete, alarmando a campainha. Pacote na mão, deu-se apenas tempo de passar-me, à queima-roupa: - ‘Faça com isto o que quiser’”.

E desaparece, “num ronco de motor nervoso à busca do aeroporto”, mas permaneceu, felizmente, como interlocutor do romance, ao lado de Maria José Menezes, “personagem principal da história”. Vinte anos depois, como nos romances de capa e espada, o autor (Sérgio Guimarães) volta a Luanda e resolve procurá-la: “Lembrava-me apenas de um comentário vago feito um dia pelo Zé, da boa vista do andar alto, numa esquina da Cidade Baixa”. Ninguém se lembrava dela, nem mesmo a conhecera: “A única Mizé de que sei, senhora meio clara, cabelos brancos, mora ali no oitavo andar. Seu neto é amigo do meu miúdo [...]”. As lembranças tinham desaparecido, mas restava o mirífico manuscrito, milagrosamente recuperado: “Na falta do Zé, capitulo-fim, pudemos chegar mesmo assim, Mizé e eu, às últimas de então notícias de Angola”.

Que incluem também a história de um amor frustrado. Convivendo durante dois anos, descobrindo aos poucos as afinidades que os aproximavam, mas, de parte dela, a resistência moral que perdurou, enquanto se multiplicavam os avanços, cada vez mais indiscretos do protagonista, no quadro clássico do conflito entre o dever e a paixão. É uma linha narrativa em filigrana, cuja discrição mostra que o romancista evitou a “solução” da subliteratura que o leitor comum certamente esperava. Entre os papéis do manuscrito havia uma carta pungente de Mizé: “Zé, eu hoje vou escrever-te apenas umas linhas, mas à partir quero dizer-lhe que estou um tanto quanto desmiolada e aflita, com toda esta situação. Bem, mas eu não quero falar da situação que nos envolve política e economicamente e da qual sempre fugi de conversar contigo. Eu hoje não estou preocupada com isso. Estou muito mais preocupada com uma situação que eu nunca quis confessar. Realmente, eu sempre quis negar algo que é impossível, e por isso mesmo eu hoje sinto medo de voltar a Luanda e já não o encontrar. Mas será que eu, a sua frente, terei coragem de confessar o mesmo que posso exprimir por escrito?”.

É a história da princesa de Cléves (no romance homônimo), se quisermos situá-la em paralelo literário e ético da mais alta categoria. A arte de Sérgio Guimarães consiste em mostrar-lhe a grandeza humana sem cair no sentimentalismo. As notícias de Angola incluem também a respectiva realidade, inclusive e sobretudo com as misérias dos tempos revolucionários: apesar de tudo, “a coisa melhorou a partir de 1989, quando começou a haver o comércio aberto, a tal chamada economia de mercado”, realidade econômica indiferente às teorias e aos programas [...] aí muitas pessoas abriram discotecas, lanchonetes, restaurantes, supermercados e minimercados. Isso veio mesmo já em 1991, quando as pessoas começaram a expandir esses negócios [...]. No tempo do partido único, nem toda gente podia investir, aquilo era só para os afilhados”. Há diferenças menos óbvias: “Uma das instituições da cultura de Angola no passado [...] é o Ngola Ritmos, conjunto musical: “Como em qualquer país colonizado, os usos e costumes da terra tendem a ser dissolvidos e o colonizador tenta impor de toda forma os seus hábitos de ordem cultural, econômica, etc. O Ngola Ritmos foi o primeiro conjunto musical que começou a cantar em público temas única e simplesmente relacionados com Angola”.

É comum que o colonizador-opressor seja substituído pelo libertador-opressor, como no caso dos cubanos e russos, estes últimos levando para o seu país “tudo quanto era peixe bom, e aqui deixaram o carapau, o peixe-espada e a sardinha”. Em consequência, não havia mais peixe nos mercados de Luanda... Quanto à educação, Mizé pensava que estava “pior do que naquele tempo”, os professores habilitados tinham ido embora, ficando lá “meia duzia de burros como eu que continuamos a trabalhar”. Mesmo assim, Mizé não perdeu a fé no seu pais.

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