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Wilson Martins

Deontologia literária

  • 13/03/2009 21:04

Romances que tomam por tema enfermidades incuráveis ou terminais, nomeadamente se escritos na primeira pessoa narrativa, ou seja, quando o autor é parte interessada, implicam em constrangedoras questões deontológicas: de fato, há uma ética da literatura, assim como há uma ética da vida. Lidos como ficção, trivializam matéria de grande gravidade, sigilosas por natureza; lidos como "documento humano", transformam-se em "literatura"; lidos como negócio editorial, o que é inevitável, não escapam à suspeita de comercialismo vulgar. Em outras palavras, os autores estão violando a atitude estoica que impõe silêncio, como se lê em versos célebres de Vigny: é igual covardia "gemer, chorar e rezar"; o dever moral manda-nos cumprir a longa e pesada tarefa e depois sofrer e morrer em silêncio.

Contudo, o leitor indiferente, curioso e algo mórbido (é preciso dizê-lo) não se preocupa com tantas e inquietantes razões: no mundo das telenovelas, deseja, ao contrário, que tudo seja exposto de maneira indiscreta e sentimental, solicitando cumplicidades viciosas. Encarando tudo como obra de arte, exige-se de tais romances que sejam boa "literatura", maneira agradável de passar o tempo nas horas vagas, no estado de alma que já se referia o poeta antigo: "é agradável, enquanto no mar revolto os ventos levantam as águas, observar da terra os grandes esforços de outrem".

Assim, podemos ler sem remorsos, sem inquietação e até com prazer o romance de Heloísa Seixas, de alta qualidade narrativa, finura de observação e a crueldade artística de observação que o caso requer (O Lugar Escuro: uma História de Senilidade e Loucura. Rio: Objetiva, 2007), tema que tem sido retomado com grande sucesso de público e crítica em livros mais recentes. É gênero de realismo implacável: "Foi no dia em que minha filha saiu de casa que minha mãe enlouqueceu. [...] Minha mãe enlouqueceu num sábado de manhã. [...] Mamãe passara uma semana viajando [...] estávamos na sala, conversando, quando mamãe apareceu. Toda arrumada, a roupa impecável – sempre fora vaidosa – , a calça beije, a blusa estampada, o colar de marfim [...]".

A velha senhora acordara imaginando encontrar-se ainda no hotel de Caxambu: " ‘Aonde você vai, mamãe?’. Ela me olhou, ainda sorrindo, mas trazendo na testa os vincos que denotavam um começo de impaciência. ‘Vou descer para tomar café, claro’ ". Era a tragédia que se desencadeava: "E então entendi tudo. Quando estamos hospedados num hotel, acordamos, mudamos de roupa e descemos para tomar café. Naquele instante, com uma lucidez imensa, tive a dimensão do que estava acontecendo. A atitude de minha mãe era a prova inequívoca de que algo se rompera em sua mente".

O romance é a história aflitiva de um processo irreversível que vinha de longe, balizado por episódios e cenas constrangedoras, diante do qual os demais procuram aceitar e compreender, sem consegui-lo: "Um dia, mamãe bebeu água sanitária, pensando que fosse leite. [...] Em mais de uma ocasião, minha mãe tomou o mesmo remédio uma segunda vez, esquecida de que havia acabado de fazê-lo". A loucura avança de maneira não só repetitiva, mas progressiva: "Por um tempo as coisas caminham assim, de lapso em lapso, as diminutas tempestades elétricas acontecendo em segredo, calcinando pontes, os trovões fazendo estremecer cidades em miniatura – dentro da cabeça de minha mãe".

É texto em que a autora alcança o ponto mais alto de perfeição narrativa, integrando o leitor como personagem invisível na história: "A convivência com a loucura é algo que contamina, entra pelos poros, vai tomando conta de você. Em vários momentos, em maior ou menos grau, isso acontece comigo: eu achei que estava enlouquecendo também". Há momentos em que o desespero leva a desejar a morte do ente querido, leitura aflitiva que nos identifica com a narradora, alimentando os clássicos sentimentos de piedade e terror.

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