China, 2006. Direção de Jia Zhang-Ke. California Filmes. Classificação indicativa: 12 anos. Preço médio: R$ 27,90.

"As ondas levam." A frase é parte de um refrão que toca no celular de um operário chinês na velha cidade de Fengjie, prestes a ser inundada pelas águas de uma barragem hidroelétrica. A letra ganha significados à medida que o filme retrata pessoas à deriva, deslocadas e sem referências. Assim são os moradores da cidade que, por trás da fachada de prosperidade construída pelo governo chinês, perdem suas casas e ganham um salário de fome demolindo as edificações que darão lugar às águas. Assim são os protagonistas, estrangeiros àquele lugar, que chegam para reatar frágeis laços familiares.

O mineiro Han Sanming busca sua ex-mulher e sua filha, após uma separação de 16 anos; já a enfermeira Shen Hong quer encontrar o marido, com quem não se comunica há dois anos. Os escombros à beira do rio Yangtze estão sempre presentes em um trabalho de fotografia com forte rigor estético. Em meio ao realismo da história, o diretor insere visões estranhas como a de um ovni pelo céu e os escombros de um edifício levantando voo. O filme recebeu o Leão de Ouro de melhor filme no Festival de Veneza em 2006. (AV)

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CD 1

Preliminaires

Iggy Pop. Virgin. Importado. Preço médio: US$ 15.

Prepare-se para ouvir um Iggy Pop bem diferente em Preliminaires, recém-lançado disco-solo do maior ícone punk ainda vivo. No auge de seus 62 anos, Iggy Pop diz ter concebido seu novo trabalho "completamente à parte da indústria musical moderna", partindo de referências nada óbvias: a era jazz de Nova Orleans e o romance A Possibilidade de uma Ilha, do escritor francês Michel Houllebecq.

O resultado de tal combinação é um álbum franco-americano em que predominam ritmos variados como jazz, blues, country e electropop. Para tal, Iggy se hospedou em um hotel no litoral francês com o romance de Houllebecq à tiracolo, estratégia que originou canções como "Spanish Coast" e "I Want to Go to the Beach".

A influência de Houllebecq também é evidente em "Nice to Be Dead" (em que Iggy versa sobre a futilidade da existência humana) e na acústica "A Machine for Loving", na qual ele lê um trecho do romance. Mas o ápice da surpresa fica mesmo por conta da doçura com que o punk sessentão interpreta "How Insensitive", de Antônio Carlos Jobim. (JG)

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CD 2

My One and Only Thrill

Melody Gardot. Verve/Universal. Preço médio: R$ 28,90.

Quem gosta de Norah Jones e, sobretudo, de Madeleine Peyroux não pode deixar de ouvir My One and Only Thrill, segundo álbum da cantora norte-americana Melody Gardot, recém-lançado no Brasil. Natural da Filadélfia, a artista, de apenas 24 anos, parece bem mais velha e experiente quando solta voz, que transita entre o blues e o jazz com notável desenvoltura e, sobretudo, personalidade: seu timbre é bastante particular. Assim como seu look, um tanto retrô (como o das britânicas Amy Winhouse e Adele), que conjuga longas e onduladas madeixas loiras e pares de óculos escuros. Algo entre a femme fataleVeronica Lake e a diva franco-egípcia Dalida.

Fã de monstros sagrados do jazz, como Miles Davis e Duke Ellington, Melody Gardot é também admiradora confessa de Caetano Veloso, o que talvez explique o arranjo abrasileirado e bossa nova dado ao clássico "Over the Rainbow", tema imortalizado por Judy Garland no filme O Mágico de Oz. O standard divide espaço com belas composições próprias (PC)

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CD 3

São mateus não é um lugar assim tão longe

Rodrigo Campos. Ambulante Discos. Preço médio: R$20

A expressão narrativa musical funciona para definir o primeiro álbum-solo de Rodrigo Campos, violonista, percussionista e compositor dos mais talentosos da nova MPB. O paulista – que já foi parceiro de Vanessa da Mata, Céu e Arnaldo Antunes – agora convida um time estrelado por Antonio Pinto, Benjamin Taubkin e Curumin para gravar são mateus não é um lugar assim tão longe.

Personagens, histórias e causos do bairro paulistano de São Mateus, onde Campos cresceu, são infiltrados em sambas modernos e bem arranjados – cordas e programações eletrônicas dividem espaço sem conflito.

Em "Os Olhos Dela", há a história de Mariana, a moça que "foi de trem à Perus, trombou com o Jadir e o Zé, se achegou no balcão e pediu café". "Lúcia" narra a jornada diária de uma professora do signo de escorpião que cria seu filho sozinha. "Lúcia levanta bem cedo/ prepara o café da manhã/ vê o moleque, se dormiu em casa/ se não, liga pra procurar na Gabi".

Sem pretensão alguma, Rodrigo Campos imprime uma visão sensível do lugar que lhe é mais caro. O resultado merece ser ouvido e quase pode ser visto. (CC)

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Livro 1

O Dom

Jorge Reis-Sá. Record. 172 págs. R$ 32. Romance.

O escritor português Jorge Reis-Sá, de 32 anos, é apontado pela crítica como um dos mais ousados e inventivos nomes da ficção contemporânea. O enredo do romance O Dom, recém-publicado no Brasil, comprova esse endosso.

Inesperadamente, moradores de uma cidade são transformados em contas – bolinhas usadas na confecção de alguns colares. Poucas pessoas, que ficaram presas dentro de um shopping center, escapam da maldição. Mas elas não podem sair do confinamento. Apenas um único homem consegue circular livremente sem nada sofrer: é o protagonista desta longa narrativa (que é tido por uns como a representação do Bem e, por outros, como o Mal).

A trama, bem articulada, é apenas uma camada desse livro que traz uma linguagem sofisticada. Cada frase é uma obra de arte. Reis-Sá imprime poesia, musicalidade e "inventa-língua" na prosa.

O Dom confirma o talento do autor, que já havia realizado um primoroso romance chamado Todos os Dias, publicado no Brasil em 2007, e apontado pela revista portuguesa Os Meus Livros como um dos melhores de 2006. (MRS)

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Livro 2

Quarto de Menina

Lívia Garcia-Roza. Editora Record, 206 págs., R$ 32. Romance.

Obra de estreia da escritora e psicanalista carioca Lívia García-Roza, Quarto de Menina ganha reedição 14 anos depois, com bela capa em relevo e revisada de acordo com as novas regras ortográficas. Na ocasião em que foi lançado, esse romance narrado em primeira pessoa por uma garota de 8 anos, chamada Luciana, às voltas com a separação dos pais, a reconfiguração da família e a adaptação a uma nova rotina de trânsito entre duas casas, recebeu o Selo de Altamente Recomendável, concedido pela Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil (FNLIJ). Classificá-lo de infanto-juvenil, contudo, é limitá-lo indevidamente, pois a autora constrói um universo sentimental muito rico e revelador. Ainda que a pequena Luciana não compreenda inteiramente tudo o que se passa a seu redor, suas reações se nutrem da complexidade das relações entre pais e filhos, e entre crianças e seu mundo imaginário. Um livro pra quem teve bonecas, teve ídolos, teve família, enfim, teve infância. (LR)

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