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Cinema

Em busca de vestígios

Longa-metragem A Mulher de Longe, do cineasta carioca Luiz Carlos Lacerda, resgata um filme inconcluído, escrito e dirigido por Lúcio Cardoso em 1949

  • Paulo Camargo
Lúcio Cardoso e a atriz Maria Fernanda, no set de A Mulher de Longe |
Lúcio Cardoso e a atriz Maria Fernanda, no set de A Mulher de Longe
 
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Em busca de vestígios

Em 1949, o pai do cineasta carioca Luiz Carlos Lacerda, o produtor João Tinoco de Freitas, convidou o escritor Lúcio Cardoso para escrever e dirigir o longa-metragem A Mulher de Longe. O autor, que gostava muito de cinema, aceitou o desafio. Iniciou as filmagens com um elenco formado por Iracema Vitória, Maria Fernanda, Fernando Torres e Rosita Gay, ao lado do diretor de fotografia Rui Santos, que estreou como assistente de fotografia do mítico filme Limite (1930), de Mário Peixoto, e também fez longa carreira como documentarista.

A Mulher de Longe, no entanto, jamais foi concluído. Acabou o dinheiro e as filmagens nunca foram retomadas. E foi a partir do material rodado, recuperado junto à Cinemateca Brasileira, com sede em São Paulo, que Lacerda, também conhecido no meio cinematográfico como Bigode, realizou um documentário que leva o mesmo título do que seria o longa de estreia de Cardoso, mas está longe de ser uma obra de cunho meramente histórico, convencional. O cineasta faz uma apropriação poética, subjetiva e emocional do que restou do material original, para se reconectar com Cardoso, com quem teve uma relação muito próxima e intensa.

Já em 1968, ano da morte do escritor, Lacerda tinha a ideia de recuperar as imagens de A Mulher de Longe registradas por Cardoso. Foi à Cinemateca Brasileira, mas, à época, a busca foi estéril: ele não conseguiu encontrar vestígios do material bruto.

Com a proximidade das homenagens ao centenário de Cardoso, Lacerda retomou sua pesquisa. Acabou por descobrir que o filme estava mesmo na Cinemateca Brasileira, que se ocupou da recuperação do que foi achado – apenas cenas editadas –, cheio de fungos.

Como não dispunha do roteiro original, e sem saber do que tratavam os diálogos presentes nessas cenas, Lacerda decidiu recorrer a trechos dos diários das filmagens feitos por Lúcio Cardoso, hoje depositados na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. “Nos textos, ele diz que a literatura precisa apenas de um caderno e um lápis. Já no cinema, é preciso que a nuvem saia, que chova...”.

Lacerda contou em entrevista à Gazeta do Povo, por telefone, que em A Mulher de Longe [o documentário], ele misturou as imagens originais a textos extraídos do diário. Para narrá-los, escolheu o ator Ângelo Antônio (de 2 Filhos de Francisco), que o diretor disse admirar muito, e que empresta às palavras de Cardoso muita emoção. Também foram feitas cenas complementares na Praia de Itaipu, em Niterói.

Já exibido na Mostra de Cinema de Ouro Preto (Cineop) e no recém-encerrado Festival do Rio, o filme, que também guarda referências ao cinema poético do italiano Pier Paolo Pasolini e à poesia grega, agora vai percorrer um circuito de mostras, exibições em universidades, na Academia Brasileira de Letras e eventos relacionados à literatura e ao centenário de Cardoso.

Relação intensa

A parceria artística entre Lacerda e Cardoso se iniciou nos anos 1960: rendeu o curta-metragem O Enfeitiçado (1968), cujo foco é a relação do escritor com a pintura, que passou a utilizar como meio de expressão depois de sofrer um grave derrame em 1962, e Mãos Vazias (1971), longa-metragem de estreia de Lacerda. O diretor conta que, em breve, deve se dedicar a outro projeto envolvendo a obra de Cardoso: Introdução à Música do Sangue, cujo argumento foi deixado para ele pelo autor mineiro.

O vínculo de Lacerda com Cardoso foi bem além do profissional. “Eu era um jovem poeta de 15 anos, em 1959, e já o admirava. Havia lido seus primeiros livros Maleita [1934] e Salgueiro [1935], e já o admirava muito. Quando ouviu os meus poemas, gostou, e passassamos a conviver.” O autor mineiro e o pai do futuro cineasta já haviam, a esta altura, trabalhado juntos, tanto em A Mulher de Longe, em 1949, quanto, um anos antes, em Almas Adversas, cujo argumento é de Cardoso.

Lacerda contou que ele e a atriz Leila Diniz [1945-1972], também adolescente na época, se encantaram por Cardoso e seu universo. Passaram a orbitá-lo, frequentando o apartamento do escritor, onde o ouviram ler, em voz alta, o texto original do romance Crônica da Casa Assassinada, considerado sua obra-prima. “Ele era um homem muito bonito, com os cabelos grisalhos, uma voz máscula, profunda. Fui apaixonado por ele, mas nunca houve nada.”

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