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Literatura

Futebol ao sol do Atacama

Futebol como redenção é o tema de O Fantasista, do chileno Hernán Rivera Letelier

  • Fernando Jasper
Hernán Rivera Letelier: escritor viveu 45 anos no deserto, dos quais 30 como salitreiro |
Hernán Rivera Letelier: escritor viveu 45 anos no deserto, dos quais 30 como salitreiro
 
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Uma mina de salitre do deserto do Atacama, no Chile, está prestes a ser fechada, o que acabará com o trabalho de toda a população que vive em seu acampamento. Mas a preocupação imediata dos miseráveis moradores de Coya Sur não é a perspectiva de abandonar o lugar onde passaram boa parte de suas vidas. O importante é que, após um jejum de já nem se lembram quantos anos, a combalida seleção local finalmente derrota o acampamento vizinho, Maria Helena, em sua derradeira partida de futebol.

A última semana de Coya Sur começa em uma segunda-feira que seria como tantas outras, com um sol de sacrifício e sem um mísero ventinho, não fosse pela chegada do forasteiro Expedito Gonzáles, misterioso artista que ganha a vida exibindo sua impressionante habilidade com a bola. Verdadeiro “fantasista do balão”, ele chuta para escanteio o tédio do Atacama e logo se transforma em esperança de redenção para um time povoado de pernas-de-pau. A história dos sete dias mais inquietantes já vividos pelo acampamento, que culminará na aguardada peleja de domingo, é o tema de O Fantasista, novela do chileno Hernán Rivera Letelier.

Um dos autores mais lidos de seu país, Rivera conhece como poucos o cenário que descreve em seu oitavo livro, o primeiro publicado no Brasil. Nascido na cidade de Talca em 1950, o escritor viveu 45 anos no deserto, dos quais 30 como salitreiro, e se inspirou em antigos colegas para montar um elenco digno de fábula, com anti-heróis que têm no futebol um alívio para as desgraças de um fim de mundo calorento e seco como nenhum outro lugar do planeta.

Narrado em primeira pessoa por um dos moradores do acampamento, O Fantasista é a bem-humorada crônica de um povoado que se mantém alegre e caloroso mesmo às vésperas do desaparecimento. Mas essa alienação que beira o extremo é apenas aparente. Por vezes nas entrelinhas, em outras mais explicitamente, fica claro que, para os errantes coyanos, falar de futebol – e das aventuras extraconjugais dos vizinhos, o segundo assunto mais comentado em Coya Sur – é pretexto para beber e esquecer o resto.

“A história do homem pampiano tinha sido e sempre seria um êxodo permanente: viver pulando de uma salitreira para outra cada vez que a fumaça se apagasse, até não sobrar nenhuma das centenas que um dia povoaram esses desertos miseráveis. Agora estava mais do que claro que novamente só nos restava juntar os trecos, preparar a matula e chorar outra partida. É muito triste partir do lugar que foi seu durante anos, mesmo sendo um dos territórios mais inóspitos da face da Terra”, diz o narrador, quando todos se dão conta de que o fechamento da mina é irreversível.

Enquanto lamentam o abandono forçado de seus lares, os salitreiros também fazem uma ou outra alusão à ditadura de Pinochet. A história se passa em algum momento do governo militar, que, nas palavras de um dos jogadores, é o culpado pela abstinência de vitórias de Coya Sur. Em um de seus patéticos episódios de autoritarismo, os militares chegam a exigir a detenção de alguns “transgressores” como condição para liberar o jogo.

Se quisesse, Rivera teria, em episódios como esse, um campo fértil para se enrolar em digressões sobre o ópio do povo, a política de pão e circo ou outros discursos igualmente desgastados. Mas prefere a referência sutil, inteligente, em vez de perder tempo com sociologia de almanaque.

Isso porque, na essência, O Fantasista é um livro sobre o futebol. E que faz uma inspirada e hilariante homenagem àqueles que, periodicamente, são capazes de deixar a razão em casa dispostos a enrouquecer no estádio – e loucos para acreditar que o gol da vitória aos 49 do segundo tempo tornará irrelevante o vermelho da conta bancária, o mau humor do chefe e a brabeza da patroa. A vida retoma seu curso após o apito final, mas, até lá, o que vale é se entregar à inebriante sensação de que a existência se resume ao que ocorre dentro das quatro linhas.

É nesse contexto, de paixão e fantasia, que surge Gonzáles, “o enviado de Deus”, e figuras caricatas como o jovem atacante que não tem coragem de bater pênalti, o mulherengo que só joga bem após uma noite de esbórnia e o pastor evangélico que, aos berros, prega o Apocalipse e alardeia que os fãs desse esporte criado por Satanás não terão misericórdia no dia do Juízo Final.

Mas o verdadeiro craque desse time de personagens é Cachimoco Farfán, sujeito endoidecido que, acredita-se, abandonou a faculdade de Medicina após um surto causado pelo excesso de estudo. Munido de uma inseparável garrafa de leite que lhe serve de microfone, Farfán é o narrador extra-oficial do acampamento, e incorpora à atropelada verborragia dos locutores de rádio um repertório rico em patologia e palavrões.

A alucinada narração de Farfán intercala os capítulos do livro até seu desfecho. Dirigida a imaginários “queridos radiouvintes, amáveis pacientes”, é repleta de alusões ao sol hemofílico do deserto, que levará à encefalopatia os purulentos jogadores de Maria Helena – fosfolípidos anfipáticos, filhos da grande pústula maligna! – enquanto os heróis de Coya Sur suarão feito moribundos na busca pelo gangrenoso gol do fim do mundo.

O fantasista passa longe de ser uma obra-prima literária e pode não cair nas graças de quem não gosta do esporte, mas tem qualidade suficiente para ser escalado em uma imaginária seleção de livros que incluiria os famosos Futebol ao Sol e à Sombra, do uruguaio Eduardo Galeano, e Os Cabeças-de-bagre Também Merecem o Paraíso, de José Roberto Torero, mas também os menos conhecidos Contos de Futebol, do gaúcho Aldyr García Schlee, e a coletânea de contos Meia Encarnada, dura de sangue, organizada pelo jornalista Ruy Carlos Ostermann. Todos têm o mérito de abordar o futebol com doses generosas de humor e lirismo – algo cada vez mais raro em meio à proliferação de comentaristas de prancheta que, armados de estatísticas e análises táticas, têm se esforçado por minar qualquer paixão que ainda reste pelo esporte.

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Serviço

O Fantasista, de Hernán Rivera Letelier. Rocco, 162 págs., R$ 27.

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