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Música

Há 50 anos era gravado Getz/Gilberto o LP que colocou o Brasil no mapa

Esta edição do Caderno G Ideias resgata histórias de bastidores do álbum que lançou a bossa nova no mercado mundial e é até hoje um dos discos de jazz mais vendidos de todos os tempos

  • Roberto Muggiati, especial para a Gazeta do Povo
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Há 50 anos era gravado Getz/Gilberto o LP que colocou o Brasil no mapa

Uma segunda-feira como outra qualquer em Nova York, 18 de março de 1963. Nos estúdios da gravadora A&R, no número 112 Oeste da Rua 48, seis músicos se encontraram para uma empreitada com pouquíssimas chances de êxito: quatro brasileiros, um americano... e uma mulher. Desdobramento do concerto do Carnegie Hall, quatro meses antes, o projeto era um álbum reunindo Antônio Carlos Jobim (piano), Tião Neto (baixo), Milton Banana (bateria), João Gilberto (violão, voz) e o saxofonista Stan Getz, que havia se tornado o principal intérprete e propagandista da bossa nova nos Estados Unidos. Astrud Gilberto estava por ali — discreta num canto, como quem não queria nada — e foi convidada “casualmente” para cantar no disco pelo marido. No livro Chega de Saudade, Ruy Castro afirma que não houve casualidade nenhuma nessa história: ela o marido vinham preparando meticulosamente aquela estreia havia muito tempo. Donald L. Maggin, na biografia Stan Getz/A Life in Jazz (1996), inédita no Brasil, oferece outra versão: “Um dia, enquanto ensaiavam, Stan pediu à mulher de Gilberto, Astrud – a única dos brasileiros que falava inglês – para cantar as letras das canções em inglês. Stan foi imediatamente tocado pela sensualidade vulnerável da sua voz e pediu que cantasse no álbum. Astrud havia se apresentado com o marido em festinhas, mas nunca cantara profissionalmente; sua voz era um instrumento pequeno, comparado àquela de Maria Toledo, e tinha dificuldade de manter a afinação, mas seduzia o ouvinte com uma combinação intrigante de calor melancólico e contenção cool. Na lembrança de Stan, ele teve de vencer uma considerável resistência para que Astrud fosse incluída na gravação: ‘Gilberto e Jobim não queriam Astrud no disco. Astrud não era uma cantora profissional, era uma dona de casa. Mas quando eu desejei traduções do que estava acontecendo, e ela cantou ‘Ipanema’ e ‘Corcovado’, achei as letras em inglês muito legais... e Astrud pareceu boa o suficiente para colocá-las no vinil.’”

Um minuto e quinze segundos de Astrud em “The Girl from Ipanema” bastariam para transformá-la na nova sensação vocal e num símbolo da nascente liberdade feminina tão bem expresso na letra da “Garota”.

Havia um assustador potencial de encrenca na reunião do trio estelar Tom-João-Stan, mas a música superou as desavenças (leia mais ao lado) e o trabalho chegou a um bom termo no dia seguinte, terça-feira 19. Existe uma homogeneidade impecável nas oito faixas que compõem o LP: no lado um, “The Girl from Ipanema”, “Doralice”, “P’ra Machucar Meu Coração” e “Desafinado”; no lado dois, “Corcovado”, “Só Danço Samba”, “O Grande Amor” e “Vivo Sonhando” — cada lado abrindo com uma faixa de Astrud em inglês, com letras de Norman Gimbel (“The Girl”) e de Gene Lees (“Corcovado”). Apesar do belo resultado, o produtor Creed Taylor retardou o lançamento do álbum. A enxurrada de bossa nova começava a saturar o mercado americano e Creed puxou o freio de mão. Mas a qualidade singular do álbum não lhe saía da cabeça e ele o lançou finalmente em março de 1964 – um ano depois da gravação. Sabia que era um álbum de tremendo prestígio, mas fez mais: colocou os sentimentos de lado e cortou o vocal de João Gilberto em “The Girl from Ipanema”, reduzindo o tempo da faixa de 5:15 para 3:55. “Corcovado” – com apenas 30 segundos de Astrud em inglês – já fora gravada em 4:16. O single com as duas foi eleito o Disco do Ano no Grammy de 1965. “The Girl from Ipanema” é considerada a segunda canção mais gravada de todos os tempos, perdendo apenas para “Yesterday”, dos Beatles. Como diz Ruy Castro, “ninguém sabe por que estas coisas aconteceram, mas o disco só com Astrud puxou o LP para o sucesso e rendeu-lhe uma coleção de Grammys e muito dinheiro no banco para todos os envolvidos – ou quase todos.”

Lembro da emoção que me tomou quando vi o LP na vitrine de uma loja de discos na Charing Cross Road, em Londres. Eu trabalhava no Serviço Brasileiro da BBC de Londres e produzia, na ocasião, um programa semanal chamado Jazz-Samba. O impecável “produto” era completado pela colorida capa, a reprodução de uma tela expressionista-abstrata da pintora porto-riquenha Olga Albizu (1924-2005) que traduzia plasticamente a música dentro do envelope.

Uma palavra sobre o repertório: engloba o “núcleo duro” da bossa nova, com seis composições de Jobim. As duas canções invasoras são seguramente imposições do saudosista João Gilberto: “Doralice”, de Dorival Caymmi; e “P’ra Machucar Meu Coração”, de Ary Barroso.

Na época da gravação, Stan Getz, Tom Jobim e João Gilberto estavam no seu auge criativo, com 36, 36 e 31 anos respectivamente (Tom era apenas oito dias mais velho que Stan.). João é a alma da pulsação rítmica que fez do álbum uma verdadeira obra-prima. Jobim, com seus solos econômicos e acordes em bloco, assenta a base harmônica sobre a qual repousa todo este belo edifício. E Getz, que poderia ser um corpo estranho – inserido numa cultura diferente da sua – nada como um peixe na água e envolve com seus solos voluptuosos os vocais de João e Astrud. Em “O Grande Amor” seu lirismo é tanto que parece até estar recitando a letra em português. Mais: com seu fraseado e timbre cool, Getz trouxe à bossa nova a voz instrumental perfeita, não encontrada na época entre os saxofonistas brasileiros. Esse trio solista – é bom lembrar – foi apoiado admiravelmente por Tião Neto e Milton Banana, que estabeleceram o cânone da bossa nova para seus instrumentos, o contrabaixo e a bateria.

Cinquenta anos depois, só ficaram para contar a história os Gilberto, João, que aos 81 anos fala cada vez menos – ou cala cada vez mais; e Astrud, que completará 73 anos no próximo dia 29 e, nos últimos tempos, além de pintar, se dedica — como BB e DD: Brigitte Bardot e Doris Day — à proteção dos animais. Não importa: Getz/Gilberto fala sozinho e permanece vivo como um dos grandes momentos da música no século 20.

Carnegie Hall, o fiasco que deu certo

Há quem afirme que tudo começou no Carnegie Hall, em Nova York, na noite de 21 de novembro de 1962. A Audio Fidelity Records e a revista Show Magazine apresentavam uma programação intitulada Bossa Nova (New Brazilian Jazz). Vale transcrever o despacho da correspondente do Jornal do Brasil (imagem abaixo), Ana Paula Amorim, intitulado Fãs americanos aplaudem com entusiasmo show da bossa nova em Nova Iorque: “O ritmo brasileiro da bossa nova se apresentou no Carnegie Hall, a mais tradicional sala de concertos de Nova Iorque, para um público de cerca de três mil pessoas, que superlotou a casa com entusiásticos aplausos. Durante o espetáculo, milhares de xícaras de café foram servidas, numa oportunidade de apresentar o cafezinho preparado à moda brasileira. Os ingressos já se encontravam esgotados uma semana antes do concerto. Os brasileiros João Gilberto, Bola Sete, Agostinho dos Santos, Carmen Costa, José Paulo, Luís Bonfá, Carlos Lira, Sérgio Mendes, Antônio Carlos Jobim, Miltinho Banana, Chico Feitosa e Roberto Menescal comandaram o espetáculo. Além dos artistas brasileiros, participaram do show o pianista e compositor argentino Lalo Schifrin com o sexteto de que se valeu para difundir a bossa nova, Stan Getz, amigo de João Gilberto e um de seus mais entusiastas admiradores e grande propagador da bossa nova, e o quarteto de Oscar Castro Neves. O Itamarati recebeu despachos dos EUA informando que compareceram ao concerto 300 repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e críticos especializados de toda a América do Norte e da imprensa mundial, o que deveria garantir grande repercussão ao show de bossa nova.”

Donald L. Maggin, em Stan Getz/A Life in Jazz, tem uma versão bem menos ufanista: “Os patrocinadores obtiveram a ajuda do Ministério do Exterior brasileiro e da Varig, sua linha aérea, e contrataram mais de vinte artistas para se apresentarem no evento em Nova York. Jobim e Gilberto estavam relutantes por causa da organização caótica e dos baixos cachês; só cederam no último momento à pressão do governo e da mídia brasileiros e voaram para Nova York, onde seus piores temores se concretizaram. O concerto foi um desastre. Stan nunca foi escalado para tocar com os músicos brasileiros; muitos grupos medíocres foram recrutados; o caos reinou com frequência no palco e o som era terrível porque os microfones – colocados para maximizar a gravação para a Audio Fidelity – não conduziam bem a música para a sala. A audiência teve dificuldade em ouvi-los, mas os desempenhos de Jobim e Gilberto foram os pontos altos da noite; o disco lançado pela Audio Fidelity mais de um ano depois demonstrou que eles tocaram com um calor, um frescor e uma graça especiais. (...) O governo brasileiro ficou tão embaraçado pelo fiasco do Carnegie Hall que duas semanas depois patrocinou, por conta própria, dois concertos bem organizados no clube noturno Village Gate em Nova York.”

Toda a ideia do concerto do Carnegie Hall nasceu de um pileque homérico. Ruy Castro descreve com humor em Ela É Carioca/Uma Enciclopédia de Ipanema (1999); “Ipanema é uma faixa de terra entre o mar e o bar, mas nem todos os botequins decisivos em sua saga ficavam em seu território. Um deles estava a exatamente 7.757 quilômetros e 55 ruas do Veloso: o P.J. Clarke’s, o grande bar da Terceira Avenida com a rua 55 em Manhattan. O destino da música brasileira pode ter sido decidido em seu balcão numa noite de setembro de 1962, ao embalo de um dilúvio de uísque entre o fotógrafo David Zingg e o repórter Bob Wool.”

Para promover o lançamento da revista Show, eles precisavam inventar um evento. Ainda segundo Ruy: “‘É simples,’ disse Zingg, com aquela lucidez que às vezes acomete os santos e os bebuns. ‘É só alugar o Carnegie Hall, fretar os aviões e trazer os músicos da Bossa Nova para fazer um show aqui.’” A ideia maluca vingou, com uma pequena ajuda de alguns amigos: a consulesa do Brasil em Nova York, Dora Vasconcellos; Sidney Frey, o dono da gravadora Audio Fidelity; o Itamaraty, onde Vinicius de Moraes mexeu uns pauzinhos; o Instituto Brasileiro do Café e a Varig.

Nascido de um delírio etílico, o fiasco do Carnegie Hall funcionou porque a bossa nova tinha tudo para dar certo fora das fronteiras do Brasil, a começar pelos Estados Unidos. Ela representou a sedimentação de todo um processo – politicamente interesseiro, é verdade – mas que incrementou a troca musical entre os dois países, a partir da Política da Boa Vizinhança do Presidente Roosevelt, passando pela campanha anticomunista nos países em desenvolvimento (o Departamento de Estado via o jazz como uma eficiente arma de propaganda) e culminando com as turnês das bandas de Louis Armstrong, Dizzy Gillespie e Woody Herman e o American Jazz Festival, que se apresentou no Rio, em São Paulo e Buenos Aires, em julho de 1961. A trupe itinerante incluía gigantes do jazz de todas as idades, como os saxofonistas Coleman Hawkins, Al Cohn, Zoot Sims, os trompetistas Roy Eldridge e Kenny Dorham, o flautista Herbie Mann, os pianistas Tommy Flanagan e Ronnie Ball e a cantora Chris Connor. Aconteceu que os visitantes é que ficaram impressionados – de queixo caído – ao ouvir a música dos brasileiros. O concerto do Carnegie Hall veio como uma espécie de visita de retribuição. E o resto é História...

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