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No novo livro, Laerte conta com a colaboração do filho, Rafael | Leonardo Wen / FolhaPress
No novo livro, Laerte conta com a colaboração do filho, Rafael| Foto: Leonardo Wen / FolhaPress
  • Capitão Tigre é um dos personagens principais de Muchacha

Laerte Coutinho vive uma crise que o atinge de várias formas. No trabalho, na intimidade, no contato com os outros. Não dá para apontar onde ela começou, hoje está "tudo no mesmo saco", mas a perda do filho cinco anos atrás tornou as coisas ainda mais difíceis.

"O trabalho com a criação de histórias é um sistema em que tudo se mistura", diz. O que o afeta pessoalmente com certeza vai aparecer no trabalho e vice-versa.

O cartunista acaba de publicar, pela Companhia das Letras, o livro Muchacha, falando dos bastidores da televisão nos anos 50, um universo que o interessa desde Laertevisão (Conrad). A história em quadrinhos mostra um típico programa da época, feito num formato que o aproximava do teatro. As produções eram ao vivo, não havia videoteipe.

"A tevê era ‘sem camisinha’", brinca Laerte. Os profissionais se expunham muito mais e ele diz que gosta de comparar a estrutura antiga com toda a parafernália disponível hoje. Esta noite, ele participa de um Café Literário com o escritor Marçal Aquino (Cabeça a Prêmio) dentro da 1ª Bienal do Livro Paraná.

Crossdresser

No mês passado, o desenhista assumiu publicamente o seu gosto por usar roupas e acessórios femininos, o que faz dele um crossdresser. A revista Bravo! publicou entrevista e fotos em que Laerte mostrava um corte de cabelo chanel elegante e brincos de pedras vermelhas que combinavam com o esmalte das unhas.

Para ele, a experiência de se travestir é "libertadora" e envolve "articulações supercomplicadas com a sexualidade". Não se trata, pois, de uma moda nem de um fetiche. "Eu sinto que as pessoas estão curiosas [a respeito do crossdressing], mas existe uma inibição e um constrangimento no ar", diz.

Ele conta que alguns amigos acharam a sua atitude corajosa, mas a maioria não falou nada. "Depois de ‘sair do armário’, eu vi que o mundo não caiu, nada mudou e tirei uma carga dos ombros."

Ao trabalho

Há dias em que a autocrítica e a insegurança o imobilizam. É quando tem dificuldade de desenhar ou de investir no que faz. Depois, essas sensações passam e ele consegue amenizar a "autoflagelação".

Durante a entrevista, feita por telefone ontem à tarde, Laerte comentou que estava lendo Balzac (1799-1850), surpreso de ver que o autor francês do romance Ilusões Perdidas havia traçado um plano de como seria toda a sua obra quando era apenas um jovem e ainda não havia escrito quase nada.

Para o cartunista, o processo é diferente e os projetos são realizados à medida que vão surgindo. É o caso de Muchacha. De início, foram cartuns publicados em jornal e blog. Tempo depois, percebeu que podia fazer algo a partir deles. "O livro não é uma coletânea do jornal. É aumentado e consolidado, com um apêndice feito pelo Rafael, meu filho", diz.

Rafael Coutinho, desenhista como o pai, é autor de Cachalote (Companhia das Letras) e participa de Muchacha com uma história ligada à narrativa principal.

Leituras

Admirador do genovês Giancarlo Berardi, criador da série Ken Parker, Laerte, a pedido do jornalista, dá uma vasculhada na sua estante para listar alguns autores que tem lido. E cita Na Prisão, de Kazuichi Hanawa; Gourmet, de Jiro Taniguchi ("Uma das coisas mais lindas [que li]...") e Masayuki Kusumi; e Isaac, o Pirata, de Christophe Blain.

Sobre sua presença na Bienal do Livro, Laerte admite que situações assim – participar de uma mesa-redonda num evento de literatura – não é comum. "Eu não sou um literato, não construo teses. Mal e mal consigo pensar nas minhas experiências", diz. Por isso que a chance de vê-lo hoje, falando com Marçal Aquino, é rara e um dos pontos altos do evento.

Serviço:

Literatura, Cinema, Televisão e Quadrinhos: Como Se Dá Esse Diálogo? – Café Literário com Laerte Coutinho e Marçal Aquino. 1.ª Bienal do Livro Paraná. Estação Convention Center (Av. Sete de Setembro, 2.775). Hoje, às 19h30. Ingressos: R$ 8 e R$ 4 (meia). Mais informações: www.bienaldolivroparana.com.br.

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