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“O Facebook não é o melhor instrumento para discutir política”, diz Leonardo Sakamoto

Em seu novo livro, “O Que Aprendi Sendo Xingado na Internet”, da Editora Leya, jornalista propõe espécie de manual para convivência na rede

  • Angela Corrêa Especial para a Gazeta do Povo
Abertamente de esquerda, blogueiro diz que vivemos a adolescência da  web, com toda  turbulência dessa fase. | Divulgação
Abertamente de esquerda, blogueiro diz que vivemos a adolescência da web, com toda turbulência dessa fase. Divulgação
 
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O Blog do Sakamoto, dedicado a discutir direitos humanos, faz dez anos em 2016. Foi hospedado em alguns portais e hoje está no UOL. Nessa década, o blogueiro responsável, o jornalista Leonardo Sakamoto, ocupou papel privilegiado de observador e participante das transformações que a rede vem experimentando. “Estamos vivendo a adolescência da internet. Com os smartphones, que é como a rede está sendo de fato democratizada, estamos usando ao máximo essa possibilidade, sem necessariamente pensar nas consequências ”, conta ele.

Nos últimos tempos, Sakamoto virou alvo de ataques frequentes por seus posts em que claramente se posiciona à esquerda. On e offline, viu o ódio crescer à medida que o discurso polarizado tomou o lugar do debate no espaço para comentários.

Boatos também ganharam status de manchete. O mais grave foi uma suposta entrevista que teria concedido a um jornal mineiro, no início do ano, em que esculhambava os aposentados. “Só que eu nunca dei essa entrevista”, conta. De uma série de posts em que explicava como tentar diferenciar notícias mentirosas e ter mais paciência (leia-se empatia) com o diferente nasceu também o livro “O Que Aprendi Sendo Xingado na Internet”.

Entre causos como o da falsa reportagem, o livro também tem pretensões didáticas: ensinar os internautas a fazer uma leitura crítica da mídia. “É para que as pessoas saibam separar o joio do trigo: uma reportagem, que demanda trabalho de horas de apuração, de um meme, por exemplo”.

De onde vem o ódio?

Sakamoto credita a agressividade nos campos de comentário à baixa qualidade da discussão online, que por sua vez espelha também o despreparo dos debatedores da vida real. “Quando o debate público é qualificado, os argumentos são bons quaisquer sejam os pensamento políticos. A internet também é mediada por essa sociedade”, conta.

E se a web vive sua adolescência, esse período é tumultuado e intenso como a rotina de qualquer debutante com acne, mas o meio não pode ser responsabilizado pela intolerância. “Não é a internet que gera ódio. O ódio já existia, mas, como as pessoas estão distantes, não veem que o outro não é simplesmente um avatar com um apelido. O pretenso anonimato faz com que você não veja o olho da pessoa marejar por causa de uma ofensa, por exemplo. Na internet, esse limite com a dignidade do outro é esquecido”, acredita.

“Mesmice monocromática”

Gregório Duvivier, que assina o prefácio de “O Que Aprendi Sendo Xingado na Internet”, afirmou que “se a internet é uma selva, você tem aqui o seu guia de sobrevivência”. “Fazer um manual não era bem o objetivo, eu queria mesmo era desenvolver a empatia na rede. Sem isso a gente não tem uma democracia e não vê que a diferença é importante. E vira aquela mesmice monocromática”, afirma Sakamoto.

A sensação de bolha, formatada muito pelo desenho das redes sociais mais populares, também não enriquece o debate. “O Facebook não é o melhor instrumento para discutir política na rede. O objetivo é que você fique o maior tempo dentro dessa timeline e, para isso, eles vão te cercar daquilo que te faz bem, daquilo com que você concorda, com as pessoas que você mais gosta”, avalia.

Ataques

Apesar de ter sido caluniado, difamado e ameaçado por conta de seu trabalho, o jornalista diz não se sentir intimidado. “A cada vez que você toma uma porrada, você cria uma casca para a porrada seguinte. Eu não tenho medo de morrer. Esses ataques tentam matar é minha credibilidade, mas acredito que o melhor é ter paciência para explicar quando a outra pessoa está errada e entender quando você está errado”, conta.

Sakamoto já cobriu conflitos no Timor Leste, Angola e no Paquistão e fez matérias sobre trabalho escravo, situação indígena e outros temas espinhosos no Brasil. “Por isso eu já tinha um preparo para lidar com ataques. Eu também costumo ficar alerta nos lugares em que estou no caso de aparecer alguém mais exaltado. Mas só assusta de verdade quando ameaçam a família. Aí eu viro bicho. Eu não aceito perder para a barbárie”, afirma.

“Vai pra Cuba!”

De um ataque bem específico nasceu um subproduto do Blog do Sakamoto, o programa de debates Havana Connection, também hospedado no UOL, uma versão de esquerda do Manhattan Connection, da Globo News, que tem em sua mesa Lucas Mendes, Caio Blinder, Diogo Mainardi, Ricardo Amorim e Pedro Andrade. “Quem me conhece sabe que não sou radical, não sou petista, inclusive critiquei pesadamente o governo Dilma, nunca defendi ditadura comunista. Mas uma vez eu estava na rua e gritaram: ‘Vai pra Cuba, seu filho da ...’ . Aí nasceu a ideia”, explica ele, que costuma debater as pautas com o deputado federal Jean Wyllys, a jornalista Laura Capriglione e o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Guilherme Boulos.

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