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Mais incrível que a ficção

Aos 89 anos, João José Bigarella é reconhecido como homem das letras, aquelas que teimavam em lhe fugir quando era guri

  • José Carlos Fernandes
A mulher Íris arruma o fardão no marido, o professor Bigarella, em noite de posse na Academia Paranaense de Letras |
A mulher Íris arruma o fardão no marido, o professor Bigarella, em noite de posse na Academia Paranaense de Letras
 
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O mais novo membro da Academia Paranaense de Letras (APL) tinha notas baixas em Português e detestava as aulas de “composição” – nome dado aos exercícios de redação na década de 1930. Desenvolver temas, como se dizia, era uma tortura para aquele guri alfabetizado em alemão no seio da família Schaffer, dono de vocabulário sofrível, que vacilava ainda mais diante da imponência de um professor tão alto e tão largo que os alunos o apelidaram de “Chope Duplo”.

Restou-lhe ser o melhor aluno de Física, Geografia e Biologia do Colégio Santa Maria. Um leitor voraz da literatura de aventura do alemão Karl May. E se tornar o geólogo João José Bigarella, já nos anos 1940 o mais universal dentre os nascidos no Paraná. O cientista é autor de nada menos do que 230 “composições” científicas, entre livros e artigos – o que o faz mais do que merecedor da cadeira 22 da academia, anteriormente ocupada por Metry Bacila, outro nome da ciência no estado.

A escolha para a APL pegou de assalto o professor Bigarella – como costuma ser chamado por sábios e incultos. Remoçou. Sabe que na escolha tem o dedo da mulher, a artista plástica e pesquisadora de psicanálise Íris Koehler, e do professor Belmiro Valverde Castor, que militou pela indicação. Agradece a honraria que “Chope Duplo” não aprovaria. E promete que fará jus ao fardão, comparecendo aos chás da academia, apesar das limitações próprias de quem tem 89 anos e uma agenda de quem tem 35.

Bigarella faz trabalho voluntário na Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e orienta mestrandos e doutorandos da Universidade Federal de Santa Catarina, seu posto de trabalho depois da aposentadoria na UFPR. Se está de folga, na Boa Vista, perde-se nos guardados acumulados em sete décadas de pesquisador – um amplo apartamento anexo ao que mora lhe serve de gabinete. O local é uma verdadeira viagem ao Centro da Terra, cujas camadas são formada por milhares de slides, amostras, livros e pilhas de recortes de jornal.

De resto, sai de casa todos os dias, segundo diz, para “não dar folga ao dr. Alzheimer”. Além do mais, a vida reclusa não é recomendável para quem precisa “brigar” todos os dias. Deve ser seu oxigênio. Ora briga contra a engorda da praia de Matinhos – assunto no qual é referência. Ora a favor do museu de geologia de Vila Velha, um daqueles projetos encalhados do qual o Paraná ainda há de se envergonhar. Esperava vê-lo pronto para a Copa de 2014. Sabe que não. Mas não contem com seu silêncio: está acostumado a ganhar.

Pelas contas, o cidadão João José Bigarella acumula poucas frustrações em nada menos do que 69 anos de vida profissional – não conseguiu ir ao Antártida, nem à China ou à antiga URSS. Demorou chegar à Amazônia. Mas esteve no Ártico, no Saara e fez tantas até virar uma lenda nos anais da ciência. Pelo saber notável. E pelo “bigarelômetro”, espécie de medidor da influência dos ventos no solo que mede também sua popularidade.

A traquitana é seu lado professor Pardal. E de nada adiantou um pesquisador americano ter desdenhado de seus poderes. Bigarella a utilizou do Norte do país às divisas do Uruguai em estudos de solo brasileiro, com sucesso. Sim, ele é teimoso, durão, reclamão e inclemente com a ignorância e com burocracia, que, não cansa de apontar como uma erosão que arruína a pesquisa nas universidades. Não lhe peçam palavras ternas de vovô em flanelas, embora o “bravo” seja capaz de fazê-lo, em especial quando fala de saudades. Torna-se um poeta.

São muitas as lembranças, mas a principal é a dos tempos em que colocava os alunos num ônibus, partia para os matos e os deixava por 15 minutos olhando um pedaço de estrada. Pedia que prestassem atenção. “Quando eles me contavam o que viam, diziam 70% do que eu ia lhes ensinar. Era muito bom”. Eis o método Bigarella de ensino, sob medida para o homem que classifica a ciência como a mais divertida das atividades. “É tão bom quanto a ficção”, pronuncia-se o recém-chegado à Academia Paranaense de Letras.

Discurso de posse na ABL

Preclaro Presidente da Academia Paranaense de Letras

Dr. Eduardo Rocha Virmond

Demais integrantes da mesa, já nominados, Prezados confrades e confreiras, Membros da minha família

Senhoras e Senhores convidados:

Foi com muita surpresa que recebi a comunicação de que meu nome havia sido proposto para a cadeira número 22, a qual tem como patrono o Monsenhor Manoel Vicente Montepeliciano da Silva, sendo seu fundador o Bispo Dom Alberto José Gonçalves e que ficou vaga pelo falecimento de seu titular, Professor Metry Bacila, renomado Professor Catedrático de Química Orgânica e Biológica; pelo qual tenho admiração e apreço como colega de atuação no IBPT. Desde o início de sua carreira sempre demonstrou grande vocação pelo estudo e pesquisa, dedicando-se principalmente à Bioquímica. No final da década de 40 instalou o serviço de Química Biológica no Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas, e mais tarde introduziu a disciplina de Bioquímica na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Católica do Paraná. Em 1978 coordenou a implantação do Centro de Biologia Marinha que vem realizando trabalhos de grande relevância em Pontal do Sul no litoral paranaense. Participou intensivamente do Programa Antártico Brasileiro em diversas expedições científicas ao Continente Antártico.

Menciono igualmente com respeito e admiração o primeiro ocupante Professor Carlos Stellfeld que conheci em atividades universitárias e quando participava das excursões do Museu Paranaense.

Sinto-me extremamente honrado em fazer parte desta Academia que engloba tantos nomes destacados nas Artes, Ciência e Literatura.

Algumas breves considerações sobre minhas origens...

Três de meus avós vieram do império Austro-Húngaro, no século XIX.

Meu trisavô Anton Schaffer imigrou da Morávia tendo chegado a Curitiba em 1856. Em 1863 chegaram meu bisavô Johann Schaffer e meu avô de apenas três anos de idade. Instalaram-se no Pilarzinho onde atualmente se situa o Jardim Schaffer, na época ainda muito distante da cidade. Na impossibilidade de enviar os filhos para a escola, a família contratava professores vindos da Alemanha para lecionar em casa.

Meu avô Johann Schaffer Jr. estabeleceu-se na região do atual Bom Retiro, mais próximo à cidade. Minha mãe Ottília, sua filha, nascida em 1901 inicialmente teve aulas em casa e mais tarde no Colégio Divina Providência onde aprendeu além do alemão, o português sendo fluente em ambas as línguas.

Minha primeira língua, por isso, foi o alemão que minha mãe falava comigo; eu respondia em português. Para fazer a escola primária eu fui matriculado no Colégio Divina Providência, onde parcialmente fui alfabetizado em alemão. Aprendi a ler e escrever textos em gótico o que foi de grande valor para minha carreira, pois nas bibliotecas européias consegui obter informações valiosas para meus trabalhos científicos.

Meus bisavós paternos também eram Austro-Húngaros procedentes do Tirol Meridional. Minha avó paterna nasceu em Castel Tessino nos Alpes. Em casa falava trentino enquanto meu avô, nascido em Bolzano Vicentino falava vêneto e italiano.

Assim, minha infância foi quase uma babel de línguas. Na escola os colegas caçoavam pois eu não conseguia pronunciar o “r”. Ainda no começo da década de cinqüenta, quando passei a contribuir em cursos de formação de geólogos em várias universidades do Brasil chegaram a perguntar de que país eu era... Mas fui melhorando gradualmente.

Cursei o ginásio no Instituto Santa Maria e sou muito grato aos excelentes professores que estimularam meu interesse pelas ciências abrindo um amplo horizonte de possibilidades.

Conclui os cursos de Ciências Químicas na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras do Paraná em 1943, em seguida o curso de Química Industrial e de Engenheira Química. Tornei-me Professor Catedrático de Mineralogia e Geologia Econômica em 1956, recebendo também o título de Doutor em Ciências Físicas e Químicas.

Iniciei minha carreira de professor na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras do Paraná, em 1949, prelecionando mineralogia e petrografia. Adotei uma didática muito apreciada que atrai com desenhos e imagens mantendo o aluno atento como se ele pudesse vislumbrar cenas do campo. O aluno que se destacava, convidava para estagiar no Laboratório de Sedimentologia. Muitos tornaram-se professores universitários, entre eles, José Henrique Popp, Rubens Viana e Rosemari Dora Becker.

Em 1944 fui nomeado assistente voluntário do Museu paranaense. Nas excursões de campo, principalmente no litoral paranaense, participavam pesquisadores de outras instituições, entre elas, a Universidade de São Paulo. Nesta época aprendi indiretamente a metodologia da pesquisa científica, assunto que não era ensinado na faculdade.

Sou muito grato ao museu porque constituiu para mim uma verdadeira escola estimulando meu fascínio pela pesquisa.

Numa das excursões no litoral paranaense em junho de 1944, conheci minha esposa Iris, que me auxiliou e incentivou, com muita paciência e tolerância pelas minhas andanças mundo afora, em pesquisas geológicas em quatro continentes.

A partir de 1969 recebi vários convites para realizar trabalhos de campo no Continente africano (África do Sul, Namíbia, Angola, Nigéria e Algéria) fundamentados na problemática da migração dos continentes. Outra proposta de trabalho partiu do Instituto Argeliano-francês de petróleo e me proporcionou, acompanhado de geólogos de vários países, uma visita importante ao fascinante deserto do Saara, esclarecedor de muitos problemas ligados à mudanças climáticas pretéritas e atuais.

Em 1974 fui convidado a participar do Programa Internacional de Correlação Geológica da UNESCO e União Internacional de Ciências Geológicas, onde permaneci por 4 anos.

Quando comecei a trabalhar na Divisão de Geologia e Mineralogia no Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas (IBPT), a minha primeira missão foi de prospectar matéria prima para a indústria mineral: cerâmica e cimento, além de outros trabalhos de campo. Fascinado pelos resultados, senti a necessidade de divulga-los nos arquivos de Biologia e Pesquisas Tecnológicas. No início tinha muita dificuldade em redigir os textos. Porém, com persistência, essa dificuldade desapareceu como num golpe de mágica. Outro problema que me atormenta até hoje é a ortografia. Quando aprendi a escrever fósforo usava-se dois “ph” e assim por diante. Já familiarizado com a última, me sinto derrotado com a nova.

Minha dificuldade inicial para escrever desapareceu e me tornei um escritor ativo tendo publicado cerca de 230 trabalhos científicos (muitos com colaboradores) editados na Europa, Estados Unidos, Canadá, África do Sul, Rússia e Brasil. Escrevi também alguns livros de interesse geral, usando, a mesma técnica de pesquisa ampla e profunda.

Fui editor das revistas do Instituto de Geologia nas décadas de 50, 60 e 70 e também pertenci ao corpo editorial de revistas na Holanda e Alemanha.

Durante essas andanças na natureza, as rochas não conversavam comigo e eu teria que me tornar um quiromante capaz de ler e interpretar as linhas da grande mão da terra (como escreveu José Carlos Fernandes na Gazeta do Povo). Queria entendê-las, levar ao papel o que elas me diziam e escrever sobre o seu significado; e assim fui me tornando um “escritor”, por assim dizer, da historia do passado da Terra.

No começo foi um aprendizado árduo, que foi se aperfeiçoando com o tempo e intensificado consideravelmente quando recebi uma bolsa de pesquisa da John Simom Guggenheim Memorial Foundation nos Estados Unidos. Durante minha permanência de mais de um ano nesse país, aprimorei a minha técnica de interpretar as “linhas” apresentadas nos cortes de estradas, afloramentos e quando necessário, em trincheiras abertas nos sedimentos arenosos.

Esses conceitos possibilitaram conhecer de forma ampliada os processos vigentes nas bacias de sedimentação, bem como, as condições climáticas da área de procedência dos sedimentos.

Este tipo de pesquisa permite identificar o que aconteceu há muitos milhões de anos, o ambiente da época, os seres vivos, o clima...

Conhecendo o passado fiquei profundamente alarmado com a ganância do ser humano capaz de alterar gravemente o ambiente em que vive e interage. Essa preocupação despertou um intenso interesse ambientalista e uma grande inquietação que me levou a expor em pesquisas, palestras e publicações científicas, os malefícios da destruição generalizada das florestas, erosão do solo, poluição dos cursos de água, da vegetação dos manguezais, e outros severos danos à natureza.

Não estou satisfeito, porque temo que estou perdendo essa guerra.

Como será o futuro dos nossos descendentes?

A partir dos cortes de estradas passamos a entender melhor os processos ambientais e promover a conscientização junto ao poder público. Com a colaboração da ACARPA, atual EMATER, visitamos as áreas com problemas de erosão, contribuindo para a instalação das microbacias com técnicas conservacionistas.

Em muitos municípios, principalmente no terceiro planalto, realizamos palestras em escolas, associações e prefeituras, normalmente com ausência do prefeito, que deveria estar presente para conhecer melhor a problemática dos fatores ambientais do município. No caso das voçorocas pesquisamos seu interior, obtendo informações sobre os processos envolvidos. Desse modo, criticamos a implantação das obras de contenção que, depois de construídas, desaparecem em pouco tempo...

Na década de 70, com a destruição das florestas nativas do interior, algumas madeireiras quiseram se instalar no sopé da Serra do Mar para retirada de árvores. Levantamos a voz mencionando que esse desmatamento exporia o solo à erosão e ao entulhamento dos canais de navegação na Baía de Paranaguá inviabilizando o Porto.

Trabalhos anteriores com nossa equipe mostraram a fragilidade do ecossistema da baía e seus entornos. Comunicamos os resultados ao Governo Militar que impediu a instalação de serrarias, dessa forma, salvando o Porto.

Com o apoio do Secretário de Estado do Planejamento Prof. Belmiro Valverde Jobim Castor publicamos em 1978 um livro intitulado “A Serra do Mar e a Porção Oriental do Estado do Paraná. Um problema de Segurança Ambiental e Nacional.”

Por muitos anos a Serra do Mar foi preservada. Porém, infelizmente há vários anos atrás recomeçou o desmatamento e a construção de casas em áreas de altíssimo risco, deixando as encostas desprotegidas! Alertamos o Instituto Ambiental do Paraná, a Secretaria do Meio Ambiente e o IBAMA. Falamos em vão. Seriam eles responsabilizados por graves desastres ambientais e suas conseqüências? Atualmente os detritos descem a serra em direção aos canais de navegação. Haja dragagem!...

Na Universidade Federal do Paraná na década de 50 foi instalado o Instituto de Geologia no 11º andar do Edifício da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, onde montamos o laboratório de sedimentologia. Demos início a uma biblioteca e um centro de documentação reunindo publicações de vários países do mundo ocidental, bem como, União Soviética, China e Polônia, além da Índia, Austrália e Japão que permutávamos com nossas publicações editadas em inglês. Posteriormente esse acervo foi transferido para a Biblioteca Central. Lamentavelmente a bibliotecária desconhecia o sentido de um centro de documentação existente em outras Universidades do exterior, adotando uma política retrógrada. Não compreendeu o seu significado. Publicações que não eram consultadas em 5 ou 10 anos eram descartadas como papel velho, incluindo também, as antigas publicações do Instituto de Geologia e de outras faculdades!

Desse modo, as antigas publicações deste Instituto tem que ser consultadas em bibliotecas do exterior, o que muito entristece, pois fui editor delas nas décadas de 50, 60 e 70 durante a fase áurea da Universidade.

Atualmente sou procurado com freqüência por estudantes de pós-graduação (mestrado ou doutorado) que solicitam orientação e comentários. Começo pela bibliografia e critico a ausência da citação de trabalhos pertinentes ao assunto. Justificam que o professor diz que os trabalhos antigos são ultrapassados. Lamento também que em dez anos suas publicações estejam nessas condições e jogadas no lixo!

Prelecionei cursos breves em universidades dos Estados Unidos, Alemanha e Argentina e várias palestras em universidades do exterior. Duas delas me impressionaram. Na Universidade Norte em Mumbai pela atenção respeitosa dos ouvintes como se estivéssemos em um grande templo.

Na Universidade de Ibadan na Nigéria fiquei admirado pelo comportamento e polidez dos estudantes. Todos com uniforme branco, levantaram-se quando entrei na sala e pedi para sentarem. Atentos, ninguém entrou ou saiu antes do término. No trabalho de campo foram impecáveis.

Convidado pelo Instituto de Ecotécnica da Inglaterra e Estados Unidos na década de 80 para proferir duas conferências na reunião dos países do sudeste Asiático e da Oceania, uma em Penang na Malásia sobre a fragilidade das selvas e outra sobre aridificação em Perth na Austrália.

No auditório estava presente um Ministro do Governo. Falei sobre a problemática geral do semi-árido no sudoeste americano, na caatinga do nordeste brasileiro e no semi-árido africano.

Na Austrália havia um projeto para incrementar a área de pastoreio. Os criadores de ovelha estavam aumentando as pastagens com a derrubada dos eucaliptais (tipo de savana) o que contribuiria para aumentar a semiaridez e rebaixar o nível do lençol freático. Terminada a conferência, o Ministro fez numerosas perguntas e, fora do auditório, ainda conversamos. Os eucaliptais foram preservados...

A pedido de pesquisadores australianos, enviamos um ofício ao Governo do País solicitando a criação de um parque de Araucárias que estavam sendo indiscriminadamente devastadas.

Partindo dos madeireiros recebemos cartas de protesto referindo que não deveria me meter em assuntos internos do país. Entretanto, o parque e a proteção das Araucárias tornou-se realidade, o que até hoje não aconteceu entre nós.

A partir dos anos 50 comecei a trabalhar intensivamente no campo, o que é fundamental para todo geólogo que quer desvendar a história da Terra. Foram meses e anos de pesquisas nas mais precárias condições imagináveis num país ainda não desbravado, com estradas e alojamentos dos mais primitivos.

Entre os dedicados colegas de pesquisa menciono especialmente o Prof. Riad Salamuni. Suportamos juntos longas excursões de campo desde Patos de Minas (MG) até Taquarembó no Uruguai. Quando a UFPR não dispunha de um “jeep” seguíamos de ônibus e depois pedíamos carona a caminhoneiros que nos deixavam no local de trabalho. Na estrada, sob sol escaldante ou chuvas torrenciais, aguardávamos o próximo caminhão para levar-nos a outro local de pesquisa. Durante dias e semanas, para pernoite muitas vezes éramos acolhidos por humildes moradores locais ou então, pernoitávamos em estrebarias. Para economizar os recursos recebidos do antigo Conselho de Pesquisa da Universidade, nunca usamos hotéis; procurávamos as pensões mais baratas, defendendo-nos de aranhas, mosquitos, pulgas e percevejos com DDT e BHC, cujos malefícios eram desconhecidos.

Muitas e longas caminhadas a pé ou no lombo de muares... O sacrifico valeu. Conseguimos projetar as Geociências da UFPR no cenário internacional. Muitos pesquisadores estrangeiros nos visitaram para conhecer os avanços aqui conseguidos.

Destaco igualmente a participação dos Professores Azis Nacib Ab’Sáber, Gilberto Osório de Andrade, Regina Mousinho de Méis e Jorge Xavier da Silva de várias universidades congêneres.

Mais tarde, inspirado pelo meu decisivo estágio no Museu Paranaense, procurei montar museus; de início na Reserva Biológica Cambuí junto o Rio Iguaçu na Av. das Torres e mantido pela Associação de Defesa e Educação Ambiental (ADEA) e, posteriormente, na Universidade Estadual de Guarapuava no Parque Municipal. Durante minhas viagens de pesquisa no exterior, visitei cerca de 350 museus diferentes, desde o mais humilde ao mais sofisticado.

Imaginei então, criar no espaço muito oportuno da região de Vila Velha No Paraná, um Museu de concepção mais completa, não um mero amontoado de amostras. Seria como um grande livro em cujas páginas pudéssemos caminhar e ler a história da Terra. Grandes cenários demonstrando gradativamente a evolução, desde a formação dos oceanos, os primeiros vestígios de vida e, acompanhando esta evolução, chegar aos Arenitos de Vila Velha. Continuando, assistimos à formação de florestas, o intenso vulcanismo, seguido por um enorme deserto de areia, até chegarmos aos dias atuais.

Um museu que não apenas informasse turistas, mas principalmente estudantes, seja do ensino médio e do ensino universitário, utilizando uma tecnologia renovadora de grande impacto na educação.

Com o apoio do Governo do Estado foi construído um grande prédio de 3.700m2 e, com recursos obtidos através da Lei Rouanet, conseguimos angariar 800.000 reais para elaboração do banco de dados e construção de toda estrutura metálica. Esta abrigaria os cenários de grande porte, bem como todos os vidros ondulantes.

Infelizmente, problemas burocráticos inviabilizaram a captação de três milhões de Reais, já prometidos, para a montagem de todos os cenários a serem localizados em três módulos do prédio.

Posso assegurar que este Museu será inédito no mundo e de grande valor para a educação e o turismo no Parque de Vila Velha.

Terminando, agradeço comovido a atenção desta douta mesa e de todos os queridos convidados.

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