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“É um privilégio ter passado a vida espichando a mão”, disse Gebran em entrevista. | Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
“É um privilégio ter passado a vida espichando a mão”, disse Gebran em entrevista.| Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Morreu, nesta quinta-feira (12), o pianista Gebran Sabbag. Aos 83 anos, ele ainda estava em plena atividade tocando todas as quartas-feiras no Dizzy Café Concerto, que é administrado por um de seus filhos, o também pianista Jeff Sabbag.

Precursor

Gebran começou a tocar piano aos 11 anos e foi um autodidata. Suas “aulas” foram ao pé do rádio, ouvindo Erroll Garner e Nat King Cole. Num perfil do músico publicado pela Gazeta do Povo dois anos atrás, Gebran falou sobre a experiência de entrar em estúdio pela primeira vez aos 81 anos, depois de uma vida dedicada a apresentações ao vivo em boates e clubes de Curitiba.

“É um privilégio ter passado a vida espichando a mão”, disse Gebran à época.

Gebran preferia as teclas pretas do piano. “Sou contra as brancas”, dizia.Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Ele nasceu em Rio Negro em 1932, mas se mudou com a família para Curitiba um ano depois e nunca mais foi embora. Em 1947, estreou nos palcos do Clube Curitibano acompanhando um conjunto vocal de filhos de associados.

Três anos depois, a convite do maestro Waltel Branco, integrou um quinteto que se apresentava na rádio PRB-2 (Rádio Clube Paranaense). Como músico profissional, acompanhou vários artistas importantes, como Lúcio Alves e Cauby Peixoto.

Nas décadas de 1950 e 1960, despontou como um dos nomes mais importantes do jazz em Curitiba, onde viviam músicos acabaram fazendo sucesso no exterior, como Raul de Souza e Airto Moreira.

“Gebran foi um precursor deste jazz moderno do fim da década de 1950, mesmo sem estudo, sem ter passado por uma escola de jazz. Tinha uma coisa natural. Era a própria essência do jazz da época dele”, diz a pianista e pesquisadora Marilia Giller . “Ele poderia ter feito a carreira lá fora, como outros colegas, mas não saiu da cidade para se entregar à família. Como não arredou o pé daqui, se tornou um ícone do jazz curitibano”, explica a musicista, lembrando que o pianista também se dedicava a uma carreira paralela, fazendo manutenção de aparelhos eletrônicos e sonorização.

O flautista e regente Norton Morozowicz, que tocou contrabaixo em um conjunto que formou com Gebran nos anos 1950, diz que Gebran foi o maior jazzista que Curitiba já teve. “Era realmente uma pessoa iluminada, com um conhecimento vastíssimo de jazz”, lembra o músico. “E deixou uma marca sem precedentes, influenciando gerações de músicos”, conta.

Referência

Entre os músicos que tiveram esta influência está o contrabaixista José Antonio Boldrini, que conheceu Gebran nos anos 1980. Esta época foi uma espécie de segunda fase na carreira musical do pianista, que foi redescoberto por aquela geração.

“Foi quando ‘resgatamos’ Gebran de casa, quando o botamos na rua. Foi uma fase muito bonita. Ele estava muito pronto, carente de tocar. E a gente curtiu muito”, conta Boldrini.

“Para nós, ele foi um grande mestre, uma espécie de guru”, diz Selma Baptista, cantora de jazz e antropóloga que também dividiu os palcos com Gebran nesta época. “Ele tocava de espírito. Tinha uma linguagem jazzística muito própria, um conhecimento grande das raízes, do repertório – tinha uma cultura musical muito grande. E tocava de seu jeito. Por isso ele foi uma pedra fundamental quando começamos aquele movimento de jazz mais intenso nos anos 1980”, explica.

Retomada

Em 2013, Gebran Sabbag entrou pela primeira vez em um estúdio para gravar composições próprias, depois de cerca de dez anos afastado da música. O período marcou uma nova fase na carreira musical do pianista, que passou a se apresentar com mais frequência, apoiado pelos filhos Jeff e Paulo.

O trabalho deu origem ao disco Feltro & Bronze (2013), assinado por Gebran e Jeff. “É incrível o piano na vida dele”, disse, na época, o filho Jeff, que acompanhou o pai nas gravações. Há vários vídeos mostrando Gebran em ação, explorando como ninguém as teclas pretas, porque têm “mais brilho e frequências”.

Boldrini, que acompanhou Gebran em algumas de suas últimas apresentações, lembra que o pianista, mesmo aos 83 anos e sem o mesmo vigor de antes, ainda propunha desafios. “Até hoje não sou capaz de resolver alguns problemas harmônicos que Gebran colocava”, conta o contrabaixista. “Ele fazia coisas completamente diferentes de qualquer músico. Para mim, era um gênio.”

A causa da morte ainda não foi informada pela família. Gebran era viúvo e deixa sete filhos, todos com alguma ligação com a música.

*

O documentário “Música Subterrânea”, sobre o jazz em Curitiba, retrata Gebran e outros personagens importantes. Não por acaso, é Gebran brincando ao piano quem aparece na abertura do filme.

Música Subterrânea from Luciano Coelho on Vimeo.

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