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O Auma do grafite

Aos 42 anos, grafiteiro curitibano Paulo Cesar de Oliveira expõe trabalhos no exterior e encabeça projetos artísticos na capital

“O papel da arte é muito além do que só transmitir beleza”, diz o artista visual Auma | Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
“O papel da arte é muito além do que só transmitir beleza”, diz o artista visual Auma (Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo)

"Eu sou uma artista preocupado com o mundo, mas não no sentido apocalíptico. Me interessa o fato de que as pessoas assumam seu compromisso com a sociedade. A minha arte, toda a construção dela, tem o interesse de fazer com que elas se perguntem sobre o que realmente estão fazendo aqui." A fala acima é reflexo do sentimento de um artista preocupado com o tempo e com lugar onde vive. Porém, a pergunta se a arte é capaz de modificar o mundo para melhor não se cala. O artista visual Paulo Cesar de Oliveira, 42 anos, tenta apontar caminhos e encontrar respostas nos muros, a partir do grafite. Ele, que já foi convidado para realizar trabalhos em outras partes do mundo, como México e Palestina, recebeu a reportagem da Gazeta do Povo para uma conversa sobre sua trajetória e a arte das ruas.

Paulo Auma ou simplesmente, Auma, como também é conhecido no mundo artístico, se formou no antigo curso de Artes Plásticas da Faculdade de Artes do Paraná (FAP) em 1997. Desde então, começou a se envolver em inúmeros projetos relacionados diretamente à arte, sociedade e educação. Antes de mergulhar profundamente nos traços do grafite, Auma tentava reproduzir em casa alguns traços de revistas em quadrinhos. Mas, com uma linguagem um tanto distinta. "Eu gostava muito dos traços das revistinhas da Marvel. Havia também uma revista muito legal de ficção científica chamada Humanoides Associados. Eu me inspirava naquela estética, mas acentuava o caráter dramático dos traços. Colocava algo meu naquilo", diz.

Após o finalizar o curso na FAP, ele começou a lecionar arte no Colégio Estadual Rodolpho Zaninelli, mas pediu a conta logo que o diretor da instituição resolveu destinar a sala dedicada ao ensino da disciplina para outro fim. "Acredito que para ensinar artes é necessário um local específico. Tínhamos um espaço em que o ensino fluía melhor. Os alunos se interessam mais assim. A imersão não é tão boa quando acontece numa sala de aula de convencional.", conta. Então, aproveitando o convite de uma amiga, pegou um avião rumo à Portugal. "Foi uma temporada muito boa, porque entrei em contato com outras correntes de pensamento, outras visões de mundo. Passei pela Espanha e Itália também. Nesse último, participei de um Festival de Culturas com um grupo de brasileiros que representavam nosso país através da capoeira. Ajudei pintando alguns painéis."

Uma das visões que influencia até hoje a maneira como o artista percebe seu trabalho e a sociabilização que ele possibilita é a corrente de pensamento anarcopunk. "Já tinha consciência dessa visão de mundo. Uma concepção de que os espaços devem estar abertos para aqueles que querem intervir de uma maneira positiva, questionando as coisas, o que está posto aí fora e que nos incomoda.", diz. O ateliê de Auma funciona dessa maneira. Um espaço aberto, onde outros grafiteiros podem chegar com suas opiniões e trabalhos e os materiais são compartilhados. "Não trabalho sozinho. Então, muitas vezes, fazemos trabalhos em outros formatos e aí entra uma grana. Esse dinheiro é dividido entre os envolvidos no projeto. Parte dele também é destinado à compra de mais matéria-prima. E é algo que todo mundo compartilha."

Projetos

Um dos projetos que Paulo realiza no CIC, região onde mora em Curitiba, é o de convidar grafiteiros de outras regiões para pintar no bairro. "É algo que está forte em Curitiba. Criar oportunidades para que as pessoas pintem no bairro onde moram, mas também possam mostrar seus trabalhos em outros lugares", diz. Há também iniciativas de outras pessoas que curtem esse tipo de arte. O espaço cultural A Casa, próximo à Praça do Gaúcho, segundo Paulo, está se tornando em um verdadeiro ponto de encontro de artistas independentes e alternativos.

Há possíveis parcerias com outros países, como por exemplo, o Centro Cultural Brasil/México, que pode ter suas paredes estilizadas por grafiteiros brasileiros e mexicanos, e a Revista Brasil/México que pode ser lançada também em terras tupiniquins. Em Santa Catarina, na cidade de Mafra, Auma e seus parceiros Heal, Grype, Amem, Japem, DL e ETO foram convidados para desenhar na parede de um vagão de trem a queda de uma ponte, um fato histórico que ocorreu naquele município. Colaborou Dilvo Rodrigues, especial para a Gazeta do Povo.

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