Seu app Gazeta do Povo está desatualizado.

ATUALIZAR

PUBLICIDADE
  1. Home
  2. Caderno G
  3. O dia em que Tom Jobim morreu

música

O dia em que Tom Jobim morreu

Os vinte anos da morte do maestro soberano atestam o virtuosismo de sua obra, uma ruptura na história musical brasileira

  • Daniel Zanella, especial para a Gazeta do Povo
Partitura, lupa e uisquinho: um dia típico do maestro no trabalho |
Partitura, lupa e uisquinho: um dia típico do maestro no trabalho
 
0 COMENTE! [0]
TOPO

O dia em que Tom Jobim morreu

Para uma criança de nove anos, 1994 foi um ano longo e inédito – como são todos os anos da infância, intermináveis. O Brasil tinha sido campeão do mundo nos Estados Unidos e não poderia existir alguém mais importante no Brasil que o Romário, ainda mais depois da morte trágica de Ayrton Senna. Ainda assim, as manhãs de domingo ficaram para sempre mais tristes na vida dos mais velhos. A um plano mais íntimo, um avô estava muito doente e logo viriam os derramamentos da primeira paixão, a vizinha, que, ao saber de meus sentimentos, desceu correndo do muro – o que nos separou para sempre. Por isso, foi com um certo estremecimento que recebemos todos a chamada do plantão da Globo: na manhã de 8 de dezembro morria, em Nova York, então um lugar muito longe, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, em decorrência de uma parada cardíaca.

Mesmo a infância não compreendendo muito bem as cores da morte, havia uma comoção diferente no ar, quase etérea. No dia seguinte, todas as emissoras acompanhavam o cortejo fúnebre até o Cemitério São João Batista, em Botafogo. Logo aparecia um Chico Buarque transtornado, dizendo não acreditar no que estava acontecendo. Helô Pinheiro chorava copiosamente. Os repórteres pareciam um tanto atônitos.

Nosso Debussy

Vinte anos depois do fatídico plantão da Globo, o legado de Tom Jobim segue invencível e infindável, o nome que está para a música popular brasileira como o piano de Claude Debussy está para a música francesa, divisor, imperial, embora ele dissesse também se identificar com as notas de Chopin. “Por que a música brasileira se parece tanto com Chopin? É o primeiro chorão da história”, disse Jobim certa vez, em uma entrevista clássica ao Pasquim. Um parágrafo depois o chama de “veado-herói”. E, com elegância, tira onda do crítico musical José Ramos Tinhorão, que não era lá um grande admirador da obra de Tom.

Luzes da praia

Surgido para o meio musical no fim dos anos 1950, Tom deixou marcas indeléveis principalmente na década de 1960, o período que ficou conhecido como a década que mudou tudo – homem na lua, Woodstock, Guerra do Vietnã, Golpe de 1964, Cinema Novo e a bossa nova. Em 1960, João Gilberto lançava um 78 rotações com “Samba de Uma Nota Só”, de Tom e Newton Mendonça, o que nos faria repetir mais e mais que isso é bossa nova, isso é muito natural – e nunca mais a imagem banquinho + violão se dissociaria do gênero.

Tom Jobim não gostava de ser definido como um compositor de bossa-nova. Em seus quase quarenta anos de carreira, o admirador de Heitor Villa-Lobos, Maurice Ravel e Lamartine Babo trouxe à canção as luzes da praia, os olhos da mulher amada, as paisagens da antiga capital brasileira e ainda elementos do folclore, como na retumbante e expressionista “Matita Perê”. “As coisas mais geniais do Brasil estão no Nordeste”. Um álbum intenso e singelo como Urubu, de 1976, por exemplo, simboliza suas buscas musicais, sempre ilimitadas.

É verdade também que em sua esteira bossa-novista surgiram nomes como Carlos Lyra, Roberto Menescal, Sérgio Ricardo e Ronaldo Bôscoli, além da legitimação ao olimpo de um tal de João Gilberto. Mas o mundo mal sabia o que ainda estava por vir.

Perfeccionista, por vezes foi mais famoso que Pelé

Tom era respeitado e idiossincrático. Em 1972, por exemplo, a atriz Jeanne Moreau, durante a gravação de Joana Francesa no Brasil, disse não saber quem era Pelé, mas conhecer muitas canções de Tom.

Uma de suas melhores histórias é relacionada ao dia em que conheceu Vinicius de Moraes. O poetinha, já famoso, procurou-o porque precisava de um músico para criar as canções do espetáculo Orfeu da Conceição. No bar, Vinicius falou e falou sobre a peça e seus propósitos intelectuais. Ao fim do monólogo, Tom pergunta: “Mas vai ter um dinheiro nisso aí?”

Outro causo famoso com Vinicius é dos bastidores de um show. Tom está cantando sem parar “Eu Sei que Vou te Amar”, letra de Vinicius. Subitamente lhe acomete um pensamento: “Pô, Vininha, você se casou nove vezes...”.

Muito ligado às questões da natureza, Roberto Menescal conta que, numa pescaria, começou a estranhar que o amigo não pegava nenhum peixe. O anzol estava sem isca. Resposta: “E você acha que eu vou machucar os peixinhos?”

Conhecido por infernizar os músicos com seu perfeccionismo, era de definir as melodias e levar os letristas para um destino sonoro. Chico Buarque chamava isso de Golpe do Tom. João Gilberto passou incólume. Num especial para a televisão, Tom reconheceu ter tentado incluir uma nota fora do acorde no fim de “Desafinado”. João Gilberto foi enfático: “Não”.

8 recomendações para você

deixe sua opinião

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE