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O refinamento está lá fora

Curitiba oferece condições razoáveis para o estudo e o aprimoramento da técnica musical, mas é preciso deixar a cidade para alcançar níveis mais altos.

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Entrevista

Confira a entrevista com Chico Mello, compositor. Hoje ele participa do lançamento do CD 20 Anos Entre Janelas: Música Experimental de 1987 a 2007.

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O concerto termina, o maestro se vira para o público e, surpreendentemente, o autor da obra se levanta em carne e osso da plateia para compartilhar os aplausos. A cena pode parecer estranha no imaginário sobre a música erudita, que costuma atribuir as criações a gênios mortos, às vezes retratados em perucas. No entanto, cada vez mais, pode acontecer a qualquer momento em Curitiba – desde que o pequeno "caldeirão em ebulição", que alguns compositores de música de concerto se esforçam em preparar por aqui, continue aquecido.

O compositor e musicólogo Harry Crowl define nestes termos o momento vivido pela cidade quanto à geração de criadores de música contemporânea. "Eu nunca vi se fazer tanta música nova em Curitiba", diz o músico mineiro, radicado na capital paranaense desde 1994, quando se tornou professor da Escola de Música e Belas Artes (Embap).

O próprio Crowl é responsável por parte desse cenário: ele teve 52 apresentações de obras suas em 2011 – cerca de 20 exclusivamente por aqui. Crowl faz parte de uma geração ativa de compositores da cidade que conta com nomes como Rogério Krieger, violinista cofundador da Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP), que teve obras gravadas pela Orquestra Solistas de Londrina no ano passado; Chico Mello, curitibano radicado há 23 anos na Alemanha, e que lança hoje um CD no Museu Oscar Niemeyer (leia mais na página 3); e Maurício Dottori, compositor carioca e professor da UFPR, que teve a obraAqui Caíram as Asas dos Anjos tocada pela OSP em 2011, além de três outras composições estreadas em Curitiba no mesmo ano.

Agregadores

Se fossem expoentes únicos, esses músicos não seriam exceção na história musical da cidade. Houve compositores precursores, como Augusto Stresser (1871-1918) e Bento Mossurunga (1879-1970) – que não chegaram a ter uma produção substancial. Depois, Padre José Penalva (1924-2002) e Henrique de Curitiba (1934-2008), que já chegaram a ser criadores amplamente reconhecidos. Entretanto, seus trabalhos não criaram elos, diferentemente da geração de Harry Crowl e Dottori.

"Penalva e Henrique de Curitiba são compositores que tiveram importância regional e nacional, mas não fizeram escola", diz o professor da Faculdade de Artes do Paraná (FAP) e doutor em História Social pela USP André Egg, para quem Crowl e Dottori são os principais semeadores de uma nova geração de compositores.

"Quando estudei na Belas, eles tinham essa qualidade de conseguir formar um grupo em torno deles. Sempre tinham alunos por perto, conversando, discutindo composição. Eles são muito agregadores. Acho que isso é uma coisa inédita em Curitiba", diz Egg, que se licenciou em Música pela Embap em 1997.

Entre os nomes da geração a que Egg se refere estão, aqui e espalhados pelo mundo, Márcio Steuernagel (regente da Filarmônica da UFPR e maestro assistente da OSP), Fernando Riederer (radicado em Viena), Vinícius Giusti (Bremen, Alemanha), Alexandre Torres Porres (São Paulo), Marcelo Burigo (Itália), Orlando Scarpa (atualmente no Rio de Janeiro), Felipe Ribeiro e Flíblio Ferreira de Souza (que venceu o primeiro concurso de composição sinfônica do Teatro Guaíra e da UFPR), entre outros.

Espaço para concerto

No cenário em que esses músicos criam há dificuldades, como havia nas gerações anteriores. Os compositores de música de concerto continuam dependendo de encomendas, editais públicos, festivais e concursos para ouvir as suas obras e poder sobreviver de seu trabalho em um mercado com poucas orquestras abertas à música contemporânea.

São três orquestras "oficiais" em Curitiba. Na OSP, a chegada de Osvaldo Ferreira em 2011 é vista como um progresso, já que o maestro tem no currículo estreias de obras sinfônicas de autores portugueses contemporâneos. A Camerata Antiqua de Curitiba costuma apresentar novas obras, mas não tem uma política clara sobre isso. E a Filarmônica da UFPR, da qual Crowl é diretor artístico, tem como uma das metas a apresentação de música nova – o que pode ajudar a "abrir as cabeças" num futuro próximo. No entanto, não é uma orquestra profissional. Seus músicos são na maioria voluntários.

Some-se aí a necessidade de conquistar novos públicos e a resistência dos próprios músicos curitibanos a novas obras, que costumam exigir técnicas específicas. Sem perspectivas para a criação de políticas públicas, por exemplo, para manter uma instituição exclusivamente dedicada à música contemporânea, a nova geração tem como uma de suas características o trabalho coletivo.

Cultura colaborativa

Embora alguns desses músicos tenham olhares comuns sobre a composição, já que são formados pela mesma linha – Dottori e o Departamento de Artes da UFPR têm papel central nesse cenário –, não se pode dizer que formem qualquer tipo de movimento estético. Mas eles têm em comum uma postura colaborativa e cosmopolita em seus trabalhos. Com ferramentas como a internet nas mãos, se articulam para abrir caminhos para trabalhar, independentemente de onde estejam desenvolvendo seus trabalhos locais.

Além de trocar informações constantemente, criar oportunidades de encomendas em outros lugares do mundo e até ensaiar via Skype, a ideia é transcender a geografia e atrair o interesse de pequenos nichos de público espalhados por aí. Agregar uma audiência potencial que é grande no fim das contas. E que, mesmo entre o público local, é maior do que se imagina e não está contida no público da música erudita tradicional.

"É conhecido aquele paradigma do compositor como ‘gênio individual’, meio que contra o mundo. Nesse campo, são mais comuns compositores que se oponham. Isso é contraproducente. É uma cena já restrita, com poucos recursos, e se desgasta pela oposição", diz Steuernagel, que integra o Ensemble Entrecompositores – grupo de música contemporânea criado em 2001.

"A gente propôs algo coletivo – não abrindo mão da própria identidade, mas apoiando a identidade do outro, ajudando tanto no sentido de promover concertos, quanto no de comentar as obras uns dos outros. Isso está rendendo frutos", diz o músico, referindo-se, por exemplo, à organização da Bienal Música Hoje, que trouxe para Curitiba concertos de música contemporânea durante uma semana entre agosto e setembro de 2011 –período em que boa parte desses novos nomes apresentaram suas obras.

"É uma geração da globalização como um fato consumado, que não vê fronteiras", diz Crowl. "Aqui na Europa são maiores as oportunidades, não há como negar, e isso vem ajudando. Estamos envolvendo um ambiente muito mais cosmopolita que vejo em Porto Alegre e no Rio", diz o músico, por telefone, de um centro para compositores na Suécia.

A ideia também está na base da Platypus, uma associação austríaca para promover obra de compositores contemporâneos que tem Fernando Riederer, um dos músicos formados em Curitiba, entre os coordenadores. "Isso tudo está acontecendo agora. Estamos usando ferramentas de agora, é uma música do mundo de hoje – com aspectos positivos e negativos disso", diz.

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