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Paulo Roberto Oliveira, locutor da Ouro Verde, tem uma das vozes mais conhecidas da cidade | Daniel Castellano/ Gazeta do Povo
Paulo Roberto Oliveira, locutor da Ouro Verde, tem uma das vozes mais conhecidas da cidade| Foto: Daniel Castellano/ Gazeta do Povo

Sala de espera

No consultório de Maria Gubert, nunca mudaram de estação

Uma das características da Ouro Verde é o seu padrão inalterável. Seja em vinhetas, anúncios e principalmente na transição de uma música para outra, poucas vezes percebe-se um sobressalto, um solavanco capaz de incomodar os ouvidos. Eis o motivo pela rádio ser preferência em salas de espera.

"É o tempo todo, o dia inteiro", afirma a oftalmologista Maria Helena Gubert. Em seu consultório, que existe desde 1995, jamais alguém teve a pachorra de mudar de estação. "A Ouro Verde tem um estilo mais light, tranquilo, que agrada todo mundo, jovens adultos e idosos," explica.

Maria gosta muito de uma faixa em especial. É "uma versão orquestrada de uma música famosa dos Beatles", que sempre toca na hora do almoço.

Em família

Na casa de Helia, estação easy é a campeã de audiência

Na casa de Helia Corrêa, no Guabirotuba, ai de quem mudar de estação. Lá, só dá Ouro Verde. "Não tem pagode e funk. Na verdade não tem música feia. Tudo bem que eu sou um pouquinho mais velha, mas as músicas antigas são mais bonitas, né", indaga Helia, assessora do Palácio do Governo que não se importou em revelar a idade: ela tem 50.

A preferência se estende ao ma­­­rido James Anderson, de 40 anos – que ouve a Ouro Verde enquanto trabalha em sua coleção de bonecos (seu hobby) e ao filho Kevin, de 11. "Ele ouve rock também, mas não reclama da rádio quando ela está ligada", avisa. Helia não se lembra de nenhuma música em especial, mas faz questão de enfatizar: "Olha, o repertório é bacana."

30 mil é, possivelmente, o número de LPs disponíveis na discoteca da rádio Ouro Verde. Há mais discos estrangeiros do que nacionais – questão de preferência dos ouvintes.

Preste atenção: em salas de espera, a 105,5 FM quase sempre está no ar, já que sua música suave pode ajudar a apaziguar uma possível tensão pré-broca, por exemplo. Em alguns supermercados, não é incomum você ver alguém escolhendo pimentão ao som de Jon Secada. Consultas e compras à parte, é ponto pacífico também que a Ouro Verde é unanimidade entre a terceira idade – e motivo de nostalgia momentânea para quem é balzaquiano. Afinal, Kenny Rogers, Lionel Richie e Diana Ross, por esses dias, só se ouve na rádio easy, que comemora 30 anos de história sem perder o requinte.

VÍDEO: Confira entrevista com Paulo Roberto Oliveira

A Ouro Verde, ainda como AM 590, foi a primeira rádio segmentada de Curitiba. Era uma ideia ousada nos anos 1960: criar uma estação voltada "para um público diferenciado e para o automobilista", como define João Lydio Seiler Bettega, 81 anos, radialista pioneiro no estado e diretor geral do grupo do qual a Ouro Verde faz parte. Deu certo. Nos anos 1980, a mudança definitiva, que deu corpo e alma à rádio como a conhecemos hoje: a migração para a FM, em 1984, já com Paulo Roberto Oliveira ao microfone.

Paulo, 59 anos, é o dono daquela voz da Ouro Verde. Aquela: terna, elegante, quase terapêutica. Há 42 anos no grupo de Bettega e na 105,5 FM desde que a rádio entrou no ar, Paulo, hoje, é a própria rádio. Seu cargo oficial é superintendente, mas é ele quem dá o padrão aos cinco locutores que completam o time. Em um dia comum de trabalho, é comum vê-lo pelos corredores da sede do grupo, onde também funcionam as rádios Caiobá FM e Difusora AM, dando bom dia a funcionários e perguntando onde será o almoço. "Cheguei aqui com 18 anos sem saber atender ao telefone", lembra Oliveira.

Para a mudança que definiria os rumos da nova emissora, foi necessária uma pesquisa musical refinada. Paulo foi o responsável por filtrar os discos que iriam ou não tocar na nova Ouro Verde. Em 1984, eram 20 mil LPs. Hoje, "estão entre 30 e 40 mil," fora o acervo virtual de oito mil músicas. Pequenos orgulhos: foi a Ouro Verde, ainda na versão AM, que lançou a Bossa Nova no Paraná. E a "primeira rádio do Brasil" a tocar "My Heart Will Go On", de Celine Dion, mesmo antes de Titanic (1997) fazer da música um clichê romântico do tamanho de um iceberg.

"Era na base do ninguém me ama", diz Oliveira, referindo-se à programação musical da rádio nos anos 1980 e 1990. Havia mais espaço para músicas brasileiras (Caymmi, Luiz Bonfá) e uma sessão especial na hora do almoço, quando se podia comer macarronada ouvindo Purcell ou Debussy.

De 1984 a 1991, a base da programação era o que se chamava de beautiful music. A partir de 1.º de maio de 1992, a expressão easy ("fácil", "tranquilo", em inglês), foi incorporada. "É a abreviação de easy listening", explica Paulo, com aquela voz.

Momento espírita

Às 6h55 e às 18h55, é hora do Momento Espírita. A mensagem de cinco minutos é narrada por Paulo desde 1992. E já evitou ao menos uma morte. "Um rapaz pegou um táxi decidido que queria se matar. No carro, ouviu o Momento Espírita, que curiosamente falava sobre suicídio. Aquilo o convenceu e ele desistiu," conta Oliveira.

Em termos de audiência, as mulheres são maioria (56%). A idade dos fãs fieis da rádio varia entre 45 e 60 anos. E quem diria: Paula Fernandes, há pouco tempo, foi incluída na programação. Tudo para tentar renovar o público. "Pela lei natural, quanto mais avançada a idade do nosso público alvo, mais ele diminui", deduz Paulo, com Rilo Kiley ecoando ao fundo ("Give a litte love/ give a little love"). Só na Ouro Verde.

Conheça o dono da voz que narra o ‘Momento Espírita’

Paulo Roberto grava as mensagens todos os dias. O radialista conta que aprende muito com os textos e que já era espírita quando foi recebeu o convite para apresentar o programa da rádio Caiobá.

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