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Somente 3% dos candidatos vão passar   no Processo: o sistema, mesmo imparcial, é justo? | Pedro Saad/Netflix/Divulgação
Somente 3% dos candidatos vão passar no Processo: o sistema, mesmo imparcial, é justo?| Foto: Pedro Saad/Netflix/Divulgação

Você toparia decidir toda a sua vida em apenas um dia? Na série 3%, a primeira totalmente brasileira produzida pela Netflix (todos os episódios ficam disponíveis a partir desta madrugada), um Brasil pós apocalíptico se divide entre 3% de privilegiados que passam por um teste chamado “O Processo” e vão morar no Maralto, espécie de éden artificial , enquanto os outros 97% vivem com quase nada, como favelados.

Criada por estudantes de comunicação da USP em 2009 e levada ao ar no YouTube em 2011 no formato de websérie, 3% caiu no gosto de parte do público ávido por ficção científica distópica ao estilo “Jogo Vorazes” e “Divergente” — lembrando que eles pensaram em tudo antes dos gringos.

O piloto da série discutia questões como os processos de seleção aos quais somos submetidos ao longo da vida, como o vestibular, que podem mudar nosso destino graças a uma questão errada, ou um dia em que não estivéssemos tão bem.

Agora, a série vai além. Apesar de mostrar um Brasil adiantado mais de cem anos no futuro, a ideia é tratar de temas atuais, como “Black Mirror” faz. Em pauta, a meritocracia. Os criadores do Processo defendem que não existe sistema mais justo. Embora à primeira vista uma seleção que exclua 97% de seus participantes, os condenando à pobreza permanente, pareça injusto, o Processo não faz nenhum tipo de distinção entre os aprovados. Ao chegar os 20 anos de idade, todos devem participar.

Desigualdade e mérito

Viviane Porto, a atriz que vive a ambiciosa Aline, ressaltou a abordagem sobre a desigualdade que a série traz. “A gente já vive neste mundo. Você quer morar nos Jardins [bairro nobre de São Paulo] ou Heliópolis [favela da capital paulista]?”.

“O Brasil já é uma grande distopia”, afirma Bianca Comparato, protagonista da série. Pedro Aguilera, o criador, não nega as influências: “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley.

Se o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, a culpa é da meritocracia, que supostamente perpetuaria essas diferenças de forma perpétua? Qual seria a alternativa à seleção pelo mérito?

Meritocracia é algo relativamente novo. O termo foi criado pelo britânico Michael Young em 1958, no livro The Rise of Meritocracy (A Ascensão da Meritocracia), uma obra de ficção que não era exatamente simpática ao conceito.

Mas quando se pensa na alternativa — e é o que vemos constantemente no Brasil — nada a supera. Nos primeiros tempos da República, quando imperava o nepotismo, o compadrio, o estado brasileiro era ineficiente e só não gastava mais porque ainda não tinha o tamanho que possui atualmente.

Mesmo hoje, a meritocracia muitas vezes acaba no concurso público. Após passarem, os funcionários — que fique claro, nem todos — não são submetidos a métricas e avaliações por mérito. O que falar então dos poderes legislativo (municipais, estaduais e federal), judiciário e executivo? Quais ministros foram indicados por mérito e quais foram indicados apenas por alianças políticas?

No Brasil de 3%, série, a meritocracia soa como um pesadelo distópico. No Brasil atual, ainda é uma distante utopia.

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