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 | Ilustração: Felipe Lima
| Foto: Ilustração: Felipe Lima

Um leitor desta Gazeta enviou uma carta em que reclama do barulho em salas de concerto. Decerto pertencemos à mesma escola, a do "shhh!" compulsório.

Cobrindo teatro, ópera e dança pelo jornal, me sinto em salas de apresentação como numa segunda casa. O blackout que antecede as primeiras luzes da cena tornou-se um momento sagrado, de ansiosa expectativa. E me considero parte da produção do espetáculo quando alguém ao meu lado, ou em qualquer ponto do recinto, ergue aquela tampinha desaforada do celular e fica mandando mensagem, fazendo de sua irritante luzinha azul um foco de atenção – e irritação.

Sim, já cheguei a cutucar o ser humano em questão e pedir que feche o negócio. Na mesma hora, a taquicardia e a sensação de culpa que me invadem e suscitam a questão: será que virei tia chata?

Já cheguei ao cúmulo de oferecer um lencinho a uma portuguesa, em terra sua, como estratégia para que parasse de fungar a cada três segundos. Numa longa apresentação de As Três Irmãs, de Tchékhov, aquilo representava um risco à sanidade do restante da plateia. Pelo menos, funcionou.

Nem crianças escapam da minha mira, e melhor ainda se estiverem acompanhadas pelos pais. A lição de moral já serve de reprimenda aos genitores que não estão cumprindo com seu papel em casa, ora essa.

Recente, mas já lendária, é a iniciativa do Teatro Guaíra de destinar concertos só para crianças, nos quais é permitido usar fantasias, aplaudir, rir e chorar quando bem se entender.

Mas, em programações tradicionais, adolescentes trepados no segundo balcão acreditam estar munidos de algum campo de força dentro do qual podem roer pipocas retiradas de um pacote plástico, que, remexido, reverbera até o sétimo céu.

Lendário também é o descascamento de balas em câmera lenta. Fica a dica: se o ato for inevitável – afinal, hipoglicemia adora atacar no calor dos teatros –, abra o doce de uma vez só, tchuuum, e não aos poucos, schhh...tshhhh...stchhhhh.

E nem venha argumentar que este é um país livre. Como bem disse o leitor na coluna de opinião: algumas liberdades terminam quando se chega ao espaço coletivo.

A hipótese de que minha percepção seja fruto de chatice geriátrica tem respaldo, mas não seria toda a verdade. No máximo, surge aqui uma nova lenda urbana. A tia chata do Guaíra ataca novamente.

Pensando bem, comporte-se bem ou mal, mas que o público continue a existir. Para quem está expondo sua arte lá no palco, pior do que ruídos deve ser o vazio de aplausos.

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