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As atrizes Ana Ferreira e Jossane Ferraz encenam trecho da peça: “Coisa do diabo” | Antônio More/Gazeta do Povo
As atrizes Ana Ferreira e Jossane Ferraz encenam trecho da peça: “Coisa do diabo”| Foto: Antônio More/Gazeta do Povo

Com certeza, Shakespeare nunca enfrentou nada do gênero. Ana Ferreira e Jossane Ferraz, atrizes da peça “Ensaio Para uma Poética do Movimento”, logo na apresentação de estreia, foram amaldiçoadas por um pastor, desses que pregam nas praças usando uma caixa de som. “Teatro é coisa do diabo! Estão todos amarrados”, vociferou o representante de Deus no calçadão do Mercado das Flores, ao lado do Café do Paço.

O entrevero foi causado porque as atrizes, em seu périplo teatral, resolveram instalar outra caixa de som a poucos metros do pregador. A caridade, virtude cristã tão em falta nos dias atuais, também se ausentou do pastor, que lançou sua ira sobre as artistas.

Tudo bem quando acaba bem. É o risco já calculado de levar a arte aonde o povo está. A peça, cujas apresentações ocorrem todas as sextas (17h) e sábados (15h), até o fim do mês, tem como proposta justamente ir à rua e interagir com o público. A reportagem da Gazeta do Povo acompanhou a estreia.

O dramaturgo Marcelo Bourscheid cria textos em tempo real para a performance.Antônio More/Gazeta do Povo

Na frente do Café do Paço, Ana e Jossane começam com um aquecimento de amplos movimentos, que inclui virar estrela na praça, e falam num microfone para atrair a plateia. Elas precisam disputar a atenção das pessoas com uma briga entre duas mulheres, aparentemente relacionada à posse do ponto de trabalho.

Passada a distração, é a vez de as duas artistas usarem um elenco de apoio alado, sempre à disposição nas ruas curitibanas: jogando milho com movimentos estudados do corpo, Jossane atrai dezenas de pombos que, na sequência, são espantados por uma corrida veloz de Ana.

Quem sabe faz ao vivo

É hora de pegar no pesado. As garotas carregam a caixa de som como um carrinho e vão deslizando pela calçada lateral do Paço da Liberdade até a Rua Monsenhor Celso. Chegando lá, o dramaturgo Marcelo Bourscheid as espera.

Instalado numa mesinha ao canto do calçadão da Rua XV, ele observa o movimento e cria ao vivo textos inspirados no que está acontecendo na rua.

No fim da peça, os espectadores são convidados a deitar em esteiras ao som de violino e violoncelo.Antônio More/Gazeta do Povo

“Como todo improviso, você está sujeito à coisa não acontecer”, conta ele, sobre o maior temor desse tipo de “criação de arte ao vivo”. A falta de tempo de lapidar o texto também assusta. “Às vezes em casa tenho algum lampejo e anoto, para depois reelaborar. Ali na performance fico sujeito à primeira parte, não tem a chance de reelaboração.”

SERVIÇO

Ensaio para uma poética do movimento

Local: percurso a partir da Praça Generoso Marques (em frente ao Paço da Liberdade). Dias 22 e 29 às 17h e 23 e 30 às 15h. Entrada franca.

O que ele escreve é transmitido à atriz Ana Ferreira em curtas mensagens de celular para leitura imediata. Se o autor fala de um pedestre com algo na mochila ou de um gari cabisbaixo (como fez na estreia), esse texto é lido enquanto a pessoa ainda está passando na rua. É difícil, porém, que os personagens percebam que estão falando deles, em meio às preocupações comezinhas que ocupam a mente.

No final da performance, que acontece no pátio em frente ao café do Paço, oito pessoas são convidadas a se deitar em esteiras de palha, ao som de violão e violoncelo ao vivo.

“Estão desmaiadas?”, questiona Ismael dos Santos, de 38 anos, como pretexto para se aproximar e observar. É surpreendente o número de pessoas que param só para olhar os outros relaxando – seria um desejo reprimido?

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