
"Nós éramos garotos", diz uma voz em off, enquanto uma van cruza as ruas monótonas e abafadas de San Fernando Valley, em Los Angeles, "com nada além daquelas canções e daqueles sonhos...não tínhamos ideia de que os próximos 16 dias iriam mudar nossas vidas para sempre." O narrador, Dave Grohl, também diretor do filme, refere-se à primavera de 1991, quando o Nirvana gravou um álbum que iria popularizar o chamado rock alternativo ao vender 30 milhões de cópias no esculhambado estúdio que dá título a seu documentário, recém-lançado no Brasil em DVD.
O Sound City, como atesta uma constelação de estrelas e o filme é repleto delas, incluindo Neil Young, Stevie Nicks, Tom Petty, John Fogerty, Josh Homme, Trent Reznor, Lars Ulrich, Black Francis, entre outros era um muquifo fedorento. E a "fragrância" do lugar ficava ainda mais especial em dias quentes, graças ao odor vindo de uma cervejaria localizada na vizinhança. As paredes eram cobertas por um carpete marrom e todos os que passavam por lá evitavam imaginar a origem das manchas no chão e nos sofás. O produtor Rick Rubin gentilmente lembra: "eu realmente não sentia muita vontade de sentar em nenhum daqueles móveis." Sem a mesma suavidade, o produtor Jimmy Iovine (Tom Petty and The Heartbreakers) dispara: "alguém deveria bombardear aquela merda de lugar!"
Mas havia algo de caloroso no estúdio e em seus proprietários Joe Gottfried e Tom Skeeter e os funcionários eram como uma família. Stevie Nicks e Lindsey Buckingham praticamente moraram lá durante o período entre serem dispensados do selo do qual eram contratados até entrarem para o Fleetwood Mac, por intermédio do estúdio, onde também foi gravado o multi-platinado disco da banda, em 1975.
Protagonista
O Sound City é definitivamente um lugar icônico, que abrigou de Charles Manson a Johnny Cash. Mas, embora sua história ocupe uma grande parte do filme, a inspiração original do documentário é algo que vemos logo na primeira cena, em uma tomada longa e lenta: uma gigantesca mesa de som vintage.
Sound City é, no fim das contas, um filme sobre amizade, uma quase história de amor, sobre um homem e uma mesa de som Dave Grohl e uma Neve 8028. A cara de deslumbrado de Grohl quando ele entrevista o criador da engenhoca, Rupert Neve, é prova disso.
O estúdio estava lutando por clientes no início dos anos 1970 quando o então produtor do Sound City, Keith Olsen, foi para a Inglaterra e encontrou essa mesa de som, ao preço de US$ 76 mil o dobro do valor de uma casa em San Fernando Valley. Os discos de platina nas paredes dos corredores do estúdio (Foreigner, REO Speedwagon, Pat Benatar, entre outros) confirmam que o investimento valeu a pena. Ao menos até o surgimento da gravação digital e a falência das grandes gravadoras, combinação que obrigou o Sound City a reduzir seu orçamento. Quando isso aconteceu, Grohl comprou a Neve para seu próprio estúdio.
A parte final é dedicada às gravações mais recentes feitas na Neve 8028 pelo chamado Sound City Players, supergrupo montado por Grohl, que inclui Paul McCartney e vários outros artistas que participam do filme. O resultado dessas sessões é, ao mesmo tempo, a trilha sonora do documentário, lançada em CD, e um tributo não apenas à Neve, mas ao próprio rock-and-roll.







