Assange, o prisioneiro - Carlos Ramalhete
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Assange, o prisioneiro

Foto: Ben Stansall/AFP
Foto: Ben Stansall/AFP

Por razões de saúde, recentemente tive de passar três anos e meio de cama. Cerca de um ano em cama de hospital e o resto fechado em uma casa a 300 quilômetros da minha. Foi um pesadelo. Suo frio só de lembrar. Qualquer saída, por mais complicado que fosse sair no estado em que estava, era para mim um alívio inimaginável. Foi o pior período da minha vida.

Pois desde dois anos antes do acidente que me colocou nesta condição, Julian Assange está preso, sem ter direito de botar o nariz para fora, na embaixada equatoriana em Londres. Para piorar a situação, desde março deste ano sua conexão com o mundo – a internet – lhe foi cortada. A razão desta situação é simples: ele irritou os Estados Unidos, cujo regime, desde então, quer aprisioná-lo ou mesmo matá-lo.

Para começar o processo, prepararam-lhe uma armadilha clássica de serviços de segurança do tempo da Guerra Fria: uma mulher de vida airosa deitou-se com ele, e depois acusou-o de ter tido relações com ela sem camisinha, o que, na Suécia, onde ele estava – o homem passava o tempo viajando, vivendo de seu laptop –, é considerado uma forma de estupro. Sim, senhores, o politicamente correto chegou a esse ponto por lá: sexo como Deus nos fez é liminarmente considerado uma forma de estupro num dos Estados decadentes do que um dia foi a gloriosa Europa. Ainda me lembro do tempo em que Suécia e sexo eram quase sinônimos. Muita coisa mudou nas últimas décadas, pelo jeito.

Chegando ele à Inglaterra, a Suécia pede que o governo inglês o prenda pelo horrendo crime de fornicar sem o que os ingleses chamavam de “capote francês” e os franceses, de “capote inglês”. Ele passou um tempo em prisão domiciliar na Inglaterra – momento em que foi visitado por um manda-chuva do Google, como conta em um seu livro. Foi nesta ocasião que ele percebeu que o Google, na prática, é uma extensão do governo americano. Vendo que a situação estava ficando crítica para o seu lado, ele pediu e conseguiu asilo na embaixada equatoriana em Londres, onde está até hoje. Está lá há tanto tempo que já virou equatoriano. Tem até passaporte diplomático equatoriano, que a Inglaterra, vassala dos EUA, não reconhece. A Suécia já até arquivou o processo, mas os ingleses continuam querendo prendê-lo, para entregá-lo àqueles que prepararam a armadilha sueca: os EUA.

É nisso que dá irritar os gringos. E ele soube fazê-lo com zelo e atenção. Sua página de internet, o WikiLeaks, é especializada em vazar documentos sigilosos governamentais, que muitas vezes colocam um ou outro regime – como o americano – ou pessoa física em uma situação delicada. Ele já publicou documentos e mesmo filmagens mostrando os crimes de guerra das forças de ocupação dos EUA mundo afora. Ele já publicou documentos com listas de usufrutuários de serviços de lavagem de dinheiro, tirando assim a máscara de honestidade de muitos políticos e capitalistas. Ele já publicou documentos internos do Partido Democrata americano, provando que Hillary Clinton, a candidata do regime, fizera coisas desonestas para garantir que fosse ela e não Bernard Sanders, seu concorrente intrapartidário, a perder de Trump.

Em suma, trata-se de um fofoqueiro em escala monumental, medida em terabytes de fofoca. Mas, num mundo como o atual, o tipo de fofoca de Assange é necessário. Os Estados e os poderosos dedicam-se quase que em tempo integral a enganar o populacho (no qual nos incluo, caro leitor), e levantar a cortina para que se veja o que está acontecendo nos bastidores do poder é muitas vezes necessário para que se tenha noção da realidade atrás do palco da mídia. Há vítimas nesses processos, é claro – alguém que estivesse apenas escondendo da Receita dinheiro honesto e foi descoberto pela revelação de suas contas secretas tem toda razão em detestar Assange. Mas, em relação a governos e a grandes conglomerados, há a priori um direito de saber. O segredo deve ser a exceção, e a rara exceção. Segredos criminosos, como muitos dos que Assange publicou, são duplamente criminosos: pelo crime e pelo segredo.

É uma vergonha para o regime dos EUA e para seus vassalos britânicos que Julian Assange continue prisioneiro na embaixada equatoriana. Ele deveria ser um homem livre. Livre como deve ser a informação.

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