Blog Carlos Ramalhete

Feminicídio e violência conjugal

Foto: Tinnakorn/Bigstock
Foto: Tinnakorn/Bigstock

Quando Trump foi eleito presidente americano, o New York Times – o “jornalão” americano , centro de gravidade da extrema-imprensa de lá – começou a fazer uma coluna semanal mostrando os ditos crimes de ódio que teriam ocorrido ao longo daquela semana. Não interessa que dois em cada três, segundo pesquisa feita por um jornalista desinteressado, fossem falsos. O que importava, e importa ainda, era vender a ideia de que Trump na presidência significaria um aumento no racismo endêmico naquele país.

Já aqui no Brasil tivemos a mesma coisa, mutatis mutandis, depois e logo antes da eleição de Bolsonaro. Como parte do discurso da extrema-imprensa consiste em vender a ideia de que Bolsonaro seria o oposto de tudo o que eles pregam (o que inclui o discurso feminista), e como o próprio Bolsonaro surfou esta onda durante seus longos anos no Congresso, onde tomou o maior cuidado possível em colocar-se sempre como o sujeito mais politicamente incorreto que lá havia, assim que ele chegou ao Planalto passou-se a publicar loucamente notícias de crimes violentos cometidos contra mulheres. Inclusive, mas não restringindo-se a isso, o feio neologismo “feminicídio”, que na verdade parece indicar que “homicídio” seria matar “hômi”, não matar “homo” (“o mesmo”, em grego; homicídio é a morte de um ser humano como si mesmo).

E aí caímos, mais uma vez, na questão da violência contra a mulher. Ela aumentou durante os poucos dias de governo Bolsonaro? Evidentemente não. O que aumentou foi a visibilidade desses crimes na mídia. Um aumento, aliás, extremamente bem-vindo, por ser um crime que vai contra, justamente, o código de cavalheirismo que deveria reger a nossa sociedade. Mulheres devem ser protegidas. Homens são fisicamente mais fortes para proteger as mulheres, para que elas possam ficar para trás enquanto nós nos lançamos à frente, ao campo de batalha, a enfrentar o leão da montanha, a aranha ou a barata. É uma coisa biológica tremendamente bem construída, aliás: a mulher tem em seu ventre o futuro da espécie. É nela, e apenas nela, que o neném pode crescer durante seus primeiros nove meses de vida. É dela, e apenas dela, que ele pode se alimentar durante a primeira parte de seu percurso fora do útero.

Seria um louco o Criador de uma espécie em que o sexo que alimenta, protege e guarda em si mesmo os filhotes fosse ao mesmo tempo o sexo que vai de encontro às feras, ao perigo, à morte em potencial. E, ainda que alguns elementos da Criação possam dar essa noção (sei lá, o ornitorrinco), nosso Criador de doido nada tem.

Mas temos uma sociedade em que – reclamações, como sempre, com Adão e Eva, no balcão número um – as mulheres, que deveriam ser protegidas, são frequentemente enxovalhadas e agredidas pelos mesmos idiotas que deveriam protegê-las. Daí o conceito – que continuo achando péssimo – do “feminicídio”. Ele indicaria uma morte que não teria ocorrido se a vítima não fosse mulher ou, pior ainda, uma morte motivada diretamente pelo sexo feminino da vítima. Algo como se o boçal que faz uma barbaridade dessas rugisse e dissesse “Grog vê mulher. Grog detesta mulher, ui! Grog vai matar mulher”. A chance disso acontecer é praticamente nula, apesar de a ideia servir tão bem ao discurso feminista (o mesmo, não nos esqueçamos, para o qual “a mulher precisa tanto do homem quanto um peixe de uma bicicleta”, como se não precisássemos desesperadamente um do outro, como se os dois sexos não se completassem tão magnificamente bem). Já a primeira hipótese, de um homicídio que não teria ocorrido se a vítima não fosse mulher, é também um tanto ou quanto ilusória, na medida em que não há como discernir se, por exemplo, o resultado não fosse o mesmo se fosse uma dupla de homens, dos quais um grande e outro pequeno. O baixinho poderia ser morto pelo parceiro com a mesma facilidade com que uma mulher é morta pelo parceiro. É muito comum, por exemplo, a morte de homossexuais idosos por garotos de programa jovens e fortes.

Mas há uma diferença, e uma diferença que o discurso feminista tem dificuldade em apreender: a mulher – ao contrário do que pensam as pobres feministas – deve, sim, ser protegida. Assim, se dois homens (cuja vida sexual – se existir – eu não quero conhecer) se matam, problema deles e do pobre do delegado que tem de descobrir quem matou. Já se um homem mata uma mulher, o que temos é algo muito pior: é um atentado à condição feminina, que inclui em si o dever masculino de a proteger. E é um atentado ao mesmo tempo contra o ser masculino, que leva em si o dever de proteger as mulheres. Um homem que mata uma mulher faz-se menos que um homem (não que possamos linchá-lo nem nada do gênero, mas uma longa estadia na cadeia seria muito bem-vinda), por não respeitar a mulher tanto quanto deveria. Mulheres devem ser postas em pedestais, e azar o das feministas. É só assim que podemos ensinar as futuras gerações a protegê-las.

Fica como uma curiosidade, aliás, o fato de que mais mulheres matem seus parceiros que homens suas parceiras. Isso não significa que homens devam ser protegidos das mulheres, evidentemente, mesmo porque raríssimos são os casos em que uma mulher mata um parceiro que não o merecesse. O mais comum são mulheres que passam anos, ou mesmo décadas, sofrendo o diabo nas mãos de parceiros desumanos, até que catam uma faca da mesa e a cravam no peito do safado, ou mesmo, coisa ainda mais comum, dão-lhe veneno de rato misturado na comida. Coisa comuníssima, bem mais comum que mulheres sendo mortas por covardes. Estes, aliás, raramente as matam deliberadamente, de caso pensado; se o fazem, afinal, perdem a escrava, a vítima de seus desmandos. Preferem bater nelas repetidas vezes, uma surra por dia ou duas por semana, até que elas passem a olhar com outros olhos as facas da mesa. Décadas atrás, havia um camelô que gritava debaixo da minha janela “Olha o chumbinho, mata e seca o rato! Olha o chumbinho, mata e seca o marido!”, e com certeza achava freguesas.

Mas homens matam mulheres, o que é péssimo. E, dado o modo de viver mais resguardado das mulheres, que raramente fazem parte de gangues de traficantes ou assaltantes, dificilmente vão para a guerra etc., o local da maior parte dos homicídios de mulheres é no próprio lar. Já os homens somos tão frequentemente assassinados (mais de dez homens para cada mulher) que, mesmo sendo mais numerosos os casos de homens assassinados pela companheira que de mulheres assassinados pelo companheiro, este número não chega nem sequer a 10% dos homicídios com vítima do sexo masculino.

Homens matam uns aos outros e se matam em quantidades alucinantes, especialmente num país com a ordem social mais esgarçada que traseiro de calça de motoqueiro de entregas, como o nosso. Quanto a isso, todavia, tratemos em outro texto. O que me preocupa aqui é a violência conjugal, e mais exatamente, nela, a minoria de casos de assassinato em que a vítima é do sexo feminino. Os assassinatos de homens pela própria companheira, no mais das vezes, afinal, como escrevi acima, são mais questão de autodefesa que de assassinato. Já matar uma mulher é, simplesmente, coisa de covarde. Um homem dificilmente tem a vida ameaçada em perigo real e imediato por uma mulher, a não ser no caso daquela que já decidiu matá-lo e espera uma ocasião. Nestes casos, ainda assim, bastaria uma separação de corpos. Deixa a dona quieta com seu chumbinho e suas faquinhas de cozinha e vai morar numa pensão.

Mas não. Em geral, na verdade, os casos seguem o mesmo padrão, diferindo apenas por sorte ou pela capacidade improvisatória da mulher: o homem a vitima frequente e constantemente, xingando-a, desfazendo dela, impedindo-a de sair, de falar com as amigas, de comprar roupas, de fazer o que quer e precisa fazer. O salafrário covarde filho de mil prostitutas (que as pulgas de mil camelos infestem seus sovacos), em vez de botar a mulher no pedestal que ela merece, trata-a como uma escrava, uma propriedade sem direito a fala, sem direito a voz, a opinião, ou nem sequer à vida. E ela tem medo; ela não sabe como sair dali, e tem medo de que ele a alcance na rua e a leve pelos cabelos para apanhar mais entre quatro paredes. Ela perdeu o contato com os amigos. Ela não sabe se vão acreditar nela numa delegacia. E assim ela continua, dia após dia, uma vida de pesadelo que qualquer pessoa que viva normalmente tem dificuldades enormes para começar a entender. Vi com estes olhos que a terra há de comer um caso, certa vez, em que uma mulher era amarrada numa coluna da casa com o fio do ferro de passar a cada vez que o miserável (que seus dentes apodreçam todos e caiam) de seu companheiro saía da casa. Casa essa que era geminada, com meias-paredes e sem forro. Em outras palavras, ela ficava ali amarrada ouvindo a voz dos vizinhos passando por entre o telhado e a parte de cima das paredes. E tinha medo demais para levantar a voz e pedir ajuda. E este não é o pior caso que já vi na minha vida profissional de policial.

Em geral são casos assim que levam a sopas com chumbinho ou facas de mesa cravadas no coração. A vontade que dá é dizer “bem feito”, mas na verdade a mulher acaba tendo de responder por homicídio doloso premeditado. E com razão; afinal, sem um julgamento, como se poderia chegar a discernir a sua real situação? Mas dói. Assim como dói ver uma mulher com o rosto literalmente afundado por socos de um sujeito muito mais forte que ela e, pior de tudo, um covarde degenerado (que sua genitália murche e caia) que deveria tomar conta dela e protegê-la dos perigos do mundo, em vez de ser o maior deles. Algumas dessas mulheres acabam morrendo na mão desses crápulas (que seus olhos sejam bicados por corvos), mas a maior parte segue vivendo e sofrendo, dia após dia, na mão deles.

A solução para isso é, como já cansei de dizer nesta coluna, que lutemos – uma família de cada vez – contra a decadência social que leva a esta situação. É necessário não que as crianças sejam submetidas a discursos idiotas segundo o qual mulher e homem seriam iguais: não somos. Se fôssemos, eu poderia sair no tapa com uma mocinha, na mesma medida em que posso sair no tapa com um outro homem. E aí ai da mocinha. A mulher deve ser respeitada. Posta num pedestal. Protegida até a morte. Morte do homem, bem entendido. E é isso que o homem deve aprender, desde a mais tenra infância, a fazer. Foi justamente por se ter deixado de lado esse aprendizado, por o cavalheirismo ter passado a ser visto como coisa “fora de moda”, por haver moças que xingam de todos os nomes o cavalheiro que lhes abre a porta do carro, por exemplo, que ficou mais e mais fácil para que boçais cujas unhas deveriam nascer todas encravadas tratar a mulher “como igual” e assim sentir-se à vontade sentando-lhes a borduna como poderiam fazer com um companheiro do mesmo sexo.

Mulher não é igual ao homem.

Na mulher está o futuro da humanidade.

Mulher deve ser protegida e respeitada até mesmo se morrermos fazendo-o.

O discurso da ministra Damares, como sempre ridicularizado pela mídia, segundo o qual as escolas devem ensinar as crianças a abrir a porta dos carros e dar flores para as mulheres é extremamente bem-vindo. Não por ser esta a função da escola (não é!), mas por nossa sociedade ter chegado a tal grau de decadência e de desordem que não se pode mais esperar que obviedades como essas sejam ensinadas em casa. A criança que é filha de uma mãe solteira com mais três filhos “do Cadinho” (“’cadinho dum pai, ‘cadinho doutro”…), uma criança com enorme chance de já ter sofrido abuso em casa na mão de um ou mais de seus “padrastos” sucessivos, uma criança que jamais viu a própria mãe ser respeitada, e que provavelmente não viu o próprio pai mais que umas poucas vezes na vida – talvez uma ou mais delas consistindo em vê-lo batendo na mãe da criança por ciúme dos seus companheiros posteriores – mesmo tendo ele uma tatuagem com seu nome em meio às outras que lhe enfeiam o corpo. Onde é que esta criança poderia aprender a respeitar a mãe e, a ulteriori, todas as mulheres? Onde mais ela poderia ter um exemplo do que significa ser homem de verdade? Talvez na escola. Talvez num quartel, quando chegar à idade, ou numa escola militarizada. Não sei. Só sei é que em casa isso não acontecerá.

A violência doméstica contra a mulher acontece pela mistura evidente de três fatores: a superioridade física do homem em relação à mulher, que a torna possível; a tendência masculina à projeção agressiva, que a torna provável; e a falta de cavalheirismo dos covardes – que os pelos de seus narizes encravem e inflamem todos – que a perpetram. Os dois primeiros fatores são inatos. Não dá pra fazer nada (ainda que ajude, e muito, se as mulheres aprenderem alguma arte marcial, coisa que hoje em dia faz-se necessária). Mas o terceiro é algo que aumentou tremendamente nestes últimos tempos (falo em termos de décadas, não apenas em relação à visibilidade maior do problema que a extrema-imprensa faz para atacar o presidente, que não tem nada a ver com isso) devido à decadência de nossa sociedade. E a solução possível é fazer a nossa parte: educar os nossos filhos para colocar as mulheres (mesmo as coleguinhas de pré-escola) num pedestal, e educar as nossas filhas para não aceitar menos que isso. E para as pessoas que já estão presas em relações doentias como as descritas acima, a solução é tentarmos ajudar o máximo. Daí a excelente ideia da ministra Damares, de pedir aos maquiadores, manicures, cabeleireiros e demais profissionais da beleza, a quem frequentemente as mulheres agredidas confiam a difícil tarefa de esconder os sinais do abuso, que ajudem as vítimas a denunciar seus agressores.

Cada um de nós deve ajudar ao máximo quem quer que esteja numa situação dessas. A polícia pode ajudar; se a vítima tem medo de ir à delegacia, vamos com ela. Se o vizinho está batendo na mulher neste momento, chame a polícia. Se souber de algum caso, coloque-se à disposição. Ajude. Tente guiar a vítima para fora da situação em que ela está. Relações doentias são um homicídio em câmera lenta, e o homicídio é sempre uma péssima solução.

A solução é o cavalheirismo.

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