Blog Carlos Ramalhete

O “crioulo do mundo”

Imagem: Reprodução
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Décadas atrás, John Lennon escreveu uma música cujo título e letra mostram uma verdade vergonhosa para a nossa sociedade. Aliás, para a maior parte das sociedades. Cantou ele que “woman is the nigger of the world” (a mulher é o “crioulo” do mundo”), afirmando enfaticamente que nossa sociedade coloca as mulheres abaixo de todos e não as respeita como seres humanos. A comparação entre a mulher e o “nigger”, o “crioulo” (na verdade, o termo é muitíssimo mais pesado e ofensivo; basta ver a quantidade de textos escritos pela mídia americana sobre a mera possibilidade de Trump ter pronunciado esta palavra!) dos tempos da escravidão americana, vergonhosamente considerado um ser subumano e impedido de gozar de seus direitos inalienáveis de liberdade e autodeterminação, é forte, mas, infelizmente, em muitos casos verdadeira.

Isto, na verdade, é o padrão da nossa natureza decaída. A mulher é menor, mais fraca fisicamente, e seu modo de pensar é diferente do masculino, muito mais complexo, tomando muito mais elementos em consideração. O resultado disso é que, para um homem médio aqui ou numa sociedade agrária de há 3 mil anos, a mulher é aquele serzinho lindo que fala sem parar coisas incompreensíveis. Os homens passam a tratá-la de modo paternalista, alternando entre o (ab)uso de seu corpo e o desprezo de sua mente e de seus direitos fundamentais.

“Mulher não vale nada; qualquer pobre tem uma” é outra maneira de dizer a mesma coisa. A mulher é tida como propriedade, e ao mesmo tempo desprezada. Sua fidelidade – pois mais feminino que a fidelidade, só a capacidade de esperar da mulher! – é ridicularizada e ao mesmo tempo exigida de modos tortuosos. A duríssima escolha que nos dias de hoje toda mulher deve fazer, entre a maternidade no período de maior fertilidade e a ascensão numa carreira, é simplesmente ignorada pelos homens e pelas instituições. Camille Paglia, com razão, já declarou que as universidades deveriam ter um sistema que permitisse às moças trancar a matrícula para ter filhos e criá-los nos primeiros anos, voltando depois sem entraves burocráticos. Mas não existe nem isso nem nenhum outro mecanismo que não a terceirização da criação dos filhos, fazendo com que eles tristemente conheçam melhor a babá que a própria mãe.

Na sociedade ocidental nem sempre foi assim. Nos tempos romanos a situação era ainda pior: a mulher (e os filhos, e os escravos…) era a propriedade absoluta do pai de família, que podia matar qualquer um deles sem razão alguma. Com a chegada do cristianismo, todavia, pregando que toda a Criação é governada e regida por uma mulher – a Virgem Maria, Rainha dos Céus e da Terra –, as mulheres passaram a ser vistas com outros olhos. Nos primeiros séculos da expansão cristã pelo território romano, inclusive, a nova religião era percebida por muitos como uma religião de mulheres. Elas sabiam que ali seriam respeitadas e acorriam em números muito maiores que os homens.

A sociedade desenvolvida pela soma de Roma e dos bárbaros nórdicos, cristianizada e descentralizada, foi provavelmente uma das maiores ocasiões de desenvolvimento para as mulheres, com muitas delas chegando a governar extensos territórios. Com a rebelião protestante, contudo, a situação delas começou a se reverter de volta ao triste padrão pagão de submissão. O próprio Lutero dizia que “não existe problema de castidade: basta chamar uma empregadinha”. Se a “empregadinha” consentia ou não no estupro pelo patrão, para ele era irrelevante.

A situação feminina foi piorando mais e mais com a chegada da burguesia ao poder e com a Revolução Industrial, que separou o lar do ganha-pão, afastando os homens de casa durante a maior parte do dia e, pela primeira vez, forçando as mulheres a escolher entre o lar e o trabalho. Enquanto antes de a industrialização centralizar a produção dos bens cada casa de artesão era ao mesmo tempo ateliê e residência, com no mais das vezes a mulher a cuidar das finanças enquanto o marido mexia com as ferramentas pesadas, depois do surgimento das fábricas passou a vigorar o que hoje achamos normal: um trabalho separado do lar. Poucas são as carreiras em que a mulher pode conjugar os dois: algumas profissões liberais, em que o escritório ou consultório pode ser na mesma edificação que a casa, alguns “bicos” de vendedora por catálogo, e não muito mais que isso. Esperamos que a era pós-industrial em que estamos entrando, com o retorno dos pequenos ateliês, as ajude a fazer da família novamente unidade de produção, como sempre havia sido antes da tragédia que foi a chegada da sociedade burguesa e sua ênfase na acumulação monetária.

A nossa sociedade, assim, herdou uma situação péssima. E, para piorar, foi-lhe dada uma resposta ainda pior, o feminismo. Ao negar a diferença essencial entre o masculino e o feminino; ao querer que a mulher se torne igual ao pior dos homens, na promiscuidade e na infidelidade; ao ver com maus olhos a mulher que prefere dedicar-se aos filhos em vez do caixa do supermercado; ao negar que a mulher e o homem precisam um do outro; ao negar o valor da maternidade e elevar o aborto quase a um sacramento, substituindo a Mãe Nutriz pela assassina da própria descendência; de todos estes modos a crise só foi agravada pela intervenção feminista.

Não há solução rápida nem imediata. Mas há solução, e ela passa pelo comportamento de cada um de nós. A mulher, muitíssimo mais que o homem, depende da força da civilidade. Se não houver por toda a sociedade esta virtude, quem mais sofre é a mulher. Foi para demonstrar a civilidade de seus súditos que Lady Godiva cavalgou nua e recoberta de joias pelas ruas da cidade, vendo todas as janelas fecharem-se em sinal de respeito. Já hoje a mulher que anda vestida e com as joias escondidas já corre sério risco de roubo ou estupro. Precisamos reclamar a civilidade, e isso só pode acontecer sendo, cada um de nós, um mensageiro desta virtude.

A mulher não deve nem pode ser “o crioulo do mundo”, porque não deve haver ninguém nesta posição. Todos têm direito ao respeito mais elementar, e a mulher, por sua fragilidade física, tem ainda o direito à proteção (sem paternalismos nem tentativas de aprisionamento) do homem.

A sociedade burguesa está chegando ao seu fim. Daqui a duas ou três gerações, talvez ainda no tempo de vida do meu filho, já teremos uma organização (ou desorganização) social completamente diferente. O nosso dever, enquanto cavalheiros e damas que somos, é trabalhar no sentido de que esta nova organização respeite a mulher, como nem a sociedade burguesa nem seu filho bastardo, o feminismo, souberam respeitá-la. Chega de haver “crioulos do mundo”! A dignidade humana deve tomar o primeiro lugar e impedir todo tipo de rebaixamento e negação dos direitos do próximo.

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