O túmulo de Franco - Carlos Ramalhete
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O túmulo de Franco

Jorge Díaz Bes/Wikimedia Commons
Jorge Díaz Bes/Wikimedia Commons

Socialistas e comunistas sofrem de uma necessidade quase fisiológica de controle absoluto. Se não tiverem hegemonia total em tudo e mesmo na psique de todos, os pobrezinhos ficam infelizes. E quando ficam infelizes combatem, matam, esfolam e dessacralizam tudo o que escapa ao seu modelito de pensamento único.

É exatamente isto que está acontecendo na Espanha. Na década de 30 do século passado, houve uma horrenda guerra civil. Os comunistas, socialistas e anarquistas (ainda existia isso naquele tempo) destruíram todas as igrejas e mataram todos os bispos, padres e freiras em que puderam botar as mãos. Foram quase dez mil vítimas no clero, e isso num país do tamanho de Minas Gerais. Hegemonia, sabe como é. Eles achavam engraçado desenterrar cadáveres de freiras e armá-los na rua em posições grotescas, atear fogo a igrejas, destruir imagens sacras a bala ou a machadada… Hegemonia se faz assim. Do outro lado, o exército espanhol, auxiliado por forças italianas fascistas e alemãs nazistas, além de fascistas autóctones, todos mais ou menos controlados, numa espécie de malabarismo ideológico que a esquerda inimiga teve maior dificuldade em fazer, pelo futuro ditador Francisco Franco, então conhecido como o general mais jovem do mundo.

A guerra foi um massacre hediondo. Irmão contra irmão, amigo contra amigo, espanhol contra espanhol. De um lado, a selvageria absoluta dos comunistas, socialistas e anarquistas, cada qual tentando, sem jamais conseguir, conquistar a hegemonia de pensamento e de opinião contra os outros grupos do mesmo lado. O apoio da União Soviética de Stálin fez com que os comunistas conseguissem progressivamente ganhar o controle do seu lado, enquanto, igualmente progressivamente, perdiam a guerra. A própria população dominada por eles, em sua maioria, não apoiava nenhum dos grupos, e muitíssimos apoiavam secretamente o lado franquista.

E este foi também uma união de gente que não concordava entre si; os movimentos católicos e o movimento fascista competiam com o Exército pelo controle das tropas. Dentro do próprio Exército, generais vaidosos se viam como mais importantes que realmente eram. E, sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo, as tropas que Franco arrancou de Mussolini e de Hitler para combater o comunismo. Franco, todavia, soube surfar essas ondas todas ao mesmo tempo, fazendo favores e retirando-os, deixando de agir até que a hora fosse a certa e, em suma, jogando uns contra os outros até se ver sem competidores. Seu competidor maior, Primo de Rivera, chefe do movimento fascista Falange, foi assassinado pelos comunistas enquanto Franco não movia um dedo para salvá-lo.

Franco, em suma, foi um sujeito muito esperto, mas não muito ético. Ele, com seus métodos no mínimo debatíveis e com seus aliados muitas vezes asquerosos, todavia, conseguiu salvar a Espanha e a civilização espanhola da maior ameaça que jamais sofreu. Depois de vencida a guerra civil, ele instaurou uma ditadura conservadora, tipicamente espanhola, que espertamente conseguiu manter-se fora da Segunda Guerra Mundial, mesmo devendo favores aos membros do Eixo. A ditadura prosseguiu por décadas, enquanto crescia uma nova geração da Família Real espanhola, que finalmente pôde voltar ao trono, na pessoa do rei João Carlos – o mesmo que perguntou ao nefando Chávez “por que não te calas?!” –, pouco antes do falecimento de Franco.

Pois bem: Franco e Primo de Rivera foram sepultados em um gigantesco monumento que aquele mandou construir depois da guerra, o Vale dos Caídos, onde um mosteiro garante orações incessantes pelas vítimas da guerra e onde foram sepultados todos os que foram encontrados nas imensas valas comuns feitas no calor da guerra por ambos os lados. Nada mais justo; o máximo que se poderia pedir, a meu ver, seria colocar lá também os túmulos dos líderes comunistas, socialistas e anarquistas. Mas estes não querem orações; preferem a vingança.

E agora os socialistas voltaram ao governo espanhol, e querem, como queriam já em 1930, a hegemonia. Esquecendo-se de que mais socialistas foram mortos pelos aliados comunistas nas lutas intestinas da República Popular que pelas tropas de Franco, eles querem sua vingança: querem tirar o túmulo do “generalíssimo” do Vale dos Caídos. Aproveitando o ensejo, querem tirar também os monges. E não duvido que queiram dinamitar a cruz de 150 metros que encima o que deveria ser um monumento aos caídos, às vítimas, a todos os que sofreram de ambos os lados. Afinal, aquilo tudo os lembra de que não têm a tão desejada hegemonia. E sem hegemonia, socialistas não respeitam nada nem ninguém até obtê-la.

Foi por isso que Franco surgiu, foi por isso que a Espanha foi devastada numa guerra fratricida. Há gente que não aprende.

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